
A temática racial sempre esteve presente na carreira de Spike Lee (dos ótimos “Faça a Coisa Certa”, 1989; “Febre da Selva”, 1991), que levou em 2019 o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado pelo excelente “Infiltrado na Klan” (BlacKKKlansman, 2019). Seu mais recente projeto, “Destacamento Blood” (Da 5 Blood, 2020), lançado pela Netflix, não poderia vir em momento mais apropriado, em que o mundo se comoveu pela morte bárbara de George Floyd por um policial branco e o slogan “Black Lives Matter” ganhou ampla repercussão.
Na trama, quatro veteranos da Guerra do Vietnã voltam aquele cenário para procurar um ouro que haviam enterrado e também o corpo do amigo e antigo líder do grupo.
Como é típico de Spike Lee, as mensagens muitas vezes ficam implícitas, até de maneira irônica. É comum ele fazer o seu produto leve sob uma embalagem comercial, até para ganhar mais amplitude, mas sem deixar suas críticas nas entrelinhas.
O primeiro ato tem um ritmo eletrizante, começando com o grupo se reencontrando, mas é logo depois vem um flashback repleto de ação. Ação, inclusive, bastante presente ao longo das quase 2h40min de duração, com direito a uma violência “Quentin Tarantinesca” em que corpos se explodem e continuam a falar após a explosão de uma mina.
Estiloso nesses flashbacks o ato de redução da tela fullscreen em alta definição para o formato 4:3 e filmado em 16 milímetros, dando até um ar documental. Interessante perceber que os mesmos atores mais velhos atuam nos flashbacks sem recursos de rejuvenescimento, tampouco atores mais jovens o que poderia ser um problema, mas é uma forma do realizador mostrar que eles são os mesmos que estiveram na guerra ou nunca saíram dali.
O humor é ferramenta constante, inclusive com referências a outras produções de guerra. Ironizam que ícones da cultura pop como Rambo e Texas Ranger, vividos por Sylvester Stallone e Chuck Norris, ambos brancos. Há também referência a “Apocalypse Now” (idem, 1979), inclusive tocando a famosa “Marcha das Valquirias”. Ao citar alguma celebridade negra, como Aretha Franklin, ele traz a foto real real da pessoa citada.
Esse tom ameno percorre a maior parte do segundo ato, quando o roteiro aborda a busca do grupo no meio da floresta, como uma tradicional narrativa de “caça ao tesouro”. O longa também o desenvolve da relação entre o personagem Paul (Delroy Lindo) e o filho (Jonathan Majors), que foi difícil durante toda a vida.
Mas nos diálogos estão os ensinamentos do falecido líder Norm (Chadwick Boseman, o Pantera Negra no Universo Marvel) sobre não aceitar as lições anticomunistas impostas pelo governo e o conflito sobre qual será o destino do ouro, afinal, ideia do Norm era usá-la para ações em prol da causa negra, mas uns ali parecem querer tirar proveito próprio, esquecendo os valores que o levaram a ser quem são no presente.
O figurino do grupo remete às cores da bandeira dos Estados Unidos, de modo que um usa a cor branca, outro vermelho, outro azul. Paul usa um boné para trás com os dizeres “Make America Great Again”, slogan do presidente Donald Trump, de tão transformado que ele foi! Aqui Spike Lee, até faz una piada de que “elegeram um apresentador de reality show” para a presidência e o boné adiante em outro personagem, desta vez pra frente. Este outro, sim, parece ser um típico seguidor do Trump.
Mas sabemos que quando Spike Lee quer passar a sua mensagem, ele o faz com primor. Assim como em “Infiltrado Klan”, ele utiliza imagens reais, desta vez logo na introdução, com mensagens de Muhammad Ali, Malcom X, entre outros, além de concluir com um discurso emblemático de Martin Luther King.
O recado do diretor fica mais do que explícito quando o personagem Paul, talvez o mais afetado pelos impactos da guerra e do sistema pós-guerra, quebra a quarta parede e conversa com o espectador, afirmando que não vai deixar ser destruído pelo governo. Ali não é só o personagem, é o próprio Spike Lee gritando. E ele tem propriedade para deixar o seu recado e usar a imagem do punho fechado, utilizado por aí em redes sociais de maneira até banalizada por quem sequer sabe o que significa.
O elenco todo está correto, como Clarke Peters, Norm Lewis e Isiah Whitlock Jr. Mas o destaque é a soberba atuação de Delroy Lindo, que sem dúvidas, já desponta como um forte candidato ao Oscar de 2021, seja como Ator Principal ou Coadjuvante (em qual ele será encaixado depende de uma série de fatores, incluindo a concorrência). O veterano ator capta as muitas nuances de quem demonstra o amor reprimido pelo filho, mas, ao mesmo tempo, vai ao extremo da loucura e da revolta por todo o contexto que o cerca.
“Destacamento Blood” é mais um eficiente produto do diretor, que tem ingredientes para agradar o grande público, como tiroteios e humor refinado, mas a sua real intenção é bem mais profunda e, sem sombra de dúvidas, necessária para os dias atuais.
Nota: 8,5
Confira também a crítica em vídeo: