Crítica: “O Diabo de Cada Dia” funciona pela tensão constante e o elenco inspirado

Adaptação do livro “O Mal Nosso de Cada Dia”, de Donald Ray Pollock, “O Diabo de Cada Dia” (The Devil All The Time, 2020) é aquele tipo de obra sem gênero definido, podendo ser considerado um suspense dramático. A realidade crua de duas pequenas cidades do interior dos Estados Unidos entre os anos 50 e 60 é a principal força deste projeto que se apoia no elenco estrelado.

Na trama, em uma cidade esquecida no interior de Ohio, um veterano de guerra precisar lidar com fatalidades na família. O seu filho cresce como alguém frio. Em torno deles, circula um nefasto e peculiar grupo de moradores, que inclui um casal de assassinos em série, um pastor pedófilo e um xerife corrupto.

O fanatismo religioso é uma vertente predominante da narrativa. Porém, mesmo que a maioria dos personagens tenha uma devoção grande, muitas são as atitudes duvidosas de acordo com o que convém a cada um. Tem quem realize sacrifício para tentar salvar alguém quem ama, tem quem acredita que pode ressuscitar de fato alguém, tem quem utiliza Deus para conseguir prazeres sexuais, e finalmente, quem pratica a violência para fazer a justiça, para punir quem ele julga que merece.

Naquele cenário, ainda há serial killers que cometem assassinatos baseados em fetiches, policial ganancioso metido com política, por aí vai. Sendo assim, o clima é propositalmente pesado o tempo todo, chegando a causar incômodo em quem assiste. A tensão predomina, como se algo de errado pudesse acontecer a qualquer momento diante de tantos personagens carregados de violência.

A direção é de Donald Ray Pollock (filho do brasileiro Lucas Campos, apresentador do programa “Manhattan Connection”), que comandou o bom “Christine”, de 2016. Ele também assina o roteiro ao lado do irmão, o estreante Paulo Campos. É possível perceber algumas conveniências e pressa do texto para enxugar o material original, principalmente durante o primeiro ato.

O arco da doença da mãe do protagonista Arvin e a relação entre o Roy, o “pastor das aranhas” vivido por Harry Melling, e a Helen, vivida pela Mia Wasikowska, são tratados de maneira bem superficial. É compreensível, até levando em conta que o produto final já tem quase duas horas e 20 minutos de duração.

Ainda assim, o roteiro é bem sucedido ao apresentar os muitos personagens logo no início. A maioria deles não interagem entre si e em alguns momentos, fica a impressão de que os arcos do policial vivido pelo Sebastian Stan e o “fotógrafo” vivido pelo Jason Clark, soam deslocadas da trama principal. Também por isso fica a impressão que a interpretação deles é mais contida, sem tanto destaque, mas nem por isso menos competente. Mas em algum momento, cedo ou tarde, eles vão se conectar de maneira orgânica. É convincente.

Antonio Campos apresenta boas técnicas na direção, ainda que aqui e acolá seja sentida a pouca experiência. A montagem inicial, cheia de idas e vindas entre épocas, sempre com a devida explicação em tela, são um tanto atropelada, poderia ter sido feita de maneira mais direta. Algo que ele mesmo assume o controle com maior facilidade, como numa elipse de passagem no tempo, em que o jovem Arvin espera o anoitecer, e acontece em segundos apenas com o escurecer da iluminação.

Interessante também ao deixar aquelas imagens pixeladas em decorrência da filmagem em película, dando uma impressão de um produto antigo, desgastado.

Os figurinos são em maioria em tons pasteis, trazendo apatia, falta de vida naquele contexto e pequenos detalhes como o boné azul de um, a roupa branca com gola personalizada do pastor, a jaqueta preta de couro de outro, têm suas importâncias para a contextualização dos respectivos personagens.

É muito precisa a inserção de rápidos flashbacks em momentos que servem para contextualizar, ou uma memória afetiva num momento de tensão, ou mostrar de relance uma violência de um ato não mostrado no tempo real, para explicar uma reviravolta ou até para revelar uma conexão entre personagens no passado.

Mas há um recurso que provavelmente vai dividir opiniões, que é a narração em off, presente do primeiro segundo até a entrada dos créditos. Por um lado é entendível a intenção de metalinguagem com o livro, visto que a narração é feita pelo próprio autor, Donald Ray Pollock, tentando até atenuar o deboche diante de tanta tragédia.

Particularmente, acredito que o produto audiovisual deveria funcionar por si só, sem uma voz explicando o tempo todo o que os personagens estão sentindo ou o que estão pensando em fazer. Narração em off é um artifício muito válido, inclusive, Martin Scorsese utiliza muito em suas obras, mas como algo que acrescenta à narrativa.

No caso de “O Diabo de Cada Dia”, há muita descrição que tira a força do que está em cena, ainda mais tendo atores tão bons em cena dando o melhor de si. Não havia tanta necessidade de alguém dizendo que o protagonista está com sono, quando ele está lá bocejando, lutando contra o sono, e os já citados flashback já ajudam a interpretar o que acontece naquele momento.

Não tem como negar que os atores seguram muito bem a alta qualidade do longa-metragem. Bill Skårsgard (que recentemente fez o palhaço demoníaco Pennywise em “It – A Coisa”), que vive o pai, traz muita força num papel difícil, pois já volta perturbado da guerra e tem a pressão religiosa da mãe. Ele se esforça para manter os valores cristãos, tenta passar os mesmos para o filho, mas o instinto violento está nele e o processo de degradação culmina na loucura. O ator capta toda essa intensidade, incluindo o sotaque caipira forte, num contraponto com a delicadeza da esposa, vivida pela bela Halley Bennett.

Tom Holland (o atual Homem-Aranha do Universo Marvel), tem uma cara natural de bom moço e aqui manda muito bem num papel bem diferente. O ator pega como espelho a construção do personagem do pai, alguém impetuoso, e ele emprega em Arvin um olhar sempre perturbador. A aura de inocente dele facilita se identificar com ele, já que o personagem não é um mal caráter propriamente dito. Mas a última coisa que ele tem é sossego. Não à toa a cena final é tão simbólica.

Robert Pattinson rouba a cena sempre que aparece. A voz está diferente, a construção é caricata de propósito. Mas é muito condizente como alguém que soa picareta desde a primeira vez que aparece. Quando ele humilha alguém por causa de uma comida, já mostra quão repugnante aquele homem é. A melhor cena do longa, inclusive, é o diálogo dele com o Tom Holland na igreja, cheio de tensão. O tempo todo o espectador tem nojo dele, o que só comprova o excelente trabalho do ex-Crepúsculo e novo Batman.

“O Diabo de Cada Dia” é um mergulho perturbador numa realidade violenta e repleta de hipocrisia que não está tão distante do que vivemos hoje em dia. A impressão é que essa história e um elenco desse nas mãos de um diretor de nível diferenciado, como o próprio Martin Scorsese (claro, uma utopia!!), teríamos um filme marcante, que chegaria com força nas principais categoria do Oscar (o que não deve acontecer). Mas num ano tão restrito de estreias por causa da pandemia, está adaptação ainda é uma agradável surpresa.

Nota: 8,5

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