
“O Gambito da Rainha” (The Queen’s Gambit, 2020), minissérie lançada pela Netflix, tem sido um grande sucesso de audiência e crítica. A qualidade é confirmada. E ainda se sobressaiu num período sem grandes estreias nas plataformas de streaming.
A trama conta a história de Beth Harmon (Anya Taylor-Joy), uma menina órfã que se revela um prodígio do xadrez. Aos 22 anos, ela precisa enfrentar seus vícios para conseguir se tornar a maior jogadora do mundo.
O projeto é baseado num livro escrito por Walter Tevis em 1983 e que o roteirista Allan Scott (do “Convenção das Bruxas” original, de 1990) havia escrito um roteiro há mais de 20 anos e desde então tentava adaptar para o cinema. Inclusive, ninguém menos que o saudoso Heath Ledger, que era um grande entusiasta do xadrez, tentou levar para frente um projeto em que ele faria a sua estreia como diretor.
Anos depois, o tal roteiro finalmente ganhou vida, graças ao interesse do também roteirista Scott Frank (de filmes de sucesso como “Minority Report”, “Marley & Eu” e “Logan”), que ofereceu o projeto para a Netflix e ele mesmo dirigiu todos os sete episódios.
Indo direto ao ponto, “O Gambito da Rainha” tem uma narrativa bem simples, porém, não boba. O design de produção, figurino e o trabalho de fotografia são de encher os olhos e as atuações são bem eficientes. Com esse conjunto da obra, trata-se de uma minissérie fácil de ser apreciada.
A recriação dos fim dos anos 60 é impecável. E a direção adota bem a fotografia escura do orfanato, incluindo o quarto do zelador, dando uma ideia de claustrofobia. Bem diferentes dos cenários fora dali, como a casa dos pais adotivos, com as devidas cores verdes nos ambientes neutros, rosa no quarto de menina e azul no quarto de menina, e nos quartos de hotel que ela fica quando mais velha.
O fato de todos os episódios serem comandados por Scott Frank, que como diretor tinha como trabalho relevante apenas o filme “O Vigia”, lá de 2007, é bem positivo no sentido de trazer uma unidade ao projeto.
O primeiro episódio já trata de segurar interesse do espectador ao mostrar o passado da protagonista, a tragédia inicial e parte da sua estadia no orfanato. Ali tem a dose de drama necessária para criar empatia por ela, pois é exposto toda a sua sensação de deslocamento, ao mesmo tempo em que apresenta o seu talento ao jogar xadrez com o zelador. Inclusive, algo essencial para a narrativa, que é o seu vício em medicamento, já é devidamente introduzido ali.
O diretor Scott Frank tem sacadas interessantes, como ao mostrar o jogo de xadrez no teto como parte da imaginação da Beth, na época em que ela praticava sem sequer ter um tabuleiro.
Para quem curte xadrez, é um prato cheio. São muitas as citações a enxadristas famosos e percebe-se que houve ali um estudo para o desenvolvimento das jogadas. Ninguém menos que o ex-campeão mundial Garry Kasparov trabalhou como consultor.
Mas para quem entende pouco ou nada, os realizadores conseguem imprimir emoção nas partidas através de montagens rápidas, intercaladas com as expressões dos próprios jogadores e a reação das pessoas ao redor, com a câmera passeando pelo ambiente.
A trilha sonora, cheia de música clássica, também é essencial para criar tensão nos momentos decisivos.
O diretor também costuma não dar continuidade a certas cenas que seriam importantes, com elipses em que depois é explicado de alguma forma o que aconteceu. Por exemplo, quando ela vai iniciar um jogo decisivo com o rival Benny, há o corte, e na cena seguinte eles estão bebendo num bar. Tal prática é eficiente para imprimir um ritmo dinâmico.
Mas o roteiro segue uma fórmula até segura. Não existe nenhum segredo ali, seguindo o padrão de origem, queda e redenção. Inclusive há muitos clichês, como a jovem que chega no refeitório, as meninas populares olham para ela com desdém e ela senta sozinha em outra mesa. Há conveniências como personagens que retornam do nada para tirá-la do fundo do poço e ajudar na sua redenção. Inclusive há alguns que nem se conheciam mas depois aparecem juntos para ajudá-la.
Mas pelo menos, há o cuidado para não cair no “mais do mesmo”. Fica claro que a Beth é um talento nato do xadrez, mas não basta isso para ter sucesso. Ela estuda bastante e procura sempre novos contatos para se reinventar, pois só assim ela poderá vencer os melhores.
E o principal de tudo: não se trata de uma história sobre xadrez. E nem sobre as dificuldades da mulher se destacar numa área dominada por homens, algo que inevitavelmente está presente. “O Gambito da Rainha” é um história sobre a pessoa no seu meio. A Beth nunca se sentiu amada na vida e, não à toa, seguia uma vida autodestrutiva. Justamente quando ela percebe que pode, sim, ser uma pessoa querida, admirada por outros, o que acontece lá pela reta final, ela parece feliz pela primeira vez.
Não tem como negar que muito do sucesso recai na ótima atuação de Anya Taylor-Joy. Ela capta a extrema frieza de quem parece não ter sentimento algum, algo essencial para o seu sucesso no jogo. Mas a atriz imprime a humanidade da personagem nos pequenos detalhes, como nos olhares. Afinal, ela não é um robô ou uma psicopata, como chegam a insinuar. Ela é alguém com uma bagagem cheia de dores e não quando ela recai no choro ao fazer uma visita ao passado, é difícil não se emocionar com ela.
Outro grande destaque é a Marielle Heller, que vive a mãe adotiva da Beth. Um papel muito difícil pois corria o sério risco de soar como uma mulher que apenas queria usar o talento da jovem para ganhar dinheiro e ainda ser uma má influência para ela em relação ao consumo de álcool.
Mas a atriz, que também é diretora de bons filmes, imprime uma forte carga dramática, pois ela foi anulada a vida inteira pelo marido ausente. De repente, ela viu a oportunidade de viver um pouco a vida, além de proporcionar as chances para a nova filha, ainda que de maneiras tortas. Ela não era perfeita. E quem é?!
Bom trabalho também de Bill Camp, como o Senhor Shaibel, o zelador que é peça fundamental para a menina criar gosto pelo xadrez. À primeira vista, ele é um homem ranzinza, intolerante inclusive com pequena protagonista. Mas talvez seja um mecanismo de defesa pelo estilo de vida, quando verdade ele tem um coração gigante.
Como os caras que passam pela vida da Beth, Harry Melling faz um trabalho correto, mas sem destaque, como um jovem preocupado, mas com suas próprias inseguranças. Já o Thomas Brodie-Sangster, que já pode ser considerado o veterano, também cumpre bem o papel do jogador experiente e arrogante, mas que também tem boas intenções. O ator inclusive contorna a caracterização um tanto exagerada conferida para o personagem, como aquele figurino tosco.
“O Gambito da Rainha” não tem elementos inovadores, mas acerta em quase tudo o que se propõe a ser. É um típico exemplo de minissérie leve (apesar do forte drama que cerca a protagonista), com mais pontos positivos do que negativos, ideal para ser maratonada. Não vai surpreender, inclusive, se emplacar indicações ao Emmy de 2021.
Nota: 8,0