Crítica: “Aves de Rapina” é colorido, divertido e sem compromisso

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“Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016), definitivamente, é um filme a ser esquecido. Mas se teve algo que funcionou ali foi a performance de Margot Robbie como Arlequina, junto ao bom trabalho de maquiagem (que inclusive ganhou o Oscar!), estimulando muitas mulheres a fazerem cosplays. Um longa solo com a personagem não era uma aposta das mais seguras, mas a DC Comics parece vir se reestruturando com boas produções individuais, sem a pressão para criar um novo universo compartilhado, vide “Aquaman” (2018) e “Shazam!” (2019).

“Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa” (Birds of Prey and the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, 2019) – cujo enorme subtítulo causou uma certa confusão, fazendo a Warner Bros. alterá-lo em alguns lugares para “Arlequina em Aves de Rapina” -, de fato, passa bem longe daquele ar sombrio dos longas dirigidos por Zack Snyder, com o tom mais próximo dos últimos citados acima. Não se leva à sério e passa a mensagem de empoderamento feminino sem discursos didáticos. Ainda que seja bobo e passageiro, o resultado funciona por jogar seguro, com breves pitadas de ousadia.

Na trama, Arlequina (Robbie) busca seguir o próprio caminho após terminar o relacionamento com o Coringa. Em meio a muitos confrontos e busca por recompensas, ela acaba por formar com Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), a policial Renée Montoya (Rosie Perez) e a menina Cassandra Cain (Ella Jay Basco) um improvável grupo que precisa enfrentar um novo criminoso (Ewan McGregor) que ameaça causar destruição em Gotham City.

Apesar da ideia de equipe feminina, o projeto, em que Margot Robbie também assina como produtora, não esconde que se trata de um filme da Arlequina, tanto que a narrativa é conduzida a partir da narração e ponto de vista dela. Assim, explica-se algumas passagens que soariam absurdas, como uma explosão toda colorida, armas que atiram confetes e glitter, pois tudo decorre da visão da personagem conhecida pelo perfil maluquete, preferência visual novamente vista em seus figurinos alegres e criativos, a cargo da competente Erin Benach (de “Nasce Uma Estrela”, 2018).

À primeira vista, as escolhas da diretora Cathy Yan (do independente “Dead Pigs”, 2018) em optar por uma montagem cheia de idas e vindas entre períodos pode soar problemática quando nos deparamos com cenas nitidamente deslocadas. Mas logo nos acostumamos quando percebemos que faz parte do ar cartunesco e da mente nada convencional da Harley Quinn. Tanto que já de início, o resumo da história da protagonista até o término com o “Palhaço do Crime” (cujos traços são bem diferentes daquela versão horrorosa de Jared Leto) é em forma de animação 2D, bem infantil e com cores fortes.

A narração em off fala diretamente com o espectador e a protagonista quebra a quarta parede algumas vezes para conversar com quem está do outro lado da tela. “Deadpool” (idem, 2016) rompeu padrões de longas do gênero e aqui fica clara a inspiração. Para se aproximar do espírito de histórias em quadrinhos, muitas onomatopeias surgem em forma de letreiros simulando sons (artifício que o espetacular “Homem-Aranha no Aranhaverso”, 2018, fez muito bem) e as legendas na tela descrevendo os nomes de quem vai surgindo e quais os males que eles fizeram ou que a Arlequina fez a eles funcionam para o humor. Tudo embalado por uma trilha sonora de hits do pop e rock (obviamente com vocal feminino), alguns clássicos “Lado B”, moda que James Gunn restabeleceu em “Guardiões da Galáxia”.

O roteiro de Christina Hudson (do legalzinho “Bumblebee”, 2018) é simplório e se apoia no carisma das anti-heroínas e nos tais recursos narrativos para funcionar. Basicamente, tem um MacGuffin (dispositivo de enredo sem função específica que é perseguido pelos personagens), no caso um diamante que é objeto de desejo do vilão. Enquanto todas acabam se encontrando nesse contexto, as lições feministas são inseridas em situações como um comerciante que diz aceitar pagamento com “troca de favores”, caso de assédio enquanto a mulher está alcoolizada ou mesmo a maneira grosseira disfarçada de carinhosa como a Canário Negro é tratada pelo patrão.

Para a primeira experiência no comando de cenas de ação, Cathy Yan não faz feio, contando com o fortíssimo auxílio de Chad Stahelski, dublê e diretor da franquia “John Wick” (2014, 2017, 2019) para a elaboração de complexas coreografias, utilizando movimentos não convencionais como piruetas, armas como taco de baseball e patins numa perseguição de carro. Yan não exagera nos cortes e deixa as lutas fluírem bem, ainda que o uso da câmera lenta traga uma certa artificialidade. Há sequências visualmente belas, como aquela da prisão cheia d’água, e a violência está na medida certa (justificando a censura R+, proibido para menores de 17 anos, nos EUA), com ossos fraturados e até uso de drogas, mas sem extrapolar no sangue.

Além de talentosa, Margot Robbie é muito carismática e isso contribui para tornar a experiência agradável. Sem estar sexualizada, ela transmite para todos a impressão de ser louca, mas que tem controle sobre as reais intenções, tendo o timing cômico como fator essencial. A sempre ótima Mary Elizabeth Winstead tem menor tempo em cena e a construção da sua personagem a limita a manter a feição fechada, mas sua Caçadora tem um arco dramático relativamente bem desenvolvido através de um flashback no melhor estilo “Kill Bill” e ela convence como a mais brutal do grupo.

Se a charmosa Jurnee Smollett-Bell mostra boa presença e interação natural com todas as demais personagens, é lamentável que a real força da Canário Negro seja omitida durante quase todo o longa com o fracassado objetivo de fazer uma “surpresa”. A veterana Rosie Perez cumpre o papel da policial durona, apesar de parecer deslocada no meio das demais. A filipina Ella Jay Basco, de apenas 13 anos, está bem adequada como a menina com cara e jeito de inocente, fomentando a sua fase de descobertas, sem a vilanizar por praticar pequenos roubos.

Talvez o nome mais famoso do elenco, Ewan McGregor se diverte em cena fazendo do mafioso Roman Sionis, alter ego do Máscara Negra, uma clara caricatura (ele aplica botox no rosto!), extremamente afetado, aparentemente nem tão ameaçador, mas o seu caráter fica bem explícito ao humilhar uma mulher que apenas se divertia. Completando o elenco masculino, Chris Messina faz de Victor Zsasz, velho conhecido do universo de Batman, um capanga que realmente soa perigoso, mas que não vai mais além por estar sempre sob a asa do chefe.

Muito superior a “Esquadrão Suicida” (o que não é uma missão nada difícil), este “Aves de Rapina” é um longa que fica sempre ali no limite do básico e o inventivo. Diverte sem compromisso, não ofende e abre caminhos para que personagens reapareçam em produções futuras. Esse combo é uma bela vitória!

Nota: 7,5