Crítica: “A Maldição da Mansão Bly” equilibra com dificuldade o terror e o drama

A minissérie “A Maldição da Mansão Bly” (The Haunting of Bly Manor, 2020), lançada pela Netflix, chega como uma espécie de segunda temporada da ótima “A Maldição da Residência Hill”, mas contando uma história totalmente diferente, com alguns atores que retornam fazendo outros personagens. Mas será que esta fórmula, semelhante ao que já é feito de maneira bem sucedida na franquia “American Horror Story”, deu certo? Em partes.

Na trama, a jovem Dani Clayton (vivida por Victoria Pedretti) é contratada para trabalhar numa antiga mansão, cuidando de seus dois sobrinhos órfãos. Mas tudo se complica quando os irmãos Flora e Miles começam a apresentar um comportamento estranho.

Enquanto a primeira temporada adaptou muito bem o livro “A Assombração da Casa da Colina”, de Shirley Jackson, que já teve muitas versões para o cinema, esta segunda optou por uma história que foi ainda mais revirada. O livro “A Volta do Parafuso”, escrito por Henry James, lançado em 1898, ganhou incontáveis versões tanto para a TV como o cinema, sendo a última fraquíssimo filme “Os Órfãos”, lançado ainda em 2020. Sendo uma história sem efeito novidade para muita gente, a série tinha a difícil missão de garantir a audiência que já havia sido conquistada.

Por um lado é um alívio o retorno do criador Mike Flanagan, que é um dos principais nomes do suspense ou terror contemporâneo, tendo dirigido bons filmes como “Hush – A Morte Ouve”, “Ouija: A Origem do Mal”, “Jogo Perigoso” e a sequência de “O Iluminado”, “Doutor Sono”. Mas se na primeira temporada ele dirigiu todos os 10 episódios, na segunda ele comanda apenas o primeiro, o que já mostra um menor interesse por parte do idealizador do projeto.

Dá para perceber a falta de unidade entre os agora nove episódios. Desta vez, não há aqueles planos sequências trabalhados com tanta cautela, de encher os olhos, como na anterior.

De início, propositalmente a narrativa deixa o mistério todo no ar, mas no sétimo episódio parece que tudo fica claro até demais. Tanto que o penúltimo episódio é um enorme flashback, todo em preto em branco, para mastigar todo o principal mistério por trás de tudo.

Se o grande mérito de “A Maldição da Residência Hill” foi explorar bem o drama por trás daqueles personagens enquanto o terror era uma ferramenta secundária, parece que eles imaginaram que esta era uma fórmula certeira, o que em “A Maldição da Mansão Bly” caiu de maneira apenas razoável no decorrer dos nove episódios.

Os personagens ali tem as suas frustrações, mas ao passo em que elas são apresentadas, não há muito mais a ser aprofundado, tornando o ritmo um tanto arrastado. Porém, o último episódio traz uma resolução de uma delicadeza ímpar para uma obra que se propõe a ser de horror. Pode não ter sustos, mas o drama é muito bem desenvolvido e pra não se emocionar precisa ter o coração de ferro.

Um artifício utilizado antes, que são os constantes flashbacks, voltam a acontecer e até funcionam bem a nível de contextualização, com alguns episódios se dedicando a algum personagem específico, por mais que o grau de envolvimento não seja mais o mesmo.

Neste início, o teor sobrenatural se restringe a alguns fantasmas que passam pelo plano de fundo, uma figura que se repete a aparecer no espelho, o possível paradeiro do personagem Peter Quint ou as tão misteriosas bonecas. De fato, o visual das bonecas gera um certo incômodo, mas elas aparecem de maneira bem econômica, justamente pela intenção de manter o suspense apenas como um toque complementar.

Acontece uma certa estranheza quando as crianças agem de maneira maléfica, bem diferente das suas personalidades naturais, e isso também garante algumas dúvidas bem vindas.

Os momentos mais interessantes da direção é quando joga o espectador para momentos de devaneios de certos devaneios, com alternância de épocas e repetição de situações, numa espécie de looping temporal. Essas transições podem até soar confusas de início, mas fazem total sentido ao inserir quem assiste na mente de personagens misteriosos, ao mesmo tempo que as situações vão sendo esclarecidas.

O design de produção mais um vez é impecável, mostrando em detalhes não apenas cada espaço da mansão, mas o enorme jardim que a complementa, o que ajuda a fomentar o medo naquele lugar. Da mesma forma, a fotografia é eficiente ao trazer a escuridão quando os possíveis fantasmas estão de fato em cena e a luz, com cores variadas, quando existe contemplação, medo, a sensação de que algo de errado está acontecendo.

Vale destacar a boa intenção da série em se adequar aos dias atuais, sem tabus, visto que a história original se passa em 1898. Existe a atração entre duas mulheres que é tratada com naturalidade, tem um cozinheiro homem, uma governanta negra, bem diferente do livro. Acontece acertadamente de uma maneira natural.

A protagonista Dani Clayton, vivida por Victoria Pedretti, faz um bom trabalho ao encarnar uma jovem cheia de boas intenções, que viveu um grande trauma e busca se reencontra sendo ela mesma, mas cheia de insegurança. O maior destaque do elenco é Oliver Jackson-Cohen, pois ele encarna Peter Quint como alguém extremamente tóxico, possessivo, mas que tem um forte charme e também carrega uma carga dramática.

Outro ponto alto é T’Nia Miller, como a governanta Hanna Gross. Ela capta bem a carga dramática de quem procura sempre estar do lado da justiça mas parece um tanto perdida. E tem motivo para isso! O seu par é Rahul Kohl, que vive o cozinheiro Owen, alguém que transparece a bondade. Ele realmente é uma pessoa de bom caráter que se preocupa com aqueles que ele quer bem.

As crianças vividas por Amelie Bea Smith e Benjamin Evan Ainsworth cumprem bem a difícil missão de manterem a inocência enquanto parecem esconder algo sombrio. A Amelie (que para quem não sabe faz a voz da Peppa Pig no desenho) é melhor sucedida nesta missão pois ela soa natural, enquanto o Benjamin transparece estar…interpretando.

Henry Thomas (que para quem não lembra ele é o menino Elliott de “E.T – O Extraterrestre”) sabe mesclar a apatia com a canastrice e a narrativa tem a interessante decisão de trazer duas versões dele mesmo, como um espelho. Tahirah Sharif, que vive a tão misteriosa babá Rebecca Jessel, encarna bem aquela figura aparentemente inocente mas que é fácil de ser manipulada. Uma situação nada feliz e atemporal.

Amelia Eve, que vive a jardineira Jamie, encarna uma personagem que à primeira vista será apenas secundária mas vai revelando uma grande importância para a narrativa. E a atriz faz bem o tipo da mulher durona que não admite ser contrariada, mas ela é cheia de boas intenções e sentimentos sinceros.

Por fim, “A Maldição da Mansão Bly” pode ter bem menos terror do que o público alvo espera, são raros os jump-scares (os sustos atenuados pelos efeitos sonoros), mas não tem como negar que existe uma intenção ali de continuar a trazer diferentes nuances para o gênero. É bem inferior a “Maldição da Residência Hill”, mas continua a trabalhar bem os fantasmas como dramas pessoais e constrói relações de uma maneira muito digna.

Nota: 7,5

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