
Martin Scorsese viu o seu “O Irlandês” sair de mãos vazias no Oscar 2020, mas teve o seu valor reconhecido pelo grande vencedor da noite, Bong Joon-ho. Sorrisos sinceros que simbolizam a importância da consagração de “Parasita”, o primeiro longa falado em língua não inglesa a levar o troféu de Melhor Filme. Na verdade, todo real apreciador do cinema se deu como satisfeito pela vitória do longa sul-coreano, ainda que tivesse outros preferidos.
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É costumeiro ver obras de tom “neutro”, de difícil rejeição, serem premiadas. Assim, “O Discurso do Rei” tirou o prêmio de “A Rede Social” ou “Cisne Negro” em 2011, “Spotlight” tirou de “Mad Max – Estrada da Fúria” em 2016 e, ano passado, o de péssimo gosto “Green Book” tirou de “Infiltrado na Klan” ou “Roma”. Tudo indicava que em 2020 o escolhido seria “1917”. É correto e visualmente deslumbrante. Mas felizmente desviaram da aposta “segura”.
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Um sinal de que a Academia está pensando fora da caixa? Talvez. Só o tempo irá dizer. Mas não deixa de ser um sopro de esperança ver um filme tão rico como “Parasita”, uma ácida crítica sobre as diferenças sociais que transita entre gêneros, da comédia ao terror, com uma sutileza que poucos conseguem, sair premiado com o principal prêmio.
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Em meio a muitas campanhas com (justas) críticas a falta de diversidade, algo que se refletiu inclusive nesta edição (nenhuma mulher foi indicada na categoria Direção e a atriz Cynthia Erivo foi a única negra indicada), o prêmio foi uma “resposta” que a Academia precisava para limpar a própria imagem, principalmente após a anunciada renovação dos membros votantes.
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O troféu de Melhor Filme Estrangeiro estaria de bom tamanho? Sim. E não! Nem de longe tal categoria é um subgênero, tanto que o Brasil luta para um dia conseguir vencer nela. Mas para os Estados Unidos, se trata de algo fora do nicho deles. E eles não curtem muito pisar fora do jardim, muito menos assistir filmes com legenda.
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Ver o tímido Bong Joon-ho frisar em discursos a importância de valorizar obras de outros idiomas é reconfortante. O cineasta fez uma campanha discreta ao seu modo, afirmando que iria “beber todas” se ganhasse ou se perdesse. A alegria é bonita. E merecida!