Crítica: “História de Um Casamento” consegue trazer beleza num processo de dor

Foto: Divulgação

A Netflix, definitivamente, está trabalhando para chegar com força ao Oscar de 2020! Além da obra-prima “O Irlandês (The Irishman, 2019), a plataforma de streaming lançou este delicado drama “História de Um Casamento” (Marriage Story, 2019), que, mesmo sem maiores apelos comerciais além da dupla de protagonistas, certamente figura entre os melhores do ano.

Dirigido e roteirizado pelo ótimo Noah Baumbach (“A Lula e a Baleia”, 2005; “Frances Ha”, 2012), o filme aborda o processo de divórcio do casal Charlie (Adam Driver), um conhecido diretor de teatro, e Nicole (Scarlett Johansson), uma atriz que busca reconstruir a carreira. Os dois concordam em não contratar advogados, porém, os planos mudam e o acordo caminha para ser não tão pacífico como planejavam.

Pela temática, já é possível imaginar que não se trata de uma obra feliz e o cineasta transmite a sensação de existir um elefante na sala, um incômodo constante. Para isso ele constrói metáforas visuais, como a distância entre os dois no metrô separadas por uma barra de ferro; a sala vazia de Charlie; quando portas se fecham, literalmente, na sua cara; ou quando buzinas estridentes, típicas do caos de Nova York, ecoam nos seus ouvidos após receber uma notícia.

Mesmo com discussões bem pesadas (trechos onde as interpretações ganham ainda mais força) e o doloroso processo judicial pela guarda do filho (vivido por Azhy Robertson, eficiente ao tentar imprimir uma indiferença por figurar no centro de uma disputa, ainda que a predileção pela mãe seja notória) o longa é cheio de momentos belos. Afinal, Charlie e Nicole se amaram e ainda guardam um profundo carinho um pelo outro.

Logo na introdução, o diretor trata de apresentar as características de seus personagens através de emocionantes narrações em off de cartas em que um descreve como enxerga o seu companheiro. Um recurso não tão criativo, mas muito funcional. E tal elemento ainda servirá para reviver o drama mais adiante.

Pequenos gestos como ajudar na escolha de um pedido no cardápio ou um corte de cabelo reforçam o peso da perda entre eles. Aqui e acolá surgem silêncios desconcertantes e olhares entre eles, com o sentimento de que o destino poderia ter sido diferente, de modo que a narrativa brinca de maneira sarcástica com o espectador para que ele torça por um final feliz. Uma cena singela em que eles fecham um portão (olha a analogia!) chega a ser tocante.

Mérito da excelente química entre Driver e Johansson! Ela, em seu melhor papel desde “Encontros e Desencontros” (Lost in Translation, 2003), usa a força para superar a insegurança de quem se anulou boa parte da vida em prol da família. Em nenhum momento ela tenta se provar uma “mulher exemplar” perante a sociedade. Ela age como uma humana que sempre procurou dar o melhor de si e, agora, almeja algo diferente para ela.

Já o ator de 36 anos e fisionomia peculiar confirma ser um dos melhores atores de sua geração (e ainda dribla a imagem do vilão Kylo Ren num ano com receptividade ruim de “Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker”, 2019), transmitindo a falta de tato de quem perdeu o seu suporte essencial, a ponto de cortar a si mesmo e ir ao chão (literalmente). Também é responsável por um surpreendente momento musical que, apesar de parecer deslocado à primeira vista, é comovente.

Destaque também para a performance brilhante de Laura Dern como a advogada de Nicole. Cheia de personalidade, a Nora Fanshaw vivida por ela usa roupas despojadas numa profissão formal e se movimenta de maneira expansiva, soando intimidadora para quem está num lado contrário. Por transmitir sempre propriedade no que fala, Baumbach encarregou a ela o momento em que declama a sua visão crítica sobre o mundo machista.

O roteiro trata de apresentar dois advogados com personalidades completamente opostas para Charlie. O Bert Spitz vivido de maneira fraterna pelo veterano Alan Alda é aquele homem passivo e ingênuo que se coloca na pele do cliente. Perfil que jamais venceria uma causa contra Nora. Bem diferente de Jay Marotta, interpretado de maneira estereotipada por Ray Liotta, o tipo de cara capaz de baixar o nível e chutar qualquer situação de bem estar que possa existir entre os envolvidos.

“História de Um Casamento” é aquele longa que, mesmo melancólico, passa mensagens positivas. A vida segue, mas nada impede de evitar a queda do outro. E que bela metáfora para isso como…amarrar o cadarço do sapato!

Nota: 9,0