
Se tem algo que pode definir essa recente trilogia da longínqua franquia “Star Wars” é: falta de sincronia. “O Despertar da Força” (The Force Awakens, 2015) funcionou ao apelar para a nostalgia com um notório remake de “Uma Nova Esperança” (A New Hope, 1977) enquanto apresentava os novos personagens. “Os Últimos Jedi” (The Last Jedi, 2017) gerou a revolta de fãs conservadores por tomar rumos inéditos e ousados. Chegaram até, pasmem, a pedir que ele fosse retirado do cânone.
Diante do risco de desagradar os “roteiristas de internet”, este “Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker” (Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker, 2019) basicamente se resume a desfazer o que o anterior fez e a “pedir desculpas” ao “Fandom”, soando como um desfecho genérico e com pouco valor próprio.
Na trama, com o retorno do Imperador Palpatine (Ian McDiarmid), todos voltam a temer seu poder e, com isso, a Resistência toma a frente da batalha que ditará os rumos da galáxia. Treinando para ser uma completa Jedi, Rey (Daisy Ridley) ainda se encontra em conflito com seu passado e futuro, mas teme pelas respostas que pode conseguir a partir de sua complexa ligação com Kylo Ren (Adam Driver), que também se encontra em conflito pela Força.
A escolha por J.J. Abrams para dirigir a retomada de Star Wars nos cinemas em “O Despertar da Força” era certeira, afinal, ele já havia revivido outra franquia com decência, “Star Trek” (2009), além dos bons “Missão: Impossível III” (2006) e “Super 8” (2011) – este, uma homenagem aos longas adolescentes dos anos 80 no estilo de “Os Goonies” (1985). Fazer algo em cima do que já existe é com ele mesmo! Já Rian Johnson sempre mostrou coragem para imprimir seus traços autorais, desde a ficção existencialista “Looper” (2012) e o fantástico episódio “Ozymandias”, da série “Breaking Bad” (2013). É aceitável questionar algumas decisões de “Os Últimos Jedi”, mas o filme em si foi um admirável salto criativo na franquia.
Se a Disney, atual detentora dos direitos da franquia, planejou ou não os rumos dos três filmes, nunca vamos saber. Mas a impressão é que isso não aconteceu e trouxeram J.J. Abrams novamente para fazer um curativo nas feridas de certos fãs. Para completar o pacote, o roteiro ficou a cargo de Chris Terrio, vindo de “Batman Vs Superman” (2016) e “Liga da Justiça” (2017), filmes marcados por problemas na produção justamente pela receptividade dividida do público. O resultado não poderia ser outro além de um “Frankenstein“, cheio de costuras sobre o que desagradou a um nicho específico, muitos fan-services e resoluções bonitinhas com o intuito de fazer a geral bater palmas e gritar na sala de exibição.
Dentre as contribuições de Rian Johnson, apenas o “Skype da Força” que permite uma comunicação à distância entre Rey (Ridley, cujo carisma não é suficiente para levar o protagonismo nas costas) e Kylo Ren (Driver, de longe o melhor ator desta nova trilogia), permanece. O mistério em torno dos pais da Rey, que havia sido quebrado no anterior, ganha uma reviravolta pra lá de forçada, que ainda manda pras estrelas a ideia de que a Força pode estar em qualquer um (o menino da vassoura da cena final de “Os Últimos Jedi” é totalmente esquecido). Tem até diálogos claramente provocativos, como uma “lição” de como se trata um sabre de luz.
A ideia de honrar figuras da trilogia original é válida, mas muitos aqui soam aleatórios, principalmente o Imperador Palpatine, precisando recorrer aos créditos de abertura para explicar o seu retorno, como se a morte do misterioso Snoke não abrisse espaço para que Kylo Ren fosse aqui o vilão de fato. A General Leia, vivida pela saudosa Carrie Fisher, visivelmente teria uma participação maior. Por causa da morte precoce da atriz, a produção fez remendos com filmagens dos longas anteriores e uso de CGI que, alguns funcionam, outros ficam bem estranhos, com diálogos deslocados. A ideia dela ter o seu sabre de luz sendo introduzida no nono filme não permitiu a ela ter o espaço que merecia. Ainda assim, dar a eterna “princesa” um destino honroso teve o seu valor.
Ao mesmo tempo, o roteiro tenta valorizar os novos personagens, colocando Rey, Finn (John Boyega com a mesma cara de assustado de sempre) e Poe Dameron (Oscar Isaac trazendo o charme e canastrice necessários) num mesmo núcleo. O problema é que a aventura se resume a procurar vários McGuffins (definição para aquele objeto que serve para mover a trama mas a sua função é irrelevante) e o roteiro ainda tenta refazer a imagem de tais coadjuvantes, como se assim fosse necessário, ao invés de dar a eles os seus momentos individuais.
Se Poe já tinha mostrado a sua liderança e habilidade diferenciada no comando de uma X-Wing, aqui tratam de aproximá-lo de maneira nada natural das características de Han Solo e até trazem um interesse amoroso para ele, a guerreira Zorii Bliss (Keri Russell, presença constantes nos longas de Abrams), que só serve para isso mesmo. Mas pior ainda é o que fazem com Finn. Pintado anteriormente como um possível protagonista e sensitivo da Força, pula para um suporte de pouca contribuição e que sequer consegue dizer o que queria para Rey, algo que a narrativa trata de ignorar posteriormente e deixar sem resolução.
Vexatório mesmo é o que fazem com Rose (a carismática Kelly Marie Tran), que em 2017 foi vítima de violentos ataques xenófobos que fizeram a atriz sair das redes sociais, sendo agora relegada a uma quase figurante, aparecendo por apenas 75 segundos! Logo ela, que teve a intenção de se sacrificar para salvar Finn, agora dá uma breve desculpa para não ir para a ação. E ainda tratam de introduzir Jannah (a talentosa Naomie Ackie, sem culpa da maneira grosseira que o roteiro enfiou ela), uma nova companhia para o ex-Stormtrooper, com origens semelhantes, no intuito de “compensar” os que não gostaram do que estava sendo desenhado.
E o roteiro parece brincar com quem quer se importar com o destino dos personagens, usando um artifício rasteiro de induzir a morte de alguém importante para pouco depois ele retornar. Algo natural num blockbuster, mas aqui o artifício se repete tanto ao ponto do espectador não temer mais pelo destino de ninguém, enquanto as poucas mortes “definitivas” são pouco ou nada sentidas.
Enquanto isso, os realizadores se confiam nas participações especiais para garantir a aprovação. Presente nos trailers, Lando Calrissian (Billy Dee Williams) traz a sua cara de pau já esperada e funciona mais pela nostalgia do que função específica, já que o plot na ação final poderia ficar a cargo de qualquer um (no caso, Poe faria bem mais sentido). Uma outra surpresa, louvável por conseguirem manter em segredo, consegue emocionar, ainda que o seu valor seja diminuído ao lembrar que tal presença não passa do inconsciente. Mas, pelo menos foi bonito de ver.
Para não dizer que tudo é defeito, há boas cenas, como a perseguição no deserto com direito a Stormtroopers voadores e a luta de sabres entre Rey e Kylo no meio das ondas. O mesmo vale para o ressurgimento da Millenium Falcon no terceiro ato rodeada de outras naves. Percebe-se um cuidado com a fotografia e todo o mise-en-scène, mantendo a aura da saga. A trilha sonora clássica de John Williams segue intacta! Existe muito de “Star Wars” ali, da briga entre o bem e o mal, da honra dos jedi!
Antes deixado para escanteio, aqui C-3PO (Anthony Daniels) tem um espaço maior com seu característico humor de constrangimento. Se o estúdio tem a necessidade de criar algo novo para vender brinquedos e falha com o fraco androide D-O (voz do próprio diretor J.J. Abrams), que mais parece um secador de cabelo, o simpático alienígena Babu Frik (voz de Shirley Henderson), criado com efeitos práticos, rouba a cena e tem tudo para fazer sucesso com as crianças.
Uma pena que toda a construção de anos culmina numa batalha final sem emoção e repleta de diálogos expositivos ao extremo, em que alguém repete o que deve (ou não) ser feito e sua respectiva consequência. O mesmo vale para a guerra entre naves que acontece acima do embate principal, que pouco dá para perceber o que acontece, quando a intenção dos realizadores é priorizar momentos pontuais de vibração de quem assiste. E ainda tem uma festa com um hipócrita beijo homossexual entre figurantes que só tenta passar o pano e deixar o seu carimbo de inclusivo, quando toda a produção ignora a quebra de padrões (incluindo o possível affair entre Finn e Poe).
Encarando a experiência como uma montanha-russa, tem divertimento garantido: perseguições, troca de lasers e maniqueísmos que marcaram a saga original, essenciais para a época. Se fosse um produto isolado, seria uma homenagem digna. Mas como uma peça de um projeto maior, difícil negar que é algo muito covarde e que consolida o desgaste de uma história tão incrível.
A esperança é que revivam a ideia de uma nova trilogia comandada por Rian Johnson…
Nota: 5,0