
Quem conhece os trabalhos de Charlie Kaufman como roteirista, como “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação”, “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, e depois como diretor, com “Sinédoque, Nova York” e “Anomalisa”, sabe que o seu estilo não é nada convencional. Mas em todas ele tem algo em comum: as desilusões amorosas dentro da complexa mente humana.
Em “Estou Pensando em Acabar com Tudo” (I’m Thinking of Endind Things, 2020) não é diferente. Mas pela primeira vez ele adapta o roteiro de uma história pronta, no caso, o livro de mesmo nome de Iain Reid, que tem uma narrativa que já não é tão simples e, na adaptação, Kaufman ainda toma uma série de liberdades criativas, tornando tudo ainda mais ambíguo.
Na trama, uma jovem (Jessie Buckley) embarca numa viaja de carro com o namorado Jake (Jesse Plemons) para conhecer os pais dele. Ela não esconde a insatisfação com o relacionamento e, à medida que a convivência decorre na casa dos sogros, o desconforto passa a crescer cada vez mais.
O longa já começa com uma narração em off da protagonista mostrando a sua insegurança, inclusive em relação ao namoro, em que ela sequer sabe há quanto tempo estão juntos (questão de poucas semanas). Desde já, Kaufman insere diversas metáforas visuais, como uma casa totalmente vazia, mas com uma leve entrada de luz pela janela. E depois quando a jovem principal vai se olhar no espelho do carro e ele está quebrado, se olhando apenas através de um pequeno pedaço. São paralelos com o estado emocional que ela se encontra.
Durante o longo trajeto de carro, temos diálogos bem prolongados, uma característica deste longa, e ali percebemos não só alguma falta de sintonia entre eles, mas incoerências propriamente ditas, como quando ela diz não ter afinidade com poemas, mas pouco depois declama um longo poema de cabeça. Uma frase do Jake ali já resume bem a proposta do projeto: gosta de dirigir em estrada pois as coisas são bem maiores do que a própria mente.
Quando enfim eles chegam na casa dos pais do Jake é que as estranhezas aumentam de maneira considerável!
A aparência dos personagens em questão muda de maneira brusca, os pais ficam mais novos ou bem mais velhos na transição de cenas, além das roupas, o cabelo, a armação do óculos que sempre aparece diferente.
Algo que sempre muda são as informações sobre a jovem, inclusive o nome, uma hora ela é chamada de Louise, outra de Lucy, outra de Amy, entre outros. Sobre a ocupação dela, uma hora ela é apresentada como pintora, depois como estudante de Física, depois como estudante de Gerontologia, depois garçonete, entre outros. Claro que tudo isso mexe com a cabeça de quem assiste e ainda surgem as analogias em que os demais personagens somem e a jovem fica sozinha no centro do plano.
Detalhe que no momento em que eles entram na casa e aguardam os pais deles descerem as escadas, naquela expectativa, a fotografia adota tons bem azulados, transmitindo melancolia. Mas quando vão para a mesa de jantar, as cores se tornam quentes, que é quando as coisas, literalmente esquentam, o clima é bem desconfortável, como estivesse um elefante no meio da mesa.
Além de tudo isso, a trama sempre é intercalada com uma subtrama de um idoso que trabalha como zelador de um colégio vazio e tem deslumbres de jovens ensaiando no teatro. Obviamente, isso instiga o espectador a fazer conexão com a história original, tentando adivinhar quem é quem ali ou o que pode ter acontecido no meio do caminho.
É bem visível que Charlie Kaufman usou este produto pra massagear o próprio ego trazendo muitas das suas referências pessoais e comentários que parecem dirigidos ao seu próprio estilo. Por exemplo, quando o pai de Jake diz não gostar de obras abstratas, que é algo que qualquer um pode fazer, e prefere um que pareça uma fotografia.
Ou quando a própria jovem cita o filme “Uma Mulher Sob Influência”, de John Cassavetes, de 1974, e diz não entender como alguém pode assistir um longa de duas horas e meia sobre nada e questiona se tudo não passa de um tormento emocional dos personagens.
Há metalinguagem de um filme dentro do filme, neste caso com uma piada com o diretor Robert Zemeckis, além do DVD de “Uma Mente Brilhante”, que serve de código de narrativa para uma cena posterior, alguém canta uma música de “Oklahoma”, que é o musical favorito do diretor, por aí vai.
Na reta final, Charlie Kaufman vai abraçando cada vez mais um surrealismo e a falta de obviedade na narrativa. Ele utiliza balé, teatro, animação e outros elementos subjetivos que por mais que pareçam não fazer sentido, não são gratuitos dentro das pretensões do realizador, ainda que a conclusão nunca seja mastigada, necessitando do desprendimento da realidade e a boa vonatde de reflexão por parte de quem assiste.
Todas as atuações são excelentes. Jessie Buckley capta a insegurança e até o charme de uma garota que foge dos padrões de beleza e postura. Jesse Plemons está perfeito no papel do Jake, pois ele tem o jeito introvertido e as expressões sofridas que combinam com o personagem.
Vale destacar a fabulosa atuação do David Thewlis e da David Thewlis no papel dos pais completamente excêntricos, causando um incômodo constante. Eles roubam a cena sempre que aparecem!
“Estou Pensando em Acabar com Tudo” é um mirabolante e melancólico estudo sobre relacionamentos, zona de conforto, imaginação deturpada e a velhice. Definitivamente não é fácil de ser apreciado, porém, quem estiver disposto a desvendar tantos códigos, pode ter uma boa experiência, mas não necessariamente feliz.
Nota: 8,5
Confira a resenha em vídeo com interpretações [e muitos spoilers]: