
“Cursed: A Lenda do Lago” (Cursed, 2020), nova série da Netflix, chega embalada pelos nomes fortes da protagonista Katherine Langford (a Hanna de “13 Reasons Why”), além de Frank Miller (de HQs como “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, “Demolidor: O Homem Sem Medo”), o ilustrador do livro que originou tal adaptação. Porém, trata-se de mais um daqueles exemplos com defeitos bem visíveis e que muitos devem desistir no meio do caminho
A trama é mais uma releitura moderna da lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, agora contada pelos olhos de Nimue (Langford), uma jovem com um dom misterioso e destinada a se tornar a poderosa Dama do Lago, mas a sua missão se torna cada vez mais perigosa ao obter uma espada especial.
Como a história do Rei Arthur já foi contada inúmeras vezes, a série precisava de outros atrativos para atrair a atenção do público, não apenas transferindo o ponto de vista para uma mulher, mas ganhando ares de aventura fantástica, sem nem tentar ser realista, um retrato de uma época.
À primeira vista, os cenários e o figurino parecem bregas, típicos de produções de baixo orçamento, algo meio “Xena: A Princesa Guerreira”. Mas à medida que os ambientes vão se ampliando e novos personagens vão surgindo, até que aquele universo se torna atrativo.
Algumas ideias para a construção de personagens são interessantes, como um monstro que tem um diamante no lugar do olho, outros com pele de couro de cobra, outros que possuem pequenos chifres saindo da bochecha e por trás do pescoço. Vale também a contextualização em que humanos desde criança têm a responsabilidade de serem guerreiros.
Aquelas transições em animação, à primeira vista, soam estranhas. De fato, em nada acrescentam à trama em si, mas pelo menos serve para aproximar dos traços da obra original, pelo Frank Miller, além de tentar criar uma identidade para a própria série.
Mas como boa parte das produções originais da Netflix, “Cursed” tem um ritmo muito irregular ao longo de 10 episódios de uma hora cada. Se fossem talvez seis episódios, teria até boas chances de ser uma série eficiente.
A estrutura do roteiro durante a maior parte do tempo é bem simples, indo de um ponto A até B, em que Nimue precisa levar a espada até o Merlin, O primeiro episódio termina com uma cena de ação para prender a atenção do espectador, mas o longo meio de campo ali é uma novelinha bem clichê. Tem o desenvolvimento do romance entre a Nimue e o Arthur, festinhas, revelações de que fulano é pai de fulano, um longo processo para que a protagonista se torne a Rainha Feérica.
E olha que a ação é até constante. Não é nada de encher os olhos, mas garante o entretenimento, com uma violência ali no limite da censura, já que o projeto claramente tem a intenção de atingir o público mais jovem. Apesar de cabeças e membros sendo decepados, o sangue é bem artificial.
Inclusive os efeitos especiais são bem problemáticos. Por exemplo, os lobos um urso que aparecem nos episódios iniciais são claramente feitos com CGI. Perdoável por ser uma série e episódio final entrega uma batalha decente, um clímax envolvendo magia que deve agradar o público alvo.
Katherine Langford é uma boa atriz, ainda verde pra ser considerada uma das maiores promessas da nova geração como dizem aí, mas ela cumpre o papel da mocinha inocente que se torna uma líder, alternando a personalidade sob a influência da espada (que diga-se de passagem, nunca é falado o nome Excalibur e tem só um pequeno easter egg dela prendendo na pedra). Ela se mostra um tanto perdida nas cenas de batalha, mas não é nem tanto demérito dela, e sim da produção que não se preocupou em elaborar coreografias melhores.
Interessante a nova versão do Arthur, agora negro, que ao invés de Rei é tipo um mercenário, um Han Solo deste universo, que tem o seu passado apresentado em um flashback. Pena que o pouco experiente ator Devon Terrell seja tão inexpressivo. Ele não tem um pingo de carisma!
O maior destaque do elenco é Gustaf Skarsgard, também conhecido pelo seriado “Vikings”, que vive o Merlin. Ao invés daquele mago poderoso que todos conhecem, ele é um cara alcoólatra que tem o rabo preso com o reino. Para isso o ator imprime uma fala sempre mansa e uma postura curvada, reflexo do peso que carrega ao longo de tantos anos.
O vilão pelo Rei Uther, vivido pelo Sebastian Armesto, um playboy pau mandado pela mãe, é apagadíssimo. Como antagonista, tem peso bem maior o líder dos fanáticos religiosos, vivido pelo Peter Mullen, muitos devem lembrar dele como o James Delos de “Westworld”, pois a experiência do ator três uma presença forte.
“Cursed” abre uma deixa para uma segunda temporada, mas fica a dúvida se há material suficiente para a continuidade desta história. Alguns apreciadores de aventuras fantásticas, principalmente o público mais jovem, devem curtir, mas não muito além disso.
Nota: 5,0