
Um projeto de época, com Paul Greengras na direção e com Tom Hanks para puxar a audiência, a cara é toda de temporada de premiações. De fato, “Relatos do Mundo” (News of the World, 2020) se trata do principal produto da Universal Pictures para tentar ganhar algumas estatuetas. Mas afinal, podemos dizer que é um dos melhores filmes dessa tão caótica temporada? Nem tanto.
Na trama, no ano de 1870, o Capitão Jefferson Kyle Kidd (Hanks) é um veterano de guerra que viaja pelo Texas lendo notícias de jornais para as pessoas. Ele acaba encarregado da missão de levar uma menina de 10 anos, criada pela grupo Kiowa, até seus familiares.
Já tem alguns anos que o diretor Paul Greengras tem um certo respaldo na indústria cinematográfica desde o excelente “Domingo Sangrento” (2002) e explodiu ao assumir a franquia Bourne, em que dirigiu os ótimos “A Supremacia Bourne” (2004) e “O Ultimato Bourne” (2007). De lá pra cá, comandou alguns bons filmes, como “Voo United 93” (2006), “Zona Verde” (2010), “Capitão Phillips” (2013), “22 de Julho” (2018) e até “Jason Bourne” (2016), uma tentativa nem tão bem sucedida de reviver a franquia estrelada por Matt Damon.
Mas fica a impressão de que ele ficou pelo caminho como um nome que poderia ser hoje bem mais cultuado. Este novo “Relatos do Mundo” é mais um exemplo cheio de boas intenções, tem muito potencial, mas é bem provável que daqui um ano poucos lembrem dele.
A história é baseada no livro escrito por Paulete Jiles, com roteiro do próprio Greengrass ao lado de Luke Davies (do bom “Lion: Uma Jornada Para Casa”, 2016). E a adaptação segue todos os ares de longas de faroeste, incluindo eficientes cenas de ação, como um tiroteio envolvendo escalada em montanhas e munições improvisada. O design de produção e figurinos resgata os principais elementos do gênero western, além de fotografias em cenários bem bonitos de se ver.
Às vezes fica a impressão que as noções de espaço e tempo não são bem trabalhadas por Greengrass. Em um momento o protagonista está fazendo as suas leituras e logo depois ele está no meio de um penhasco onde uma multidão passa pelo outro lado. Algo semelhante acontece quando surge uma tempestade de areia e muitos personagens indígenas desaparecem de maneira tão repentina como eles aparecem.
Há alusões sobre os respingos da guerra que ainda paira nas pessoas. O instinto de violência contra qualquer um que seja diferente dos valores que você acredita é forte. Mas esse ódio com os semelhantes que têm descendências ou práticas que fujam do tradicional, algo que poderia ter um paralelo com os dias atuais, é abordado de maneira apenas superficial.
Inclusive percebe-se que a profissão do personagem principal, que é a de levar informação para pessoas que não têm acesso às mesmas, é colocada como algo fundamental. O roteiro até flerta com a possibilidade de fake news a partir de interesses políticos motivados pela violência. Teria uma força bem maior se fosse maia explorado, mas são apenas cenas pontuais.
O aprofundamento da relação do protagonista com a menina indígena é interessante de se acompanhar. Mas no geral, tudo é bem previsível. No fim das contas, a narrativa foca no personagem de Hanks, abraçando um dos melhores atores de todos os tempos que entrega aqui mais um trabalho irretocável. Ele transmite todo o peso de um veterano que carrega uma grande amargura por motivos que inevitavelmente são revelados. Mas acima de tudo, ele transmite bondade. Claro, tem lá aquele momento que é quase impossível não se emocionar junto com ele.
Além dele, a garota Helena Zengel, de apenas 12 anos, surge mostra uma excelente revelação. A jovem mostra muita segurança como alguém que não só fala um idioma pouco compreendido, como carrega a insegurança de quem não sabe o que vai ser o seu futuro. Se por um lado ela faz uma boa parceria com o personagem do Hanks, ela parece nunca criar expectativa de nada, algo que faz sentido pelo histórico de vida dela.
No fim das contas, o longa traz mensagens bonitas de que mesmo no meio de tanto pessimismo, existem pessoas realmente boas, com empatia, prezando pela vida. Além de lições de que para você seguir em frente, você precisa olhar para tudo que já viveu.
É clichê, mas funciona dentro da proposta do longa que fica sempre no limiar para entregar uma aventura busca comover quem assiste. Não arrisca ousar, mas não deve desagradar o grande público.
Nota: 7,0