
É curioso como Hollywood insiste em fazer de Charlize Theron, uma atriz que tem um Oscar na prateleira (por “Monster”, 2003), uma estrela de filmes de ação. Desde o fraco “Aeon Flux” (idem, 2005), passando pela obra prima “Mad Max – Estrada da Fúria” (2015), como vilã de “Velozes e Furiosos 8” (2017) e no eficiente “Atômica” (2017), ela parece estar se divertindo com isso.
Quando surgiram nos materiais de divulgação deste “The Old Guard” (idem, 2020), lançado pela Netflix, com armas que que pareciam saídas de jogos de RPG, a impressão é que seria algo na linha de “Aeon Flux”. Mas felizmente o projeto surpreendeu por adotar um tom bem menos frenético e mais reflexivo.
Baseado na história em quadrinhos de Greg Rucka e Leandro Fernandez, o longa apresenta um grupo de soldados com uma pequena peculiaridade: eles são imortais. Eles vivem através dos anos oferecendo seus serviços como mercenários para aqueles que podem pagar, realizando missões que acreditam serem justas para o mundo. A rotina deles muda por completo quando descobrem a existência de uma nova importam que vem a se juntar a eles.
O mérito por tentar trazer algo diferente é da direção de Gina Prince-Bythewood, que tinha no currículo curtas metragens, séries de TV e alguns poucos dramas como “A Vida Secreta das Abelhas” (2008). Ao invés de priorizar a ação, em primeiro plano está o peso que a imortalidade trás para aqueles personagens. O quão difícil é viver por séculos? Para isso, o grupo principal recebe um relativo aprofundamento, uns mais e outros menos, através de alguns diálogos em que relembram o passado. O toque singelo da diretora está em pequenos momentos como um casal que dorme abração no meio de uma missão no trem.
Se a fotografia capta belas imagens de países notoriamente de terceiro mundo, a direção toca a narrativa como um longa de espionagem que passeia por diversos países (que dificilmente foram de fato utilizados para as filmagens, pois suas paisagens não são aproveitadas), com as devidas identificações na tela.
O ritmo dá uma caída lá pela metade, com um notório excesso no segundo ato. E infelizmente o longa deixa a desejar onde teoricamente deveria ser o cartão de visita principal, a ação, muito pela falta de experiência da diretora no gênero. Percebe-se que há boas coreografias, mas o excesso de cortes, os picotes de frames, tira em partes a credibilidade de tais cenas.
Os tiroteios iniciais não empolgam, priorizando os movimentos plásticos da protagonista do que a execução em si das lutas. As lutas que acontecem no clímax, lá no laboratório, garantem a diversão, mas poderiam ser ainda mais eficientes se fluíssem com mais naturalidade.
Também não deixa de ser um grande clichê o plano dos bandidos recair numa indústria farmacêutica que quer tirar proveito da imortalidade do grupo. Pelo menos, o pseudo vilão vivido pelo experiente Chiwetel Ejifor (de “12 Anos de Escravidão”, 2014), aqui no modo automático, tem muitas facetas, não soando estereotipado. Mas este papel recai ao personagem de Harry Melling (o Dudley Dursley da franquia “Harry Potter“), este sim um bandido caricato, cheio de caras e bocas.
A representatividade é bem forte no longa, o que é extremamente positivo. Há personagens abertamente homossexuais que não escondem o sentimento uns pelos outros e não admitem serem ofendidos, além um bom elenco com atores de variadas etnias, como o holandês descendente de tunisianos Marwan Kenzari (o Jafar do live action de “Alladin”), o italiano Luca Marinelli e o belga Mathias Schoenaerts.
Obviamente, a atenção maior está na personagem Andy, a líder do grupo, vivida por uma Charlize Theron de poucos palavras e jeito de durona (e ela faz isso muito bem). Ela ganha um flashback que justifica o maior trauma da sua “quase eternidade” e sua personalidade retraída fica exposta em detalhes, como quando alguém pede para ela tirar uma foto e ela apaga a imagem anterior da câmera sem nem consultar a dona ou quando vira uma garrafa quase inteira de vodka antes de uma viagem. Ela é assim, não teme em deletar o que tiver por perto.
O papel do espectador recai sobre a novata Lili, vivida pela carismática Kiki Layne (do bom “Se a Rua Beale Falasse”, 2018). Como aquele mundo sobrenatural é novidade, ela é a principal muleta do roteiro (também escrito por Greg Ruck, autor da HQ homônima) para que os outros expliquem tudo, como o fator de cura, etc. Funciona dentro daquela proposta.
Tem potencial para virar uma franquia, inclusive, tem um gancho pra uma continuação com um plot extremamente previsível, o que de novo quase torna o produto genérico. Ainda assim, apesar das arestas a serem aparadas, “The Old Guard” se destaca por tentar dar uma maior profundidade em algo que poderia ser extremamente raso e abre boas possibilidades.
Nota: 6,0
Confira a crítica em vídeo no canal Thiago na Tela: