Crítica: “O Farol” é um perturbador mergulho na insanidade com estética deslumbrante

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O gênero terror anda passando por uma reformulação em que ganhou uma espécie de subgênero apreciado por parte dos espectadores mais exigentes, indo além dos “jump scares” (os sustos por efeitos sonoros). O que de certa forma cria uma zona delicada, confundindo a soberba com a qualidade em si. Um dos principais nomes desta moda, ao lado de Ari Aster (“Hereditário”, 2018; “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, 2019), é Robert Eggers, que estreou com o excelente “A Bruxa” (The Witch, 2015).

Novamente sob o guarda chuva das bem sucedidas produtoras A24 (“O Quarto de Jack”, 2015; “Projeto Flórida”, 2017) e RT Fetaures (do brasileiro Rodrigo Teixeira, de “Me Chame Pelo Seu Nome”, 2017; “Ad Astra – Rumo Às Estrelas”, 2019), o segundo longa do diretor é ainda mais deslumbrante e perturbador. E principalmente, “O Farol” (The Lighthouse, 2019) não é um filme que será apreciado por qualquer um, o que não necessariamente o torna uma obra prima.

A trama de passa no início do século XX. Thomas Wake (Willem Dafoe), responsável pelo farol de uma ilha isolada, contrata um jovem (Robert Pattinson) para substituir o ajudante anterior e colaborar nas tarefas diárias. Enquanto os dois homens se conhecem e se provocam, fenômenos estranhos começam a acontecer ao redor.

A estética construída por Robert Eggers é a primeira coisa a se bater o olho e perceber que ali existe uma preocupação em fugir do trivial. Filmado todo em preto e branco, o visual se assemelha ao cinema experimental soviético do início do século XX. Os diálogos recheados por linguagem arcaica, com forte influência da literatura de aventuras marítimas, além do toque de mistério que se assemelha a H.P. Lovecraft (principalmente o conto “O Chamado de Cthulhu”) e Robert W. Chambers (“O Rei Amarelo”).

Quem procura assombrações tradicionais provavelmente vai desistir da experiência logo do início, visto que a história não tem pressa para avançar. Eggers passeia com a câmera por todo o minúsculo ambiente com cautela para transmitir a claustrofobia que os personagens vivem e detalhes que parecem irrelevantes, como o jovem vivido por Pattinson batendo a cabeça ao entrar no quarto, são essenciais para isso. Sons constantes de flatulência pelo velho vivido por Dafoe, além de focos em excrementos reforçam o quanto a vivência ali será incômoda.

Há uma demora para acontecer a primeira fala de alguém e, quando finalmente a câmera foca nos rostos da dupla principal numa mesa de jantar, conferimos a personalidade sarcástica e opressiva de Wake, deixando claro que não vai permitir que o seu subalterno tenha vida fácil. Todo o assédio moral na hierarquia e o trabalho humilhante do novato é apenas o início para o caótico misto de sentimentos que virá a se instituir entre eles. Não à toa, os laços e o respeito se estreitam quando o rapaz pede para ser chamado pelo nome…Ephraim Winslow.

Juntos, eles vão a extremos! São muitos gritos, agressões, abraços, alucinações e álcool, muito álcool, num mergulho em um abismo pela sobrevivência, deixando em segundo plano a sanidade. Assim, o roteiro de Robert, ao lado do seu irmão Max Eggers, traça um experimento sobre humanos em situações de desespero. Fica à critério do espectador levantar teorias se algum deles matou alguém, que tipo de vida tinham antes dali ou até especular se eles são a mesma pessoa! Nada fica mastigado! Para isso, planos estáticos e demorados, muitos closes, mostram eles sapateando, quebrando as estruturas, atenuando a perturbação.

Não é incorreto dizer que todo o terror ali é psicológico e o cineasta utiliza muitas metáforas e figuras de linguagem, como a sereia que perturba a libido de Ephraim. Mas existe o tom sobrenatural, especialmente girando em torno do que existe de fato no misterioso farol, e aparições de relance de uma lula gigante. Há pistas do que cada símbolo pode significar, principalmente através da mirabolantes falas de Thomas Wake, que citam até o lendário pirata Davy Jones (que muitos associam como um monstro ou o próprio diabo). Tem ali uma forte inspiração da mitologia grega, de modo que a jornada dos dois remete a Proteu e Prometeu, com incidentes semelhantes entre os personagens e as figuras históricas.

Se em seu projeto anterior, “A Bruxa”, Eggers abordou o processo de emancipação feminina, em “O Farol” ele aponta para a necessidade de autoafirmação (algo não muito diferente de fragilidade) da masculinidade. Não apenas pela tensão sexual induzida entre os protagonistas, mas através de muitas representações de sêmen, seja de maneira explícita ou através da tinta branca, numa certa cena que envolve um cabo, numa tomada de cima para baixo.

Como toda a trama depende da performance da dupla, Robert Pattinson e Willem Dafoe estão fantásticos, virando verdadeiros cães raivosos sem vacina e sem coleira. Se alguém ainda duvida do talento de “novo Batman” por causa da sua presença na “Saga Crepúsculo”, pode rever os conceitos. Ele tramita da insegurança para a paranoia e loucura de maneira mais do que admirável. Já o veterano, que nem precisa mais provar nada para ninguém, continua a impressionar. Sem entrar em muitos detalhes, um certo monólogo em que ele parece soltar uma maldição no seu amigo/adversário e, ou momento em que ele leva terra na cara, são dignos de aplausos em pé.

“O Farol” é visualmente sublime e não subestima a inteligência do seu público. Ainda assim, muitas vezes fica a impressão de que os 110 minutos de projeção são recheados por uma casca bonita e blindada de crítica, enquanto o conteúdo soa repetitivo e sem consistência, dependendo dos atores para manter o interesse em alta. O que nada disso coloca em cheque o gigante potencial de Robert Eggers.

Nota: 8,5