
É natural ter o pé atrás com “Enola Holmes” (idem, 2020), produção original da Netflix, situada no universo do famoso espião Sherlock Holmes. Afinal, tem toda a cara de mais um caça-níquel da plataforma de streaming. O que no fundo, não deixa ser, o que não impede de ser uma invenção que garante uma diversão descompromissada.
Na trama, Enola Holmes (Millie Bobby Brown), é a irmã adolescente do renomado detetive Sherlock Holmes (Henry Cavill). Quando sua mãe desaparece, ela inicia uma investigação para descobrir o paradeiro dela e acaba se envolvendo e outra conspiração.
Antes de tudo, é preciso avaliar a proposta de uma produção e o público para qual ela é direcionada. Aqueles dois filmes do “Sherlock Holmes” estrelados por Robert Downey Jr., por exemplo, pegaram carona no hype do ator após o sucesso como Homem de Ferro e vieram como blockbusters nos cinemas para o público em geral. A ótima série “Sherlock”, estrelada pelo Benedict Cumberbatch e produzida pela BBC, já mirava uma audiência mais restrita da TV, mais precisamente que se identificada com aqueles thrillers britânicos de espionagem.
Este “Enola Holmes”, baseado no livro “Os Mistérios De Enola Holmes: O Caso do Marquês Desaparecido”, de Nancy Springer, é visivelmente voltado para um público mais jovem, condizente com a idade da protagonista. Isso justifica muitas escolhas que tornam a narrativa não apenas mais leve, mas boba. Quem espera grande mistérios, pistas criativas e reviravoltas mirabolantes, pode se decepcionar. Aqui essas vertentes até aparecem, mas tudo parece estar numa escala bem menor e as resoluções acontecem de maneira bem mais simples.
A direção é de Harry Bradbeer, que dirigiu 11 dos 12 episódios da excelente série “Fleabag”, e aqui traz algumas características usuais dele próprio, como a constante quebra de quarta parede, quando a personagem olha para a tela e conversa com o espectador. Este recurso geralmente é uma muleta de roteiro para acrescentar informações complementares, o que acontece um pouco aqui, mas neste caso, ocorre mais como uma tentativa de aproximar a protagonista com o seu público. Funciona dentro da proposta.
Basicamente, a principal pista para os mistérios são os anagramas, aquelas letras misturadas, algo presente inclusive no nome da Enola, e o diretor utiliza bem aquele brinquedo que sempre vem à tona para descrever o que está sendo desvendado.
Bradbeer parece saber não se levar à sério e jogar aqueles intertítulos com fontes retrô, que corriam o risco de ser algo autoexplicativos, mas utiliza de maneira debochada. Como por exemplo, quando aparece “53 segundos depois”, para algo acontecer logo em seguida, ou quando ela descreve “fase 1”, “fase 2”, para depois ela dizer que nem se lembra em que fase está.
Os muitos flashbacks rápidos são bem utilizados para construir a relação da Enola Holmes com a mãe dela ou para mostrar o aprendizado dela com a luta no meio de uma cena combate. Mas não deixa de ser incoerente ela dizer que luta jiu-jítsu quando esta arte marcial brasileira não era batizada assim naquela época, tampouco tinha chegado na Inglaterra. Mas são as velhas liberdades criativas.
As cenas de ação são funcionais, apesar de não impressionar, uma perseguição no trem aqui, uma luta acolá. Ela não são muito picotadas, funcionam para ditar o ritmo e convence que alguém poderia fazer elas de fato.
O design de produção é bem eficiente, lembrando muito os longas dirigidos por Guy Ritchie, não deixam em nada a desejar.
O roteiro de Jack Thorne, do simpático “Extraordinário”, de 2017, foca em duas subtramas, a busca da Enola pela mãe e o caso do jovem Tewkesbury, ambas são apenas desculpas para a aventura acontecer, pois se tivesse espionagem ali de fato, a impressão é que tudo se resolveria facilmente. E de fato, quando é para ser solucionado, as coisas acontecem num piscar de olhos.
Ao trazer o foco para o ponto de vista feminino, é muito válida a visão contemporânea de Enola como uma jovem cheia de personalidade, à frente da sua época. Educada pela mãe, ela gosta de esportes, odeia aqueles vestidos desconfortáveis. O discurso feminista, a princípio, é construído de maneira orgânica, através da fala em que alguém debocha que ele nunca arrumaria marido vestida daquele jeito, ou ela própria ironiza ao disfarçar como uma “lady”, para se misturar às pessoas.
O problema é quando a própria história trata de repetir esses conceitos a ponto de Enola ir para um local em que mulheres são treinadas para serem quase freiras, aprenderem a bordar e servirem seus futuros maridos. Para a trama principal, nada acrescenta e só torna a proposta redundante, podendo o produto final ser enxugado, com excessos visíveis nas duas horas e três minutos de duração.
No papel principal, a Millie Bobby Brown, que é uma das queridinhas do momento após explodir com a série “Stranger Things”, faz um trabalho competente. Ela é muito carismática, traz a pitada de drama quando necessário, ela tem um futuro de muito sucesso por vir.
Henry Cavill, o atual Superman dos cinemas, traz todo um charme e até um ar de mistério para o Sherlock Holmes. Fica a impressão que ele poderia ser um bom Sherlock. Poderia! Pois aqui ele praticamente não tem função na narrativa. Se tirassem ele e mantivesse apenas a aura em torno do nome do Sherlock Holmes, com uma ou outra mudança, não faria diferença alguma para a história.
Sam Clafin, como o irmão Mycroft Holmes, cumpre bem a função de estar caricato, pois ele está lá para ser a figura que o espectador vai repudiar. Ele não é bem um vilão propriamente dito, mas é a representação do machismo da época, que exige que a Enola seja algo totalmente diferente do que ela é.
Helena Bonham Carter, apesar do pouco tempo em cena, rouba a cena como sempre faz. Completando o elenco, o Louis Partridge, como o rapaz engomadinho que acaba cruzando o caminho da Enola, não compromete, ele até que faz o trabalho dele direitinho.
Por fim, “Enola Holmes” é uma típica “Sessão da Tarde” que não incomoda quem procura apenas um passatempo inofensivo, ainda que seja bem rasteiro e com algumas arestas que poderiam ser aparadas. O público em geral da Netflix, principalmente os mais jovens, devem aprovar. O suficiente para, quem sabe, garantir até uma continuação em breve.
Nota: 6,0
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