Crítica: “Tenet” tem mais ambição do que conteúdo

Por algum tempo, “Tenet” (idem, 2020), ambicioso longa dirigido por Christopher Nolan, foi tido como o responsável pela retomada dos cinemas em tempos de pandemia. Acontece que, por motivos óbvios, a bilheteria vem passando bem longe do esperado. O projeto custou cerca de 200 milhões de dólares e faturou pouco mais de 360 milhões ao redor do mundo. Se pagou, é uma boa quantia, mas bem abaixo para quem esperava ultrapassar a barreira do bilhão.

Convenhamos, nem todo mundo está disposto a corre o risco de ser contaminado por um vírus falta para assistir a um filme. E certamente esta experiência foi crucial para Warner Bros. optar por lançar as principais estreias de 2021 simultaneamente nas salas de cinemas e na plataforma de streaming HBO Max. Essa introdução serve para mostrar um pouco do ego do criador, que bateu o pé para que o seu filme fosse lançado nas salas de cinema…no meio de uma pandemia!

Na trama, um agente da CIA conhecido apenas como O Protagonista (John David Washington), é recrutado por uma organização misteriosa, chamada Tenet, para participar de uma missão de escala global. Eles precisam impedir que Andrei Sator (Kenneth Branagh), um renegado oligarca russo com meios de se comunicar com o futuro, inicie a Terceira Guerra Mundial.

Nolan ganhou fãs desde quando fazia ótimos filmes independentes, como “Amnésia”, de 2000. Mas seu status foi elevado a outro patamar ao ressuscitar Batman nos cinemas com uma boa trilogia, com destaque para a obra prima “O Cavaleiro das Trevas”, de 2008. Desde então, seus filmes passaram a ser eventos. “A Origem”, de 2010 , e “Interestelar”, de 2014, ainda hoje são bem aclamados, apesar de dividirem opiniões.

Tendo o ego inflado pelo próprio hype, não é de surpreende que a megalomania do diretor se reflita em seus novos projetos. Em “Tenet”, tudo é grandioso demais e metido a intelectual, quando na verdade não passa de um pipocão de ação. Muito bem feito, diga-se de passagem.

Resumindo de uma maneira bem bruta, “Tenet” é mais longa de espionagem nos moldes de 007, porém, com o aditivo do fator viagem no tempo. Mas diferente de outros longas com essa temática, neste ele trabalha a inversão do tempo, com objetos e os próprios corpos se movendo de forma contrária. É uma premissa bem interessante e o diretor sabe tocar a sua obra instigando o espectador apreciar a beleza do que está na tela.

De fato ele estabelece um ar de produções sobre agente secreto, com fotografias explorando a beleza de diferentes países, passeios de lancha, um protagonista sedutor que está sempre flertando com a esposa lindíssima do vilão cruel.

John David Washington, filho do Denzel Washington que fez o ótimo “Infiltrado na Klan”, mostra que podemos ter um bom James Bond negro, pois ele mistura bem o charme com ironia que o personagem exige. Do lado dele, o Robert Pattinson entrega mais uma atuação bem eficiente, mesclando o seu carisma com um mistério que é essencial para a trama.

Elizabeth Debicki faz um trabalho correto como a mulher que fica no centro do jogo, enquanto o Kenneth Branagh entrega mais um vilão ruim por ser ruim, cheio de caras e bocas, pra lá de estereotipado. Bem menos por culpa do ator, pois esta pareceu mesmo ser a condução do próprio diretor.

As cenas de ação são realmente impressionantes. Como é de costume do diretor, ele utiliza o mínimo de efeitos especiais para priorizar os efeitos práticos. Neste caso, ele explode um avião gigante sem medo e visualmente é bem interessante.

Utilizando o conceito de reversão no tempo, não deixa de ser inovador ver sequências em que muitos elementos estão se mexendo de trás para frente. Imagina-se o trabalho que foi para fazer aquilo, com coreografias milimetricamente calculadas. Há lutas dentro deste conceito, salto de bungee-jump, perseguição em rodovias com veículos chamativos e até o clímax que se assemelha a um longa, de fato, de guerra, mas com elementos invertidos. O trabalho do diretor de fotografia, Hoyte Van Hoytma, que trabalhou com o diretor em “Interestelar” e “Dunkirk”, é realmente digno de palmas.

Acontece que fica a impressão que o diretor tenta todo custo tornar a trama complicada, inserindo muitos conceitos que ficam soltos, quando na verdade o grosso da história não é tão difícil de entender. Para quem viu o seriado “Dark”, da Netflix, não é novidade o conceito de não alterar os acontecimento através de viagem no tempo e a criação de nós temporais.

Sabemos que o Nolan tem uma afinidade com a temática tempo. Em “Amnésia”, o longa se passa de trás para frente. Em “A Origem”, ele cria um labirinto na cabeça de quem assiste. Então, fica a impressão que ele tenta a todos os custos misturar todos esses conceitos em “Tenet”.

Mas sabemos que, como roteirista, Nolan nunca foi dos melhores em criar diálogos, principalmente sem a contribuição irmão dele, Jonathan Nolan. Há personagens que só servem para explicar tudo o que acontece. Ele não tem vergonha de incluir diálogos para lá de expositivos. Em meio a muitas frases de efeito diálogos rasteiros, é natural que não seja criada nenhuma afinidade pelos personagens, apesar do nítido esforço do John David Washington e do Robert Pattinson.

E acaba sendo um tiro no pé quando ele tenta tornar o próprio produto complexo demais, mas inclui recados através de um personagem secundário como “não tente entender, apenas sinta”. Ou quando o próprio Miles, vivido pelo Robert Pattinson, tenta explicar a falta de sentido de um paradoxo e termina a própria fala com “tente dormir”. Claro, é mais uma mensagem para o espectador abstrair os possíveis erros.

Outro aspecto relevante do diretor é a sua obsessão pelo som. Se por um lado os impactos nas cenas de ação são sentidas, ele parece sentir a necessidade de incluir trilha sonora quase o tempo todo, muitas vezes sobrepondo até os diálogos. Desta vez ele não contou com a contribuição de Hans Zimmer e quem comandou a trilha foi Ludwig Göransson, de “Pantera Negra”, da série “The Mandalorian”. Com muitos sintetizadores e algumas guitarras pesadas, as composições servem para atenuar o clima de tensão, mas algumas vezes soa apenas na tentativa de aplicar o estilo, em efeito prático.

Tenet” é mais um filme de Christopher Nolan mostrando que ele pode fazer algo incrível. Mas ele volta a apresentar vícios como o de “Insterestelar”, em que ao mesmo tempo tenta complicar demais e explicar em demasia o que acontece…além de uma buzina constante no ouvido. O talento dele é inegável e está cena. Mas como todo mundo que chega no topo, fica mais fácil de balançar.

Nota: 7,0

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