
O terceiro longa da franquia daqueles dois malucos que viajam no tempo numa cabine telefônica, cujo segundo filme foi lançado em 1991, foi uma das muitas produções afetadas pela pandemia, pois estreou em poucos cinemas pelo mundo, sendo também lançado no formato Video On Demand (leia-se venda ou aluguel para assistir online). Mas será que continuar a história daqueles adolescentes, agora cinquentões, foi uma boa ideia nos dias atuais? Acreditem, sim!
Na trama, Ted (Keanu Reeves) e Bill (Alex Winter), depois de anos lidando com a frustração de ainda não terem escrito a melhor música de todos os tempos, precisam voltar a viajar no tempo para enfim conseguirem compor a tal canção e, com isso, salvar a humanidade.
O primeiro longa, “Bill e Ted – Uma Aventura Fantástica”, de 1989, os dois adolescentes resgatam várias figuras histórias como Napoleão Bonaparte, Billy The Kid, Sócrates, Beethoven e Abraham Lincoln para um trabalho de História do colégio.
Foi um sucesso inesperado que surpreendeu até os realizadores, tanto que rendeu uma continuação apenas dois anos depois. “Bill e Ted – Dois Loucos no Tempo”, de 1991, em que na história, eles são assassinados por robôs assassinos com a forma deles mesmo e precisam vencer desafios contra a Morte em pessoa para voltarem à vida.
Não tem como negar que este “Bill e Ted: Encare a Música” (Bill & Ted Face The Music, 2020) chega com pelo menos 20 anos de atraso, precisando apelar para a nostalgia dos fãs com os dois anteriores, sem soar datado em demasia para os dias atuais.
Felizmente a dupla de roteiristas, Chris Matheson e Ed Solomon, justamente os criadores dos personagens e que também roteirizaram os outros dois longas, não tentam reinventar a roda e pegam um fiapo de história para resgatar os elementos que funcionaram lá atrás, mas tudo com muito equilíbrio.
Como os protagonistas não são os seres mais inteligentes do mundo, suas personalidades são preservadas, quase como eternos adolescentes, até ingênuos no mundo atual, o que agora causa problemas em seus casamentos. Vale lembrar, suas esposas são as princesas Joanna e Elizabeth dos longas anteriores, mas o roteiro não fica mastigando isso.
O amadurecimento deles acaba se dando através das metáforas quando encontram diferentes versões deles mesmos em outras épocas, principalmente o Ted, que apresentava dificuldade para isso. Eles continuam a repetir bordões já tradicionais, como “Excellent”, além daquele movimento de “Air Guitar”, porém, numa escala menor, o já simboliza a passagem do tempo.
Novamente há o resgate de figuras históricas, o que garante a simpatia de quem assiste, além de outro excêntrico robô assassino, com um visual propositalmente brega que parece saído de produções do início dos anos 90, que garante bons momentos cômicos.
A direção está a cargo de Dean Parisot, que tem no currículo exatamente comédias, como “Heróis Fora de Órbita” e “As Aventuras de Dick e Jane”, que sabe tocar a narrativa leve, uma típica “Sessão da Tarde”, que não se leva à sério. E nem tinha como ser!
Parisot utiliza algumas flashbacks com cenas dos filmes anteriores, mas apenas na introdução, a nível de contextualização do que aconteceu no longo hiato entre as produções. Em termos estéticos, tudo é muito colorido e é interessante uso, por exemplo, daquele azul celestial para representar o que seria o paraíso, e um vermelho bem forte para representar o inferno, mas tudo parece intencionalmente tosco, quase parecendo uma animação.
O uso das cores, inclusive, é muito bem aplicado nos figurinos dos protagonistas, visto que desde a juventude, o Ted sempre teve a preferência pelo vermelho e o Bill pelo azul ou verde. Agora mais velhos, ainda que as vestimentas variem, suas respectivas paletas estão lá de alguma forma. Gostos que passaram de geração e foram adotados pelas suas filhas, mas como as duas famílias cresceram juntas, é a filha do Ted quem veste o azul e a do Bill veste vermelho.
Pequenos detalhes os fãs irão reparar, como o smile que havia nas costas da jaqueta de Ted no segundo filme, e aqui aparece na correia da sua guitarra e numa tatuagem. Certas caracterizações funcionam justamente por não tentarem soar realista, como naquela cena da prisão, presente nos trailers, em que eles estão super fortes e visivelmente aquilo é maquiagem junto a roupa de espuma.
Keanu Reeves, que já carrega a reputação de cara do bem consigo, está o que se espera dele no papel do Ted, pois pode usar e abusar da cara de paisagem que ele tem, além dos próprios vícios de atuação, como o “wow”, e aqui simplesmente funciona.
Alex Winter, que se dedicou mais à carreira de diretor de séries e produções de TV ao longo desses anos, também parece que nunca saiu do papel de Bill, um eterno moleque sonhador.
Quem também retorna é William Sadler no papel da Morte, aqui numa participação bem menor, mas que tem função dentro da narrativa. Não é aleatória. E o ator continua com a veia cômica em dia, como aquela figura cheia de orgulho que só precisa de alguns elogios para ser convencido de algo.
Nos papéis das filhas Thea e Billy, Samara Weaving e Brigette Lundy-Paine são muito carismáticas e captam a proposta nada séria. Brigette, que faz a filha do Ted, imita perfeitamente os trejeitos dos pais. Uma pena que, mesmo com o roteiro dando o devido espaço e importância a elas, ainda assim não desenvolve traços de personalidade própria.
Lamentável também que o personagem Rufus, que era uma espécie de guia temporal da dupla nos longas anteriores, não está presente pois os seu intérprete, o comediante George Carlin, faleceu em 2008. A sua substituta, a também ótima Kristen Schaal que vive a Kelly (detalhe, a filha do George Carlin também se chama Kelly), ela está bem deslocada, certamente poderia ter sido melhor aproveitada.
Da mesma forma, as esposas, vividas Erinn Hayes e pela Jayma Mays, parecem renegadas pelo roteiro. É introduzido uma possível subtrama com elas, inclusive junto a suas versões mais velhas, mas que parece que foi simplesmente esquecida ou cortada da versão final. Não apenas isso, mas existem pontas soltas, como a aparição repentina de uma figura histórica num consultório de psicologia, e depois é totalmente esnobado.
Não tem como negar que “Bill e Ted – Encare a Música” é um filme idiota, mas neste caso, para o bem, pois conseguiu manter a essência daquilo que transformou uma aposta bem improvável num cult, mesmo com as devidas atualizações. Garante exatamente o que se espera de Bill e Ted. E nada mais que isso.
Nota: 6,5
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