Crítica: “Mulher Maravilha 1984” escorrega num roteiro rasteiro

“Mulher Maravilha 1984” (Wonder Woman 1984, 2020) veio para fechar um ano bem carente de superproduções. A continuação do longa de 2017 estava prevista para estrear em junho, mas que por conta da pandemia, passou por alguns adiamentos, até que a Warner Bros. tomou a decisão de lançar simultaneamente em dezembro nos cinemas e na plataforma de streaming HBO Max.

Podemos dizer que foi uma adequação aos novos tempos e, pelo visto, os executivos até estão satisfeitos, pois foi divulgado que o número de acessos da HBO Max, que sequer chegou ainda no Brasil, triplicou em relação a um dia comum. Em relação ao público e crítica, a recepção tem sido variada.

Na trama, Diana Prince (Gal Gadot) luta em segredo contra o crime como a Mulher-Maravilha enquanto trabalha num museu nos anos 80 e tenta superar a perda do amado Steve Trevor (Chris Pine). Após encontrar uma possível pedra mística capaz de realizar desejos, ela precisa lidar com a ascensão de dois novos vilões.

O primeiro “Mulher Maravilha” veio numa época que as produções da DC Comics para os cinemas vinham cambaleando com as opiniões do público e foi muito bem recebido, tanto nas bilheterias como pela crítica. Não era um longa perfeito, tinha defeitos, principalmente no terceiro ato, mas se mostrou uma aventura bem eficiente situada Primeira Guerra Mundial. Mais do que isso, foi muito importante pela representatividade, pois foi o primeiro blockbuster de super herói desta nova era protagonizado por uma mulher e, também, dirigido por uma mulher.

Sendo assim, a diretora Patty Jenkins e a atriz Gal Gadot voltam com moral para esta continuação, com maior liberdade para seguirem um caminho próprio, sem a urgência de voltar a misturar a personagem com os outros heróis da DC. De fato, “Mulher Maravilha 1984” abandona toda a seriedade e aquela fotografia escura do universo da DC, marcas do diretor e produtor Zack Snyder, que ainda pairava no anterior. Agora, Jenkins abraça sem medo a luz, as cores vivas. Tudo é muito colorido, inclusive no uniforme da heroína.

Logo na primeira cena após os créditos iniciais, naquela ação num shopping center, dá para perceber que a diretora tenta resgatar a aura dos quadrinhos e de produções dos anos 80, como “Superman – O Filme”, de 1978. Tem empurrões em crianças sorrindo e piscadinhas pra câmera, o que não é defeito nenhum dentro desta proposta.

Apesar de não ter nenhuma cena de ação tão memorável como a tomada das trincheiras do filme de 2017, as sequências são bem eficientes, principalmente a perseguição numa rodovia. Vemos a personagem fazer outras manobras como utilizar a tiara como uma arma e girar o laço para bloquear balas naquela cena do salão.

Além de distribuir muitos easter eggs que os fãs vão curtir ficar identificando, a diretora garante algumas cenas visualmente muito bonitas como a vista de cima do avião de um céu cheio de fogos de artifício.

No meio de tudo isso, a trilha sonora do Hans Zimmer joga seguro, com um ritmo que embala bem a aventura, mas não traz nenhuma novidade memorável, tanto que a própria trilha brinca muitas vezes com o reaparecimento da música tema da heroína, ouvida pela primeira vez lá em “Batman Vs Superman”, e aqui volta em versões remodeladas.

Mas não tem como negar a fragilidade do roteiro da própria Patty Jenkins e de Geoff Johns, que ainda é um cara bem influente lá na DC Comics. Para o corte final terminar com duas horas e meia de duração numa trama geral que é pra lá de simples, está na cara que houve muito choque de ideias e, no fim das contas, incluíram o máximo de material possível para não desagradar a ninguém.

A história de uma pedra que realiza os desejos mais íntimos já é naturalmente boba e a trama ainda tem que desenvolver a criação de dois antagonistas, o que outros longas do gênero já mostraram ser algo arriscado.

Há decisões um tanto questionáveis, começando pelo retorno do Steve Trevor. Dentro da lógica do roteiro, faz sentido. Ele é a pessoa que ela amava. E inverte posições quando, desta vez, é ele que está diante de mundo desconhecido. Mas tentando não entrar nos spoilers, o fato de tal retorno envolver um outro corpo não conhecido, a decisão do roteiro acaba sendo não apenas desnecessária como entram questões bem questionáveis do ponto de vista ético.

O próprio fato da trama se passar nos anos 80 e ter 1984 no título tem pouco efeito prático, além do clima despretensioso da produção. Se por um lado contribui para os figurinos propositalmente bregas e coloridos, o longa recorre a piadas bem previsíveis como alguém experimentando roupas que não têm nada de estilosas para os dias de hoje.

E é no mínimo estranho que diante de tantos acontecimentos, conflitos parecem terminar sem conclusão e o destino de personagens que tiveram muitas transformações simplesmente não é mostrado. Não é final em aberto, a impressão é que eles foram esquecidos mesmo.

O lado bom é que o trabalho dos atores segura a onda na maior parte do tempo, mesmo com a notória superficialidade. Gal Gadot passa longe de ser uma excelente atriz, as frases de efeito que a ela são atribuídas não ajudam, mas ela volta a mostrar uma forte presença e carisma reafirmam que ela foi uma ótima escolha para o papel.

Chris Pine é bem carismático e a química dele com Gadot, um dos principais pontos fortes do primeiro filme, volta em partes. Não é a mesma coisa de quando eles estavam se conhecendo. Mas ele faz o melhor dele dentro das limitações do roteiro.

Kristen Wiig mostra que é uma atriz de muitas nuances numa personagem que parece bem clichê, algo como o Charada do Jim Carrey de “Batman Eternamente” e o Electro de Jamie Foxx em “O Espetacular Homem Aranha 2”, alguém introvertida que inveja alguém que ela toma como referência. A atriz se sai bem, seja como alguém bem tímida como alguém que está cheia de confiança e é até lamentável que não tenham aproveitado mais o potencial talento dela. A “versão final” dela, justamente por ser a menos interessante, ganhou menos tempo em tela. Quem sabe é algo que possa ser consertado posteriormente.

Mas o melhor do elenco, de longe, é Pedro Pascal. O seu Maxwell Lord, um empresário trambiqueiro e cheio de propaganda de si próprio é claramente uma paródia ao Donald Trump. Mas o ator sabe ser caricato, cheio de exageros propositais, mas ao mesmo tempo imprime humanidade ali. Por mais que suas ambições sejam repugnantes, é possível criar simpatia por ele, graças ao trabalho de Pascal.

Ao final, o longa tem uma mensagem bem positiva sobre abrir mão das maiores ambições em nome de um bem coletivo. Obviamente num mundo real tão carente de empatia isso não aconteceria, principalmente diante de tantas notícias agonizantes que vemos diariamente no meio de uma pandemia. Mas o cinema também tem a função de trazer esperança, mesmo que de uma maneira bagunçada como foi feita. E temos que lembrar que esse tipo de resolução é bem condizente com o perfil da Mulher Maravilha nos quadrinhos há mais de 80 anos.

“Mulher Maravilha 1984” funciona como um entretenimento passageiro e chegou num momento bem apropriado, ainda que os defeitos do roteiro sejam impossíveis de serem ignorados. É inferior ao primeiro, mas se encaixa bem nesta nova leva de filmes da DC Comics que querem apenas fazer algo divertido dentro do próprio círculo e sem maiores pretensões de universo compartilhado, como foi feito em “Aquaman”, “Shazam!” e “Aves de Rapina”.

Nota: 6,0

Confira a crítica em vídeo no canal do YouTube:

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