Crítica: “The Mandalorian” devolve a esperança aos fãs de “Star Wars”

A segunda temporada de “The Mandalorian” tem causado um grande alvoroço entre os fãs da franquia “Star Wars”, algo que não se via há muito tempo. A série foi lançada pela plataforma de streaming Disney+, que no Brasil chegou apenas em dezembro de 2021, então, muita gente viu a primeira temporada e até a segunda por meios “alternativos”. E se a primeira teve uma boa aprovação, a segunda tem sido ainda maior.

A trama acompanha um caçador de recompensas (vivido por Pedro Pascal) que embarca numa jornada pelos territórios esquecidos da galáxia logo após a queda do Império e antes da criação da Primeira Ordem. Após os acontecimentos da primeira temporada, o mandaloriano precisa mobilizar aliados para encarar inimigos numa tumultuada era pós o colapso do Império Galáctico.

A real é que desde que a Lucasfilm foi comprada pela Disney, “Star Wars” tem passado longe de ser uma unanimidade de opinião nos cinemas. “O Despertar da Força” e “Os Últimos Jedi” seguiram caminhos criativos completamente opostos, até culminar no fraquíssimo “A Ascensão Skywalker”, que só tentava reparar a qualquer custo a aprovação dos fãs mais vibradores, por assim dizer.

Com essa saturação, a empresa do Mickey deixou um pouco os longas para o cinema em stand by e optou por investir nas produções para o streaming, sem tanta pressão e com liberdade para experimentar. E se terminamos 2020 com nada menos que 10 séries deste universo anunciadas no último Disney Investors Day, muito disso é pela boa receptividade de “The Mandalorian”, a primeira e única, até então, desta leva.

E o principal mérito desta série é prezar pela simplicidade que consagrou “Star Wars” lá no final dos anos 70. É uma aventura de fantasia, abordando um mundo até então pouco explorado que é o dos caçadores de recompensa, que não tenta ser maior do que é.

E é preciso dar os devidos créditos a Jon Favreau, ninguém menos que o diretor de dos dois primeiros “Homem de Ferro”, um dos principais responsáveis pelo sucesso do universo compartilhado Marvel, que é o idealizador do projeto. Créditos também para o Dave Filoni, responsável pelas animações “Clone Wars” e “Rebels”, que apresentou personagens e elementos que são aproveitados em “The Mandalorian”. Ele, que assume a produção e direção de alguns episódios, é sem dúvidas um dos grandes nomes desta renovação.

Relembrando a primeira temporada, ela é uma espécie de apêndice daquele núcleo principal que conhecemos nos cinemas, com acontecimentos pouco depois de “O Retorno de Jedi”. São diálogos curtos e diretos, muitos tiroteios com androides de visual interessantes que funcionam muito bem como alívio cômico, um protagonista que na verdade é um anti-herói que sequer mostra o rosto e uma pegada no melhor estilo faroeste.

Em meio a muitos cenários desérticos e alienígenas em roupas de borracha, um elemento foi essencial para a série se tornar um viral: o Baby Yoda, uma espécie de versão criança misteriosa do Mestre Yoda. Narrativamente falando, ele não passa de um McGuffin, uma expressão aplicada a algo que não tem função prática alguma para a história, mas todos os personagens vão atrás dele. Mas ele é muito fofo e, por isso, vende demais!

Tendo essa premissa, a segunda temporada teve um caminho fácil de ser desenvolvido, pois a base da história é apenas o Mando (ou Din-Djarín) levar o Baby Yoda de um ponto A para o ponto B, permitindo que cada episódio seja com uma ação diferente, uma missão aleatória do protagonista.

É de impressionar a qualidade da produção, pois os episódios botam no chinelo a maioria dos longas de ficção que são lançados nas telas grandes. O primeiro episódio, que conta com a excelente participação de Timothy Olyphant, tem cenas de ação envolvendo um monstro gigante que seria um prazer imenso se fosse assistida numa sala de Imax.

