
“Megan Is Missing” (idem, 2011) foi lançado em 2011 e, nove anos depois, viralizou na rede social Tik Tok com usuários compartilhando reações horrorizadas. Muito acreditam que se tratam de cenas reais e, como bom boato que surge do nada, ganhou uma repercussão que ninguém esperava.
A história acompanha a rotina de Megan é Aly, duas adolescentes que compartilham segredos e utilizam a internet com frequência. Um dia, uma delas desaparece, dando início a uma intensa investigação e cobertura da mídia local.
“Megan is Missing”, na verdade, foi gravado em 2006 e só conseguiu distribuição em 2011, sendo lançado direto em DVD. Numa época em que as redes sociais ainda engatinhavam, o longa teve pouca repercussão, exceto pelo fato dele ter sido banido da Nova Zelândia por ser considerado pesado demais.
Logo no início aparece o aviso de que o longa é baseado numa história real, feito inteiramente a partir de imagens de câmeras utilizadas na época e reportagens de TV. Obviamente, as cenas vistas em “Megan Is Missing” não são nada reais.
Se trata de mais uma produção no estilo “found footage”, aquele em que tudo parece saído de uma câmera que acompanha tudo em tempo real. Tem aos montes por aí, inclusive, “A Bruxa de Blair” foi um enorme sucesso em 1999, também sob a narrativa de que seria uma história real. Desde então esse estilo tem sido utilizado até de maneira banalizada principalmente no gênero terror, na tentativa de ser o mais “realista” possível.
Tudo bem que a temática pedofilia e golpes por predadores pela internet infelizmente existe no nosso mundo e o diretor e roteirista Michael Goi se inspirou em nove histórias verídicas para construir o roteiro. Mas daí carimbar sua obra como baseada em fatos, existe uma diferença grande.
E a condução do diretor Michael Goi, que comandou episódios de séries como “American Horror Story”, “Pretty Little Liars” e “Riverdale” é bem problemática, começando pelo ritmo. É muita conversa entre as jovens com situações em que o tempo todo questionamos a inteligência delas. Por mais que suas personalidades fiquem bem definidas, uma é bem extrovertida e a outra é tímida, fica a impressão que nada acontece durante a maior parte do tempo.
Tem situações que chega a ser bizarro alguém simplesmente não chamar a polícia diante do que está acontecendo. Indo mais além, as decisões tomadas por Michael Goi chegam a ser irresponsáveis. Não apenas por colocar o aviso de baseado numa história real só para chamar atenção, mas por tratar com banalidade questões muito sérias. Por exemplo, tem um momento em que a personagem Megan relata a sua primeira experiência sexual como se fosse uma história engraçada, quando na verdade foi um abuso.
Detalhe que as duas personagens têm 13 anos, e na época em que o filme foi rodado, uma atriz tinha 14 anos e a outra 17 anos e se envolvem em cenas de teor sexual. Tudo bem, uma dublê pode ter sido usada na cena da atriz de 14 anos…mas na de 17, a mais pesada, sem chance!
O longa também utiliza de alívio cômico através da simulação de caso num daqueles programas sensacionalistas com atores. Algo feito propositalmente de maneira propositalmente tosca, quando o caso é de uma gravidade extrema.
Por sinal, algo que deixa bem claro que a história não tem nada de real é que as interpretações são bem forçadas. Se Rachel Quinn, que vive a Megan, não compromete tanto, a real protagonista, Amber Parkins, que vive a melhor amiga Amy, é muito apática. E não é por causa da personagem, pois ela nem sabe gritar de maneira convincente.
O longa é tão chocante assim a ponto de tanta gente estar espantada? Claro que para quem não é acostumado a ver longas de terror sem tantos efeitos especiais, que tentam chocar pela crueza, pode sim causar um susto. Mas até o tal susto é premeditado pelo diretor, que é quando anuncia na tela que será mostrada uma foto nunca revelada antes. É forte,mas até para quem viu os muitos “Jogos Mortais” da vida, o que aparece é fichinha.
Quando a história se propõe a exibir pouco mais de 20 minutos “na íntegra”, o terror deixa de ser subjetivo ganha vida, com fotografia escura, câmera passeando, planos fechados captando expressões, dá pra dizer que o diretor constrói bem o clima de tensão. Ainda assim, a sequência mais desesperadora para quem assiste, o seu teor mais pesado está mais no seu conceito, que sempre será grotesco, do que pela cena em si.
É interessante analisar como um produto que, apesar de apelativo na sua proposta, não tem nada de saltar os olhos, nem para o bem e nem para o mau, tenha ganhado destaque em pleno 2020. Talvez seja um sinal de que esse ano de pandemia esteja tão louco a ponto de o Tik Tok desenterrar um longa que, no máximo, agrada pelo bem conduzido terceiro ato.
Nota: 4,0
Confira a crítica em vídeo no canal do YouTube: