
“Power” (Project Power, 2020) foi uma grande aposta da Netflix, pegando carona na onda de produções sobre super heróis. Afinal, nestes tempos de pandemia em que cinemas estão sem funcionar na maior parte do mundo, trazer um pseudo-blockbuster com pessoas com superpoderes e nomes famosos no elenco, é garantia de audiência. Mas subverter o padrão de longas do gênero não é algo tão diferente assim.
Na trama, uma nova pílula é capaz de liberar superpoderes para cada um que a tomar. Mas a situação se torna caso de polícia quando a pílula acaba aumentando o crime nas ruas de Nova Orleans, fazendo com que todos sejam vistos como suspeitos diante do perigo.
Vale lembrar que o próprio “The Old Guard”, que a Netflix trouxe um mês antes, já havia feito tal subversão. Mas este “Power” talvez até tenha um alcance de público maior, pois, ao mesmo tempo em que traz ideias novas, a produção segue um padrão seguro, o que pode ser positivo ou negativo, a depender de quem assiste.
A direção é da dupla Henry Joost e Ariel Schulman, que comandaram “Atividade Paranormal 3 e 4”, além do bom “Nerve”, de 2016, com Dave Franco e a Emma Roberts. Começando logo pelo cartão de visitas principal, que são as cenas de ação, elas não são nada marcantes, muitas vezes até apela para cortes excessivos que dificultam um pouco a compreensão do que acontece. Mas fica a impressão que eles sabem os momentos certos para encaixá-las, de um modo que a trama se desenvolva de maneira coerente.
Apesar de quase duas horas de duração, a narrativa tem um ritmo muito ágil. Quando você menos percebe, já acabou o filme! Se as sequências individuais não se destacam, fica a apreciação dos tais poderes: um consegue se camuflar, outro tem uma flexibilidade aperfeiçoada, outros trazem garras. Uma reunião de clichês que parte do público alvo não costuma reclamar.
Um caso em específico se mostrou bem eficiente ao mostrar os efeitos colaterais de uma personagem secundária num ambiente fechado, enquanto a câmera gira e a ação decorre fora dali, sem a gente ver mais uma pancadaria que poderia ser como qualquer outra.
O efeitos especiais são básicos. E os diretores tomam decisões acertadas em esconder a continuidade de certas cenas para omitir possíveis defeitos. Por exemplo, quando um certo personagem começa a ficar gigante, dá para ver que seria um CGI esquisito, mas eles optam por mostrar o que acontece apenas ao redor. Se o orçamento não é dos maiores, é melhor mesmo criar alternativas para não mostrar algo do que mostrar algo mal feito.
É claro que os diretores pretendem deixar um visual chamativo, muito colorido, mas acabam por tomar decisões não muito criativas. Por exemplo, aquele vermelho gritante, que representa violência, de cara ao apresentar os personagens, primeiro numa cena de abordagem policial e depois numa invasão a uma residência de um possível traficante. Acaba sendo apenas irrelevante.
Por outro lado, o design de produção tem ideias interessantes, já que se trata de uma trama de tráfico, focar em ambientes claramente de bairros de subúrbio, com grandes prédios com paredes de grafite. O roteiro traz questões válidas como polêmicas em torno de pílulas mágicas ou fato disso afetar justamente as comunidades mais vulneráveis.
Mas o texto de Mattson Tomlin, que será um dos roteiristas de “The Batman”, que chega em 2022, trata esses itens de maneira superficial, seguindo a proposta da direção. Inclusive, é cheio de conveniências como a facilidade como os mocinhos chegam a um local secreto dos vilões ou como conseguem convencer a entrar ou sair de algum lugar só a partir de qualquer argumento.
Mas por mais que à primeira vista o longa se leve à sério, a narrativa trata de levar tudo com bom humor, quase como “normalizando” alguns absurdos. Exemplos disso são quando um personagem vai se tratar numa clínica veterinária e depois coloca uma camisa escrita “Adote!”. E a ideia de se auto parodiar fica bem clara quando, em pleno clímax, outro personagem solta uma frase de efeito, parte para a ação, mas corre para o lado errado.
No elenco, Jamie Foxx cumpre o papel do protagonista durão que tem um objetivo humano por trás. Os diretores trabalham bem o personagem ao incluírem flashbacks no meio da ação no presente, trazendo algum aprofundamento. Além de um momento em que ele brinca à distância com uma criança, o que já deixa uma sugestão do seu caráter.
O Joseph Gordon-Levitt, por sua vez, está um pouco no modo automático como um policial de modos questionáveis, mas que também não é de todo mal caráter. Pelo menos ele tem a oportunidade inclusive de utilizar um pouco do seu timing cômico, inclusive com uma referência a Clint Eastwood. Ele é aquele cara simpático.
Quem rouba a cena é Dominique Fishback, que esteve no filme “O Ódio Que Você Semeia”. Ela mostra muito carisma, até desenrola bem um rap, e não à toa acaba sendo a maior aposta deste projeto. Se tiver uma continuação, não duvido que ela assuma de fato o protagonismo.
Uma pena para o Rodrigo Santoro pois jogaram para ele o personagem mais caricato, das falas mais artificiais possíveis. Era algo proposital da direção, mas é lamentável conhecendo o real talento do ator, vide trabalhos em “O Bicho de 7 Cabeças”, “Abril Despedaçado” e até na série “Westworld”.
“Power” com certeza vai agradar muita gente pois não corre muitos riscos e, se tivesse a concorrência dos cinemas, talvez fosse apenas “mais um”. É impossível não comparar com “X-Men” e posso dizer que este é melhor dos os últimos da franquia, como “Apocalipse” e “Fênix Negra”. Mas não nos impede de reconhecer que é bem raso e pouco traz a acrescentar neste subgênero.
Nota: 6,0
Confira a resenha em vídeo no Youtube: