Crítica: “Jojo Rabbit” é humano e uma bela sátira que expõe o ridículo do nazismo

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A comédia desde os primórdios da humanidade tem sido uma ferramenta para a reflexão. Assim como o cinema já utilizou várias vezes da imaginação infantil como escudo para contextos cruéis, casos de “A Vida É Bela” (La vita è bella, 1997), “O Labirinto do Fauno” (El laberinto del fauno, 2009), “Onde Vivem os Monstros” (Where the Wild Things Are, 2009), entre outros. Unindo essas duas vertentes, o diretor neozelandês Taika Waititi (“O Que Fazemos nas Sombras”, 2014; “Thor: Ragnarok”, 2017) não foge das polêmicas ao abordar o nazismo em tempos de tensão mundial e entrega em “Jojo Rabbit” (idem, 2019) uma obra escrachada e bela ao mesmo tempo.

Na trama, Jojo (Roman Griffin Davis) é um garoto alemão solitário de 10 anos cujo maior sonho é integrar a Juventude Hitlerista. Um dia, ele descobre que sua mãe (Scarlett Johansson) está escondendo uma garota judia (Thomasin McKenzie) no sótão. Ajudado apenas por seu amigo imaginário, Adolf Hitler (Taika Waititi), Jojo deve enfrentar seu nacionalismo cego enquanto a Segunda Guerra Mundial prossegue.

A ideia de amenizar um contexto tão bárbaro através do humor é, de fato, questionável. Mas no momento em que o roteiro foca na inocência de crianças, etapa da vida com pouco conhecimento de vida e senso crítico, o longa assume que a falsa leveza é proposital, principalmente à medida que o protagonista se desenvolve. A premissa de existir um exército formado pelos pequenos portando armas que sequer conseguem carregar e vestindo uniformes claramente de papel é por si só absurda, fomentando o tom satírico.

O cenário criado por Taika é visivelmente irreal, cheio de cores vivas, seja nos cenários abertos captando o verde da vegetação e o céu azul, ou nos ambientes fechados, com pinturas e figurinos coloridos, sem faltar o vermelho (em alusão à bandeira do nazismo) em vários detalhes, lembrando filmes dirigidos por Wes Anderson, em especial “Moonrise Kingdom” (2012). É bonito de se ver, bem diferente do que seria um ambiente povoado por nazistas.

Como se não bastasse a representação dos nazistas como estúpidos, soando ridículo quando repetem a saudação “Heil Hitler!” (Salve Hitler!) intervalados ao adentrarem num ambiente, o roteiro inclui diversas gags que exaltam o tamanho da ignorância deles ao destilar ódio com judeus, descrevendo-os como monstros ou até como culpados por qualquer mau-caratismo de outras pessoas. A criatividade do diretor é conferida já na sequência de abertura, ao som de “I Want to Hold Your Hands” em alemão, numa montagem com imagens reais fazendo um paralelo com o fanatismo pelos The Beatles. Ao apresentar o tal acampamento, mais bizarrices como queima de livros (algo bem condizente com o cenário atual)!

A construção dos personagens é primordial para a mensagem pacifista que o longa pretende transmitir. Jojo é um típico menino fofinho que se orgulha de ser loiro e dos olhos azuis, como uma “raça superior”. Mas um acidente já o coloca numa situação de maior fragilidade e, à medida que outros acontecimentos surgem e o encanto pela adolescente Elsa se desenvolve, a ficha do garoto sobre o que o cerca vai caindo. O pequeno Roman Griffin Davis, indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia ou Musical, transita bem entre essas muitas nuances, se mostrando um talento a ser observado.

Óbvio que parte do mérito da sua atuação é da direção de Waititi. Ele tem o cuidado de introduzir um código de narrativa ao focar em sapatos que estão na altura dos olhos do garoto – já que a pessoa que os calça está em cima de um muro -, e o momento mais emotivo da projeção está quando Jojo contempla a beleza da liberdade de uma borboleta no meio de um cenário de caos, até a câmera virar para…sapatos! A inclusão de dançar como forma de abstrair de todo o terror funciona aqui, ainda que não seja criativo.

Scarlett Johansson utiliza da sua experiência tanto em dramas como em comédias para fundamentar o papel da mãe que precisa aceitar certos absurdos para evitar retaliações, mas transborda amor na criação do filho. Quando altera vozes para simular falas do pai, que saiu para lutar na guerra e nunca voltou, fazendo o garoto sorrir, ela mostra imensa sensibilidade. Um papel bem diferente do que aquele dela em “História de Um Casamento” (A Marriage Story, 2019), pelo qual garantiu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, mas a indicação também para Melhor Atriz Coadjuvante por “Jojo Rabbit” não foi exagerada.

O restante do elenco está ótimo, com destaque para o menino Archie Yates, que vive Yorki, o atrapalhado melhor amigo do protagonista, claramente uma criança deslumbrada e sem um pingo de noção da realidade cruel em que está envolvido. Thomasin McKenzie está correta como a judia Elsa, que mostra uma maturidade necessária para a própria sobrevivência, mas com senso de humor para tirar sarro da inocência de Jojo. A Fraulein Rahm vivida pela comediante Rebel Wilson segue um estereótipo pronto apenas para disparar piadas que, de tão mau gosto e pela seriedade com que ela as profere, arranca risos.

O personagem mais dúbio é o Capitão Klenzendorf, vivido pelo sempre competente Sam Rockwell. Apesar de ser uma liderança da tropa alemã, ele não é necessariamente retratado como mal caráter, assumindo o posto inclusive para disfarçar segredos sobre sua sexualidade, algo que fica induzido pela constante proximidade com o calado personagem de Alfie Allen. Até o seu destino é omitido pela câmera, causando uma espécie de empatia por parte do espectador. Afinal, pode um nazista ser bom? Jamais! Ele apenas está no bolo das caricaturas. Obviamente, não tão explícita como o Hitler imaginário vivido pelo próprio Taika Waititi, propositalmente afetado e exagerado, um tipo que o verdadeiro certamente repugnaria.

Ainda que a transição entre gêneros pareça brusca em alguns momentos, “Jojo Rabbit” traz uma bonita mensagem de amor ao próximo numa roupagem cheia de deboche aos que pregam a supremacia. Faz questão de não ser discreto e, mesmo que alguns possam compreender de maneira errada a sua proposta, principalmente em tempos de políticas polarizadoras em que o nazismo segue com traços fortes, tal obra é um deleite.

Nota: 9,0