
A segunda temporada da série “The Umbrella Academy” chegou na plataforma de streaming Netflix disposta a reparar os erros da anterior. Nenhum episódio soa aleatório, cada um tem algo necessário para o desenvolvimento da trama, com os devidos respiros que sempre caem bem.
Na história, sete crianças com super poderes misteriosamente nascem na mesma data e horário, em diferentes locais do planeta. Eles são adotados por um homem passa a treiná-los. Ao final da primeira temporada, eles voltam no tempo para fugir do apocalipse e vão parar nos anos 60, onde precisarão novamente evitar o fim do mundo.
“The Umbrella Academy” é baseado na excelente graphic novel escrita por Gerard Way, também conhecido por ser vocalista da banda My Chemichal Romance, e ilustrada pelo excelente brasileiro Gabriel Bá, que junto ao irmão gêmeo, Fábio Moon, têm ótimos trabalhos publicados, como “Daytripper”, entre muitos outros.
A primeira temporada adaptou bem a primeira revista, “Suíte do Apocalipse”, mesmo tomando várias liberdades criativas, mas captou a essência da história original, focando mais na excentricidade, fugindo do padrão das produções de super heróis.
Foi divertido, mas o ritmo apresentou alguns problemas, algo típico das séries da Netflix com este formato de 10 episódios de cerca de uma hora cada. A trama girava muito em torno dos personagens Vanya e Número 5, e também o Klaus em menor escala, enquanto Alisson e, principalmente, o Luther e o Diego estavam apagadíssimos.
A segunda edição da graphic novel, “Dallas”, é usada como pano de fundo para esta nova leva de episódios, através da subtrama do assassinato do presidente John Kennedy, mas os horizontes nesta migração para o audiovisual são muito ampliados.
Uma mudança óbvia é a manutenção de Vanya como peça essencial, visto que na revista ela vira uma espécie de “monstro-violino” que fica em estado semivegetativo, mas obviamente eles não queriam perder a Ellen Page, que é o nome mais conhecido do elenco.
Como vimos no final da temporada anterior, o grupo principal volta no tempo para fugir do apocalipse. E o roteiro brinca com alguns clichês de produções sobre viagem no tempo, como encontrar a si próprio em outra época. Se você teve a mente explodida ao assistir “Dark”, aqui as coisas são bem mais leves e fáceis de serem absorvidas.
E quando o roteiro opta por distribuir os personagens em anos diferentes até se reencontraram, cada um tem a chance de ser aprofundado. Não apenas cada um ganha a sua subtrama – um que passa a lutar clandestinamente para viver a vida, outro vira uma espécie de guru espiritual, outro vai para o manicômio – mas todos têm a sua relevância para o desenrolar da história. Inclusive o personagem Ben, o irmão morto vivido Justin H.Min que só pode ser visto pelo Klaus, que pouco aparece nas revistas, aqui ele tem extrema importância.
As tramas paralelas que são apresentadas são realmente interessantes, em especial a da Vanya (a nossa querida Ellen Page), e também da Alisson (vivida por Emmy Raver-Lampman) e do Diego (vivido por David Castaneda), pois são contextos novos. É possível sentir aproximação e torcer por um final feliz. E esta maturidade é refletida na atuação desse trio.
No meio de tudo isso, temas importantes são abordados como homossexualidade e o racismo com os negros naquela no passado, mas isso acontece de uma maneira orgânica e coerente a história, sem soar panfletário e sem apelar para discursos expositivos.
O humor também está sempre presente, algumas vezes com piadas que podem parecer deslocadas, mas funcionam como alívio cômico, principalmente com Luther, em que o ator Tom Hooper captou o tom do gigante desengonçado e de bom coração, além do narcisismo exagerado para suprir a própria carência pelo Klaus, vivido de maneira muito tridimensional pelo Robert Sheehan.
No quesito ação também evoluiu muito. Se antes era restrito a tiros e correria, aqui teve um cuidado especial nas coreografias de lutas e, no clímax, há uma batalha bem eficiente com inúmeros elementos em cena que não deixa em nada a desejar uma superprodução de super heróis, com efeitos especiais que não incomodam.
Nesse aspecto, é possível notar a maior evolução em interpretação de todo elenco que é do jovem Aidan Gallagher, de apenas 16 anos. Para encarnar um assassino de meia idade preso no corpo de uma criança antes ele se limitava a fazer uma cara de de antipático. Agora ele parece captar toda a malícia e sarcasmo do personagem que é não apenas o articulador daquele grupo, como é o mais violento, é o primeiro que vai para a matança se for preciso, o que acaba virando ali um carisma natural.
Dentre as novidades, destaque para Ritu Arya, que começa como um possível interesse amoroso do Diego, mas ela apresenta muitas camadas, ainda tem muito a ser mostrado.
Visualmente continua uma atração à parte e aqui os realizadores até brincam ao colocar todos os “heróis” em ação num mesmo plano, remetendo à cena clássica do primeiro “Vingadores” e representada na introdução de “A Era de Ultron”. Há bizarrices legais de se ver como um vilão que é um peixe e um corpo adaptado para ele, algo bem cartunesco e, neste caso, acontece uma interessante contextualização para os anos 60.
Mais uma vez, a trilha-sonora cheia de canções famosas é utilizada de maneira bem precisa, transmitindo diferentes sensações, seja de melancolia, a risos e empolgação, aqui passando de Frank Sinatra, por Billy Idol, Backstreet Boys, Kiss, além de versões de “Bad Guy”, de Billy Eilish, e “Wicked Game”, de Chris Isaak. Já virou uma marca registrada.
Se tem algo que me incomodou foi o trio de vilões loiros que persegue o grupo principal. Apesar do visual interessante, eles parecem um tanto deslocados da história principal, fica a vontade de querer saber mais sobre eles. Diferente da atenção que foi muito bem dada, por exemplo, para a dupla Hazel e Cha Cha, da primeira temporada.
Diferente da temporada anterior, esta tem um ritmo crescente. Há um gancho para uma terceira temporada que promete mais muita loucura com esse pessoal.
Nota: 9,0