Crítica: Remake de “O Homem Invisível” é uma surpreendente atualização para os dias atuais

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Durou pouco a ideia da Universal Pictures de criar uma franquia integrada com os monstros clássicos de terror após o fracasso do ruim “A Múmia” (The Mummy, 2017), estrelado por Tom Cruise. O que no fim das contas pode ter sido o melhor! Isso porque esta releitura de “O Homem Invisível” (The Invisible Man, 2020), pela bem sucedida produtora Blumhouse, tem toda a liberdade criativa de uma obra autoral, enveredando para o horror social. Cheio de metáforas sobre relacionamentos abusivos, a nova versão é atualizada com muita eficiência para os dias atuais.

Na trama, quando o ex-namorado de Cecilia (Elisabeth Moss), um bilionário do ramo da ótica, tira a própria vida e deixa sua fortuna, ela suspeita que a morte dele tenha sido uma farsa. Como uma série de coincidências se torna letal, ela tenta provar que está sendo caçada por alguém que ninguém pode ver.

O roteiro e direção ficam a cargo de Leigh Whanell, alguém experiente no gênero terror, tendo roteirizado os três primeiros “Jogos Mortais” (Saw, 2004, 2005, 2006) e dirigiu o interessante “Upgrade” (idem, 2018). Do longa original de 1933 e até do bom remake “O Homem Sem Sombra” (Hollow Man, 2000, de Paul Verhoeven), apenas o conceito é aproveitado. Aqui, o protagonismo é assumidamente feminino e, assim como Jordan Peele tem feito em seus longas (“Corra”, 2017; “Nós”, 2019), o teor fictício é pano de fundo para fomentar um medo real.

Logo na cena de abertura, Whanell coloca em prática a sua habilidade na direção. Ao conduzir a fuga da protagonista, numa sequência semelhante a “Dormindo com o Inimigo” (Sleeping With the Enemy, 1991), estrelado por Julia Roberts, a câmera passa por toda a mansão de Adrian, já deixando claro o seu alto poder aquisitivo. A analogia com a invisibilidade está sempre implícita, de modo que o namorado aparece apenas sob as sombras, sem mostrar o seu rosto, enquanto a mulher, que está sempre em foco, é quem precisa ser o menos visível possível para conseguir atingir o objetivo.

Durante boa parte da projeção prevalece o terror psicológico, inserindo quem assiste no estado constante de tensão de Cecília, estimulando a dúvida se de fato existe alguém invisível ou tudo não passa de loucura da cabeça dela. Efeitos práticos ou mesmo nenhum efeito são utilizados, como um fogo que aumenta sozinho enquanto a câmera fica estática captando o ambiente, uma personagem que cai sozinha ao ser “agredida” ou pegadas surgem num lençol. Simples, mas que funciona dentro da proposta. Tem até uma singela referência aos longas anteriores ao aparecer um figurante com faixas no rosto, algo que não acontece nesta versão.

O diretor não foge de artimanhas batidas do gênero, como os tradicionais jump scares (sustos estimulados pelos efeitos sonoros), mas a diferença é que ele sabe utilizá-los de maneira precisa, nunca gratuita. Num certo momento, envolvendo tinta branca, não só consegue fazer o espectador pular da cadeira como serve como plot point, uma virada na história. A trilha sonora por Benjamin Wallfisch (de “Blade Runner 2049”, 2017) é fundamental para provocar agonia, cheia de ruídos e sons excêntricos, combinando com o pânico vivido pela protagonista.

Apenas no terceiro ato, a narrativa se rende ao convencional, com sequências de ação, coreografias de luta e um vilão quase indestrutível. Algo que pesa negativamente pela necessidade de se adequar ao mercado, deixando uma variação de tom estranha. Ainda assim, há reviravoltas na trama que, por mais previsíveis que elas sejam, se encaixam bem dentro daquele contexto, incluindo a nova explicação para a invisibilidade.

Mas não tem como negar o intuito do roteiro de pregar o empoderamento feminino, sem partir para discursos expositivos ou frases de efeito. A relação abusiva é o que move o real medo de Cecília, a ponto dela se isolar socialmente, adquirindo fobia até de colocar o pé fora de casa. Antes, ela quem era “invisível” por ser controlada pelo namorado, que tinha domínio sobre suas falas, atos, gostos. Quando os incidentes estranhos começam a acontecer, é a mulher quem sempre é vista como louca pelos outros. Detalhe como uma entrevista de emprego, rola uma cantada de leve por parte do entrevistador. Assim o terror enraizado na realidade é bem desenvolvido.

Boa parte do mérito do longa recai na excelente atuação de Elisabeth Moss (que dá um verdadeiro show na série “O Conto da Aia”). Ela parte do desespero inicial para alguém em constante estado de fobia e, posteriormente, segurança, com uma naturalidade admirável. Uma grande diferença em contar com uma atriz de forte veia dramática numa produção de gênero! Completando o elenco, Oliver Jackson-Cohen cumpre bem o papel de playboy bon vivant, apesar do pouco tempo em cena, e Aldis Hodge convence como o amigo e pai de bom coração, apesar da força física. Storm Reid, faz o que a ela é atribuído, de ser uma adolescente chatinha.

Ainda que em alguns momentos fique tentado a cair nos clichês, “O Homem Invisível” consegue sair do lugar comum diante de tantas produções genéricas que são lançadas. Tem mensagens válidas numa roupagem de blockbuster que se tornam ainda mais fortes com a interpretação tão certeira de Moss. Se seguirem adiante com a questionável ideia de um universo compartilhado de monstros por essa linha, o resultado pode ser positivo.

Nota: 8,0