
A série “The Boys”, atualmente, é o principal produto da Amazon Prime Video. Tanto que nesta segunda temporada, como forma de segurar a audiência por mais tempo, a plataforma de streaming optou por lançar de cara apenas três episódios e, depois, um episódio por semana. E o hype foi justificado!
Na trama, os The Boys precisam elaborar um plano para derrubar a empresa Vought, responsável pelos principais heróis do planeta, enquanto o líder Billy Butcher (vivido por Karl Urban) está desaparecido. Enquanto isso, Homelander (Antony Starr) se concentra em assumir o controle total “Os Sete”, mas seu seu poder é ameaçado com a adição de Stormfront (Aya Cash), a nova integrante da equipe.
Como muitos já devem saber, a série é baseada na HQ criada por Garth Ennis e Darick Robertson, que subverte os padrões de super heróis e os colocam como seres de caráter bem duvidoso e não faltam situações politicamente incorretas.
Acreditem, a revista é bem mais pesada e sem pudor do que a série criada por Eric Kripke! Mas por incrível que pareça, temos um caso em que adaptação para o audiovisual seja até superior à HQ, pois souberam explorar a complexidade dos personagens. Existe o choque visual, mas não de maneira gratuita como muitas vezes acontece na revista. A violência e outras “coisitas más” são bem utilizadas como ferramentas narrativas.
Nesta segunda temporada, apesar de ampliarem muitos conceitos da temporada anterior – que é algo natural das sequências -, os roteiristas conseguiram construir e fechar bem um arco, transmitindo suas ideias, claro, cheias de ironias. Tem muito mais sangue desta vez, com cabeças explodindo, literalmente, além de escatologias, como um órgão sexual que é o próprio poder de um personagem secundário que parece saído direto da mente doentia do Garth Ennis.
A ação está bem frequente, com embates que destroem tudo ao redor, perseguições, mas sempre com alívio cômico. Exemplo maior é aquela tão politicamente incorreta cena da baleia, quem viu sabem bem. Eles utilizam da metalinguagem com a filmagem de um filme dos “Os Sete”, em que os heróis interpretam eles mesmos, e é uma paródia descarada aos clichês do gênero que tanto faz sucesso na última década.
Há aparições rápidas de novos supers, dentre eles, tiveram boa sacada de colocar o ator Shawn Ashmore, que viveu o Homem de Gelo nos filmes do “X-Men”, para viver um cara que tem poderes de fogo. Outros surgem mais com o intuito de impressionar pela bizarrice, mas têm suas funções no roteiro, por mais simples que sejam, como um que surge apenas para fazer uma piada com o “Demolidor” ou um transmorfo que assume a forma de outra pessoa e serve para materializar o estado emocional do Homelander. E tem uma espécie de garoto de programa em que os clientes pagam ele para cortar seus membros, utilizado para a Starlight conseguir um certo produto, e só!
Entre as adições do elenco fixo, o destaque é a ótima Aya Casher, que vive a Stormfront, personagem que nos quadrinhos é um homem e tem um espaço bem menor. Ela inicialmente surge como uma paródia das ativistas que criticam toda a mídia em torno dos “Os Sete” e utiliza as redes sociais para conquistar um maior alcance. Mas logo percebemos que ela não tem nada de boazinha, ela tem intenções bem maiores, esconde um mistério importante para toda a trama é desenvolve uma espécie de relação um tanto complexa com o Homelander.
Sobre o Homelander, Antony Starr rouba a cena sempre que aparece, ele dá um verdadeiro show. O ator apresenta aquela cara de cínico o tempo todo e quando pensamos que pode existir resquícios de humanidade nele, ele se transforma num monstro em segundos. Nesta segunda temporada, ele tenta a todo custo ampliar a sua já grande influência no grupo, tem a subtrama do filho para balançar ainda mais o seu caráter, mas surgem empecilhos de todos os lados para frear o ego do líder dos Sete, deixando ele louco.
A Rainha Maeve (vivida por Dominique McElliott) tem o sua carga dramática mais aprofundada, mexendo com a sua sexualidade, e a atriz capta toda a apatia e desgosto com todo aquele contexto em que ela está inserida.
