
Com a enorme restrição de lançamentos nos cinemas em 2020 por causa da pandemia, aumentam as chances nas premiações de produções com contexto político lançadas nas plataformas de streaming. E ainda com os “extras” de ser baseado numa história real e ser dirigido por um nome de peso na indústria, “Os 7 de Chicago” (The Trial of the Chicago 7, 2020) desponta com uma moral que não necessariamente é sinônimo de qualidade.
A trama acompanha um grupo de ativistas anti-guerra acusado de começar uma batalha em Chicago durante a Convenção Nacional Democrata de 1968. O resultado foi um dos julgamentos mais famosos e polêmicos da história.
Fazendo aqui um breve apanhado sobre a produção, ninguém menos que Steven Spielberg tentou levar essa história para os cinemas em 2007 e chamou Aaron Sorkin, vindo da série “Westwing”, para escrever o roteiro.O projeto acabou sendo engavetado e, nesse meio tempo, Sorkin ganhou o Oscar de Melhor Roteiro por “A Rede Social”, em 2011, fez a sua estreia como diretor no razoável “A Grande Jogada”, de 2017, e tomou a iniciativa dele mesmo dirigir o longa que estava roteirizado.
E o timing ao ser lançado em 2020, mais de 50 anos dos acontecimentos do longa, não poderia ser mais perfeito, pois ele soa mais atual do que nunca. Em tempos em que os Estados Unidos, o Brasil, entre outras nações, são presididas por figuras tão polarizadoras, a censura parece cada vez mais forte e a liberdade de expressão – principalmente no quesito anti-armamentista -, parece cada vez mais difícil, é possível se identificar com as situações ali vistas.
Não faltam artimanhas por parte do governo para manipular o tal julgamento, transmitindo uma ideia de falsa democracia, incluindo infiltrar servidores públicos como jurados que poderiam votar a favor dos manifestantes.
A figura de antagonistas recai ao juiz, vivido de maneira brilhante pelo veterano Frank Langella, alguém claramente com condução tendenciosa, com decisão já formada, tornando impossível a tarefa do advogado de defesa, vivido de maneira bem competente pelo oscarizado Mark Rylance. Chega a ser engraçado de tão absurdo quando ele aceita um protesto antes até do promotor tomar iniciativa ou quando os jurados zoam que algo vai ser indeferido antes dele anunciar a decisão.
Por sinal, o alívio cômico é uma ferramenta constante que funciona, sendo os hippies vividos pelos ótimos Sacha Baron Cohen e o Jeremy Strong os engarregados disso. Sacha é mais pragmático e Jeremy é o sentimental. Algumas situações parecem artificiais, por mais que tenham acontecido na vida real em outros contextos. Por exemplo, quando a dupla provoca os juízes e policiais através das vestimentas em pleno julgamento. Ainda assim, o carisma dos atores, que transparecem autenticidade em seus atos, prevalece. É fácil se divertir e ficar do lado deles.
É interessante como é desenvolvido o impasse ideológico no processo judicial dos envolvidos entre seguir a transmitir a ideia pacifista ou tentar livrar a própria pele da prisão.
Se por lado o Aaron Sorkin se reafirma como um roteirista bem criativo, como diretor ele soa ainda verde, sem tanta criatividade. Parece que a prioridade dele são os diálogos sempre dinâmicos, sem focar em tudo que rodeia o contexto.
É de lamentar que o personagem responsável pelas cenas mais impactantes, o réu vivido pelo cada vez mais impressionante Yahya Abdul-Mateen II, ele seja ironicamente jogado para escanteio pelo roteiro. Se por um lado ele é o que transparece o racismo da época, sendo o único que parece algemado logo no início até culminar em outra cena bem humilhante, ele tem um desfecho um tanto brusco e depois não sabemos mais do paradeiro dele. Da mesma forma, o movimento dos Panteras Negras tem um papel bem superficial e que também fica sem resolução.
Mas se Sorkin conduz a trama principal como mais um longa de julgamento comum, a montagem de Alan Baumgarten, seu colaborador habitual, trata de imprimir um ritmo bem dinâmico. Funciona bem os flashbacks com explicações dos fatos através de apresentações de Stand-Up Comedy pelo Sacha Baron Cohen, algo que ele naturalmente faz muito bem.
Empolgante também quando os personagens obtêm uma certa gravação o advogado vivido por Mark Rylance inverte os papéis e assume o papel de promotor numa simulação, com um dos envolvidos. As cenas dos embates com a polícia, apesar de não impressionar, servem bem a nível de contextualização.
Como protagonista, Eddie Redmayne segue no piloto automático, sem nenhum destaque. O que é uma pena se tratando de Tom Hayden, um progressista que de certa forma moveu todo aquele movimento e seguiu com suas ideologias até a morte.
Jospeh Gordon-Levitt, como o promotor, também faz um trabalho correto, mas também um pouco apagado, como um jovem que está lá pois é a oportunidade profissional da vida, mas não transparece ser um mal caráter em nenhum momento. Já Michael Keaton tem uma participação bem curta mas muita significativa. Quando ele está em cena, gera momentos de empolgação e indignação ao mesmo tempo!
“Os 7 de Chicago” é um longa que tem momentos um tanto novelescos, cheios de falas e momentos que não parecem naturais. Ao mesmo tempo, é cheio de socos no estômago com situações que parecem apenas privar quem defende a vida. Algo nada diferente do que vivemos hoje.
Nota: 8,0
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