Essa estrutura também abre margem para inserção de personagens que existiam naquele universo, mesmo que de passagem, mas como o grande império capitalista que é a Disney, eles vão voltar a aparecer futuramente de outras formas. Uma delas é a jedi Ahsoka Tano, apresentada lá na animação “Clone Wars”, que aqui ganha vida de maneira incrível através da Rosario Dawson. Sua série solo, inclusive, já foi anunciada.

A guerreira Bo-Katan, outra personagem constante da animação, ganha vida pela Katee Sackhoff, ela que é conhecida por “Battlestar Gallactica”, e tem uma participação que funciona como auxílio para a ação, mas não é aleatória, pois deve ser peça essencial para a próxima temporada.

E finalmente tivemos o Boba Fett ganhando o destaque que muita gente esperava. Se antes ele era só um vilão com um visual estiloso, aqui ele ganha ótimas cenas de ação no sexto episódio, dirigido pelo Robert Rodriguez, de “A Balada do Pistoleiro”, “Um Drink no Inferno”, entre outros. Detalhe que ele é novamente vivido pelo neozelandês Temuera Morrison, que viveu o pai dele, Jango Fett, na trilogia de origem lá que o George Lucas idealizou.

E neste episódio também vemos pela primeira vez os Dark Troopers, capangas robôs muito mais poderosos, que certamente abrem margem para mais cenas de ação interessantes.

Uma pena que nem tudo que foi introduzido foi louvável. O vilão Moff Gideon, o portador do sabre negro, vivido pelo ótimo Giancarlo Esposito, aqui aparece um tanto deslocado e serve mais como aquele peça expositiva que explica tudo. No excelente episódio final, isso acontece de maneira bem exagerada. Isso tudo tira o peso do ator, que aqui parece estar no piloto automático.

O sétimo episódio, que é aparentemente o mais fraco da temporada, é talvez o que tenha o roteiro mais elaborado no intuito de imprimir uma visão política e ainda inverte percepções ao assumir o lado da minoria, pois passamos a ficar do lado dos Stormtroopers. No fim das contas, eles são humanos, sejam clones ou não.

Os cinéfilos de plantão ainda ganham uma cereja no bolo ao perceberem ali referência a “O Comboio do Medo”, de 1978, clássico dirigido por William Friedkin. E ainda tem o Bill Burr, humorista extremamente carismático e, até mesmo por isso, acertaram ao trazê-lo de volta, não como um vilão tradicional.

Finalmente, o tão aclamado season finale, intitulado “O Resgate”. Os realizadores, que de estúpidos não têm nada, têm consciência de que se tratava mais do que o resgate do Baby Yoda das mãos vilão. Era um resgate de antigos personagens e da paixão dos fãs pela saga.

Antes até do clímax, o episódio tem uma série de ingredientes que funcionam, como a reunião de mandalorianos em ação, piada com a quantidade de estrelas da morte que já foram construídas, e embate corporais do Mando com os já citados robôs e também com o vilão principal.

Mas faltava aquele ápice e ele foi construído de maneira muito cirúrgica pelo Peyton Reed, diretor dos dois “Homem Formiga” dos cinemas e também comandou nesta temporada aquele divertido episódio em que o Baby Yoda come os ovos que são o que restam da espécie daquela passageira. Ele sabe alimentar a expectativa por etapas até que, enfim, os fãs ganham um presente ao final e temos um desfecho muito emocionante.

“The Mandalorian” trouxe uma mistura do novo com o velho fazendo nascer algo que instiga a curiosidade sobre como vai ser o futuro. Podemos ter muita história sobre a posse do tão místico sabre negro. Mas sempre vai pairar na cabeça dos fãs a pergunta: onde está o Baby Yoda? E indo mais além. Qual explicação vai ser dada para tantos elementos apresentados já que sabemos os destinos de muitos personagens e a maioria deles não agradou? A verdade é que só de ver os fãs felizes com uma série que tem uma proposta minimalista, prova que o espírito de “Star Wars” está, sim, bem vivo.

Nota: 9,0

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