Black Noir (vivido por Nathan Mitchell, ou pelo menos é ele quem fica dentro daquela roupa), tem um espaço maior do que na primeira temporada, ganhando algumas cenas de ação que servem para vermos mais dos poderes dele. Ainda assim, o mistério sobre a sua origem vira uma piada recorrente da série e o seu estilo silencioso acaba por gerar momentos cômicos.
Quem acaba ficando de escanteio nesta temporada é o Profundo (vivido por Chace Crawford), e o A-Train (vivido por Jessie T. Usher), que basicamente tentam trabalhar suas imagens para voltar para Os Sete. Mas destes dois, o Profundo tem um espaço maior pois ele fica responsável pelo arco que satiriza sem dó as igrejas, seja a Universal, seja a Cientologia, que tentam reconstruir alguém, mas são cheias de interesses econômicos por trás. No caso, a situação de perdido do Profundo rende novas piadas, em especial aquela em que ele está numa crise existencial e discute com as próprias guelras (voz do comediante Patton Oswalt).
Já da turma dos rebeldes, o anti-heróis, todos ganham um pouco de atenção, ainda que de maneira rápida, como os flashbacks que mostram o passado louco do Francês (vivido por Tomer Capon), que vira uma espécie de inventor e armamentista do grupo. O Leitinho (vivido por Laz Alonso), que é um cara família e o principal homem de confiança do Billy Butcher. Kimiko (vivida por Karen Fukuhara), a única mulher da equipe, traz um misto de drama e revolta por trás do silêncio, reforçado pelo fato do roteiro resgatar alguém do seu passado, alguém que ela ainda queira bem.
O relacionamento do Hughie e da Starlight (personagens de Jack Quaid e Erin Moriarty) acaba sendo a subtrama menos interessante da série, mas eles têm a devida importância por praticamente todo o desenrolar da trama na prática.
Quem ganha mais atenção, claro, é Billy Butcher, o líder deles, vivido pelo Karl Urban, que mesmo com aquele jeito durão, de poucas palavras e a cara sempre fechada, o roteiro aborda o lado humano dele. Conhecemos mais do seu histórico familiar e agora acompanhamos o seu maior dilema, que é o reencontro com a esposa que ele achava que está morta e ela tem um filho oriundo de estupro pelo herói mais famoso de todos.
Nesta temporada as críticas sociais ao corporativismo e o controle sobre os veículos de comunicação estão bem mais explícitas através da Voight, a empresa responsável pelos “Os Sete” que cria falsas aparências ao longo de anos.
Neste contexto, claro que a política entra no meio e a trama reserva algumas revelações que realmente surpreendem, principalmente na reta final e tem um gancho bem interessante para a terceira temporada.
Confesso que eu queria ter visto mais do CEO da Vought, vivido pelo sempre incrível Giancarlo Esposito. Com sua já tradicional expressão de frieza, um cara que consegue intimidar o Homelander só na conversa, certamente é bem perigoso.
É verdade que o roteiro tem muitas conveniências, como por exemplo, a facilidade como o Billy Butcher consegue reuniões com os mais altos figurões da Vought. Além disso, matar ele e inventarem qualquer conspiração seria a coisa mais fácil do mundo, pois eles fazem coisas piores o tempo inteiro. Também muitas resoluções acontecem através de chantagens, algumas delas você para e pensa “Por que tal personagem está caindo nessa”?
Há muitas pontas soltas, como por exemplo, aquela super que aparece na cena do hospital, ela tem um poder estrondoso, mas depois não dá mais as caras. Não é possível que alguém com aquele poder tivesse ali só para garantir umas cenas legais, então, é bem possível que ela retorne no futuro.
Mas não tem como negar que esta leva de oito episódios conseguiu reunir uma imensa quantidade de elementos de uma maneira coesa, sem perder a principal identidade, que é zombar sem nenhum pudor de figuras e situações que fazem parte do nosso dia a dia, seja no mundo do entretenimento ou da vida real.
Nota: 9,0