Crítica: “Perry Mason” é a grande surpresa da HBO de 2020

É de lamentar que “Perry Mason”, nova série da HBO, tenha passado desapercebida por tanta gente. Mas aqui não, acho que vale muito à pena comentar sobre sobre ela. Como sabemos bem, se tratando da emissora responsável por “Game of Thrones”, “Westworld”, “True Detective”, “Chernobyl”, eles não brincam em serviço e não é diferente neste caso.

Na trama, atormentado por seu casamento fracassado e passado traumático na guerra, o investigador Perry Mason (vivido por Matthew Rhys) se vê diante de uma chance de redenção quando o sequestro de uma criança tem um desfecho trágico.

As histórias de Perry Mason são bastante conhecidas no mundo afora, através da série de livros escritos por Eric Stanley Gardner e uma série clássica que ficou no ar entre 1957 e 1966. Mas no Brasil não teve um alcance tão grande assim, a geração atual pouco reconhece este nome. A real é que se tratavam de histórias de tribunal fechadas, sendo um caso diferente por semana, sem aprofundar nos personagens.

Nesta nova versão, criada por Ron Fitzgerald e Rolin Jones, dupla que havia trabalhado junta em “Weeds”, e que tem ninguém menos que Robert Downey Jr. como produtor executivo, por mais que seja ambientada no início dos anos 30, a roupagem é moderna e estilosa. O cuidado com os mínimos detalhes da produção é notório!

A começar pelo roteiro, pois desenvolve com cautela todos os personagens enquanto o bárbaro caso principal é investigado. A narrativa decorre como uma típica trama policial que consegue prender a atenção, cheia de reviravoltas, envolvendo corrupção na polícia, traições, polêmicas envolvendo a igreja, prostituição, por aí vai.

A série tem calma até se dedicar ao julgamento final, inserindo gradativamente o espectador naquele caso e nas figuras envolvidas. Alguns contextos que eram tabu na época são mostrados, como a figura da mulher como sendo sempre julgada, é só ela que não pode trair, que não pode tirar o olho do filho, além do racismo óbvio com os negros, mesmo que seja um policial. Dá pra perceber o tom crítico ali, tanto que a história trata de mostrar uma transgressão.

É interessante também como os criadores satirizam sem medo a devoção pela igreja, que sempre busca formas de arrancar mais dinheiro dos seus fiéis. É uma espetacularização, literalmente, com teatros e programas de rádio, além das promessas de milagre que mexem com expectativas em geral, inclusive do espectador.

Não à toa a direção está entregue a dois nomes com experiência muito bem sucedidas. Timothy Van Parten comandou episódios de “The Sopranos” e “Boardwalk Empires“, enquanto Deniz Gamze Ergüven comandou episódios de “The Handmaid’s Tale”.

A violência está presente com algumas cenas bem gráficas que devem chocar alguns, incluindo autópsia de cadáveres e alguns detalhes que podem ser spoilers se eu disser aqui. A ambientação da época, através de design de produção e figurino, é simplesmente impecável. Aqueles carros quadradões, gravatas curtas, chapéus, telefones que precisam ligar para uma central antes de qualquer chamada.

Inclusive há breves cenas de flashback que mostram o personagem principal em ação na Primeira Guerra Mundial, toda aquela construção não deixa nada a desejar nenhuma produção de cinema.

Mas há uma atenção em pequenos detalhes, por exemplo, a forma como o Perry Mason pega no cigarro cobrindo a brasa com a palma da mão, algo comum de quem serviu ao exército, ou a preocupação que o personagem E.B, que é uma espécie de mentor do protagonista, tem com o seu cabelo e de pequenos gestos como colocar água para passarinhos.

Como a situação não é de felicidade para ninguém ali, a fotografia sempre reflete o clima sombrio. O escuro predomina e, muitas vezes durante a noite, a luz se baseia apenas nas lâmpadas amarelas ou mesmo uma fogueiras, elementos quentes.

Os figurinos dos personagens principais são de tons pasteis, trazendo apatia, falta de vida. Destaque também para a excelente trilha sonora de Terrence Blanchard, colaborador frequente de Spike Lee em filmes como “Infiltrado na Klan” e “Destacamento Blood”, com aquele trompete de jazz trazendo sempre um ar de melancolia.

Vivendo o personagem título, Matthew Rhys, conhecido pela série “The Americans” e que recentemente esteve no filme “Um Lindo Dia na Vizinhança”, traz toda a amargura que é desenhada para esta versão do Perry Mason. Percebam que ele sempre olha para baixo, ele não confia em si mesmo depois de tantos traumas. Ele sofre com alcoolismo e tem dificuldade quando precisa atuar na linha de frente e não nos bastidores. Esse mistério traz um certo charme para ele, que de herói não tem nada.

Talvez o nome mais conhecido do elenco, o sempre ótimo John Lithgow traz toda ternura ao E.B Jonathan, que apesar de toda a paixão que ele dedica ao seu ofício, os seus dramas são sentidos por quem assiste. Ele é quase como um avô seu que você se revolta se ele for maltratado.

Quem é responsável pela representatividade na série é o faz o faz com muita propriedade é a ótima Juliet Rylance, que vive a Dalla Street, tradicional personagem dos livros e da série dos anos 50. Aqui ela é bem mais que apenas uma secretária, é a principal articuladora dos principais passos do Perry Mason e na reta final até ganha a voz, mesmo que de maneira discreta, do caso. Certamente tem muita coisa importante reservada para ela para as próximas temporadas.

Mas quem rouba a cena toda vez que aparece é Tatiana Maslany, como a Irmã Alice. Um papel difícil que corria o risco de cair no overacting, o exagero, mas ela consegue encontrar o limite por captar a complexidade ali existente. É natural desconfiar se ela é uma charlatona, o visual extravagante que destoa dos demais personagens contribui para a dúvida em cima dela, mas ela ganha a merecida contextualização do drama pessoal que vive.

Outros como Chris Chalk, que vive o policial Drake, capta bem o drama daquele que quer manter a honra acima de tudo, para além de todas as opressões por causa da cor da pele. Enquanto Shea Whigam faz bem o papel do papel do amigo fiel, mas que parece sempre incomodado com tudo que o rodeia.

Com oito episódios de cerca de uma hora cada, apenas o episódio número cinco tem um clima mais melancólico e de pouco movimento para a trama principal, mas tem motivo para isso.

A série termina de uma maneira que, apesar de fechar bem aquele caso, não mastiga todas as respostas para quem assiste. A palavra felicidade não combina com esta série, o que traz uma identidade bem forte. Tem uma cena final bela e poética que certamente vai agradar quem adentrou naquele mundo.

Nota: 9,0

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