
Um filme em live-action sobre Sonic, game da Sega lançado no início dos anos 90 que se resumia a correr e acumular argolas, não era uma ideia animadora desde o início. Quando saiu o primeiro trailer, o rebuliço na internet sobre o visual do famoso ouriço azul (que de fato era horrível) foi tão grande que os realizadores optaram por adiar a estreia e aumentar o orçamento para realizarem alterações. Sinais nada animadores. Eis que, para a surpresa geral, “Sonic: O Filme” (Sonic The Hedgehog, 2019) é mais divertido do que tinha o direito de ser. Pode funcionar como entretenimento até para o público que já passou da fase de curtir a Galinha Pintadinha.
Na trama, Sonic tenta se adaptar à nova vida na Terra com seu novo melhor amigo humano, o policial Tom Wachowski (James Marsden). Eles unem forças para tentar impedir que o vilão Dr. Robotnik (Jim Carrey), um especialista em tecnologia, o capture e use seus poderes para dominar a humanidade.
Antes que alguém possa se animar e crie esperanças de que a produção é memorável, fica o aviso: ela é extremamente infantil, com uma história simplória até o talo e cheia daquelas lições clichês sobre amizade. O público alvo sequer é aquele que cresceu controlando o personagem através do controle do Master System e Mega Drive, já que o fator nostalgia aparece bem de leve (como as referências do sapato vermelho, uma versão da música tema do jogo no piano e cenários coloridos com loopings onde ele corre). Mas o mérito é que esse pessoal crescido não é esquecido, contando com tiradas com referências à cultura pop e atualidades.
O roteiro dos pouco experientes Patrick Casey e Josh Miller pega uma premissa básica do alien que sai do seu habitat natural e cai na Terra, onde sente a falta de amigos, acaba perdendo suas argolas mágicas (que aqui ganham o poder de teletransporte) e precisa formar improváveis parcerias para encontrá-las. Muitas piadas são propositalmente bobas para fazer as crianças gargalharem, como desmaios e gritos de sustos, causando uma divisão de impressões.
Mas ali também estão agradáveis gags envolvendo trocadilhos com os jogos, como as cutucadas ao “rival” Super Mario Bros. e seus cogumelos, a impossibilidade de ter uma nova vida, outras sobre a Amazon, a franquia “Velozes e Furiosos”, The Flash, hipsters, situações que apenas quem tem alguma vivência vai entender. Algumas até mais difíceis de captar, como o bizarro desenho do “Sanic” que aparece feito por um caipira visto como louco e a rede de restaurantes Olive Garden. Sem falar numa cena envolvendo uma sacola que fica no limite do politicamente incorreto (e funciona muito bem).
A direção do estreante Jeff Fowler (do bom curta “Gopher Broke”, 2004) segue uma cartilha padrão de um “filme para todas as idades”, ainda que em alguns momentos seja perceptível que os atores estejam interagindo com “nada” e, numa certa cena, ele permite um corte brusco entre uma parada num posto para usar o telefone e do outro lado aparece um bar de motoqueiros pra lá de barulhento. Noção de espaço e tempo ali passou longe! Nas cenas que exploram a velocidade de Sonic, temos a repetição de tudo do tipo que já foi feito no cinema, como praticar esportes coletivos sozinho e aquela sequência em que ele enxerga tudo em slow-motion, praticamente idêntica ao que o Mercúrio já proporcionou na saga “X-Men”.
O visual do ouriço está convincente após a chuva de protestos naquela primeira versão com olhos pequenos e dentes grandes. A que chegou aos cinemas está bem fiel aos traços dos games, ainda que os efeitos especiais não sejam dos melhores, bem inferior ao semelhante e inevitável de comparação, “Pokémon: Detetive Pikachu” (2019), em que ali os pelos dos bichinhos excêntricos pareciam ser reais. Aqui, as feições do protagonista transmitem bem as suas sensações, algo bem feito até com uma tartaruga digital que aparece brevemente, mas nunca escapa de que estamos diante de uma animação.
Boa parte do carisma do personagem está na voz de Ben Schwartz (mais conhecido pela série “Park and Recreation”) na dublagem original, pois ele tem o timing cômico perfeito para quebrar situações “sérias”, por mais absurdas que elas sejam, como perseguição de carro ou briga de bar. James Mardsen cumpre bem o papel do mocinho bonzinho e abobalhado, algo que está virando uma constante em sua carreira (vide os seu personagem na série “Westworld” e o Ciclope de “X-Men”).
Mas não tem como fugir de que o grande destaque é Jim Carrey no papel do vilão Dr. Robotnik. No momento em que contrataram ele, queriam ver ele sendo Jim Carrey, aquele cartoon humano especialista em caretas. Não à toa o longa inclui uma sequência com música diegésica (leia-se, que faz parte do universo dos personagens) só para ele destilar suas estripulias. E ele parece bem à vontade voltando a interpretar papéis imbecis que exigem do humor físico que o consagrou em produções como “Eu, Eu Mesmo e Irene” (2000), “O Mentiroso” (1997), entre tantos outros.
Se fôssemos resgatar a velha disputa Sega x Nintendo, este dá um banho de qualidade se o comparativo for aquele medonho (e candidato a cult de tão ruim) “Super Mario Bros.”, de 1993. Como os tempos mudaram, as expectativas baixas contribuíram muito para que “Sonic: O Filme” fosse uma surpresa bem agradável. Os resultados nas bilheterias parecem estar refletindo essa recepção positiva e uma continuação é quase inevitável.
Obs: há duas cenas pós-créditos, as duas interessantes para a continuidade da história.
Nota: 6,5