
Em 2006, Sacha Baron Cohen e seu personagem Borat, um repórter cazaquistanês, ganharam um mundo com uma comédia bem longe do convencional. Em “Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”, o ator era um dos poucos que nunca saía do personagem, e através de interações com pessoas comuns, arrancava inúmeras situações de preconceito, xenofobia, racismo, entre outras atrocidades.
Mas existia um enorme desafio em repetir está proposta 14 anos depois, quando muitos já conhecem o personagem. Além disso, o mundo está muito mais louco – isso para não usar nenhuma palavra de baixo calão – em que políticos polarizadores de opinião estão no poder e muitas pessoas se sentiram autorizadas a mostrar suas verdadeiras faces. O preconceito parou de ser tabu e virou algo escancarado.
Sendo assim, é com muita satisfação que conferimos que esta continuação de Borat não apenas funciona, como se mostra muito necessária para os dias atuais.
A história mostra a volta do repórter Borat (Baron Cohen) aos Estados Unidos na tentativa de se redimir com o país ao entregar um presente ao vice-presidente Mike Pence. Como é de se esperar, tudo dá errado e ele acaba envolvendo sua filha em uma tentativa de casamento com as autoridades próximas a Donald Trump.
“Borat: Fita de Cinema Seguinte” (Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan, 2020) é um deboche constante que nos faz rir de nervoso, quando na verdade estamos diante de um terror mais real do que qualquer fantasma ou boneco demoníaco.
A estrutura deste novo filme, dirigido por Jason Woliner, oriundo de muitos projetos de TV, é novamente de um chamado mocumentário, um pseudodocumentário que satiriza situações reais. As esquetes, quase pegadinhas com pessoas que não sabem onde estão se metendo, continuam a acontecer.
O roteiro é assinado por nada menos que oito nomes, mas neste caso, até se entende, pois como estão lidando com o imprevisível, muitas ideias vão sendo inseridas ao longo da produção.
O fato do personagem Borat já ser conhecido por muita gente é devidamente citado e a saída é até bem fácil, levando o Sacha Baron Cohen adotar diferentes disfarces ao longo da gravação. Mas além disso, desta vez há muito mais cenas roteirizadas, principalmente entre ele e a filha, o que dá uma consistência maior à história como narrativa.
Obviamente que a ignorância prévia desenhada a eles é essencial para todo o desenrolar. O Cazaquistão é desenhado como uma cultura extremamente atrasada, sem avanços na tecnologia, vivendo numa cultura extremamente machista, que celebra o holocausto e idolatra os Estados Unidos.
Não à toa o filme é lançado às vésperas das eleições presidenciais, permitindo deitar e rolar com ironias em cima de Donald Trump, incluindo seus aliados pelo mundo, incluindo um certo presidente do Brasil. Sim, somos piada ao redor do mundo!
Então é justamente quando os atores tentam arrancar o humor politicamente incorreto de pessoas aleatórias que o negócio pega. Se a relação do Borat com a filha, em que ele a trata literalmente como um animal e tem prazer em produzir ela para entregar como objeto sexual é toda encenada, é de impressionar como todos ao redor parecem levar isso com naturalidade. Desde um médico que fala que a assediaria sem problema algum, ou alguém que vende uma jaula.
Claro, piadas sobre menstruação é masturbação feminina entram no bolo, o que pode ser visto como mal gosto por quem assiste. E claro que as pessoas que ali assistem não reagem bem a estes eternos tabus. Há momentos realmente constrangedores, incluindo um diálogo como um representante da bandeira antiaborto. Independente dos argumentos contra ou a favor, a forma como ele desenrola a conversa é de fazer rir diante de tanta indignação.
Entrando no cenário político, não faltam situações em que pessoas apontam os democratas como os responsáveis pelas principais tragédias do mundo. Tudo culmina no cenário atual, da pandemia do coronavírus. Obviamente há de sobra pessoas que debocham do Covid-19, que acreditam que é invenção dos comunistas, que usar máscara é futilidade.
Neste contexto, não tem como não continuar a se impressionar com a audácia do Sacha Baron Cohen. Para se infiltrar num congressos cheio de supremacistas brancos se divertindo e ingerindo álcool, é preciso não ter os parafusos no lugar! Da mesma forma, é de rir para não chorar ver alguém entrando vestindo de Ku Klux Klan em um lugar de grande segurança e o máximo de reação são alguns olhares estranhos.
O ápice do projeto é no encontro com Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York e um dos braços diretos do Donald Trump. É exposto e é grotesco!
E não tem como deixar de exaltar a excelente atuação da atriz búlgara Maria Bakalova, que tem 24 anos, mas interpreta uma personagem de 15. Ela encarna a total inocência de alguém alheia à realidade, que acredita plenamente em tantos absurdos pela falta de contato com o mundo externo. Na hora de interagir com os não atores, ela não deixa em nada a desejar quanto à capacidade de improviso e cara de pau do Sacha Baron Cohen. E sim, isso é um grande elogio!
Mas mesmo com tanto dedo na ferida, o projeto trata de trazer mensagens de esperança, claro, com a devida ironia. Seja através do plot-twist previamente roteirizado para o personagem ou mesmo exibindo pessoas reais que apresentam sinais de empatia, mesmo diante de tanta bizarrice, ele consegue transmitir uma mensagem positiva. Afinal, os risos não estão apenas escondidos na escuridão. A ideia inicial dele ainda é trazer alegria. E com eleições à vista, fica claro que se render e aceitar a ignorância não deve ser opção.
“Borat: Fita de Cinema Seguinte” faz rir com a certeza de que o humor é pelos motivos errados. Há momentos que provocam indignação, nojo, justamente por saber que muito dali não se trata de ficção. Mas que bom que temos um Borat, um Sacha Baron Cohen, para debochar de desta realidade de uma maneira tão criativa.
Nota: 9,0
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