
“Destruição Final: O Último Refúgio” (Greenland, 2020), filme de ação catástrofe que estreou em alguns cinemas no final de 2020 após muitos adiamentos, traz aquela fórmula de fim do mundo e mais o ator Gerard Butler, que certamente tem um público certo. Mas além desse nicho, a produção, lançada no Brasil pela plataforma de streaming Amazon Prime Video, curiosamente tem recebido críticas positivas.
E eis que temos um exemplar que não exige quase nada do cérebro de quem assiste e, para quem for assiste sem expectativa alguma, até que pode surpreender e garantir um bom entretenimento.
Na trama, uma família luta para sobreviver enquanto um cometa segue em direção à Terra. Eles enfrentarão o pior da humanidade em um momento de crescimento do pânico à procura de um local seguro para.
O projeto inicial seria comandado por Neill Blomkamp, de filmes muito eficientes como “Distrito 9” (2009) e “Elysium” (2013). Mas ele acabou pulando fora e abriu espaço para o ex-dublê Ric Roman Waugh. Foi uma escolha menos ambiciosa, mas segura para os produtores, pois ele tem experiência com o gênero ação e vinha de uma dobradinha com o ator Gerard Butler em “Invasão ao Serviço Secreto” (2019), terceiro longa de uma franquia igualmente improvável que têm trazido retorno.
E ele segue a cartilha sem muita margem para erro, focando na correria das pessoas para sobreviver, deixando em segundo plano os efeitos especiais, também como forma de camuflar o orçamento apenas razoável de 35 milhões de dólares, bem abaixo de muitas superproduções equivalentes.
Lembra bastante “Impacto Profundo”, longa de 1998 que acabou sendo ofuscado por “Arnageddon”, do mesmo ano e com a mesma temática, mas que tinha muito mais recursos comercias. As relações entre as pessoas buscando a sobrevivência, umas passando por cima das outras, é o principal mote, mas com um ritmo bem ágil, até mais do que “Impacto…”, que priorizava mais no drama.
Em alguns momento a direção consegue transmitir a sensação de agonia, ao mostrar uma aglomeração num avião sem conforto algum, ou logo nos momentos iniciais quando uma mãe pede para que levem a filha dela para que ela possa viver.
E o longa acaba ganhando um valor extra por causa da pandemia do coronavírus, algo completamente involuntária pois ele foi produzido antes dela. Ver aquele início em que as pessoas conferem as notícias pela TV e nem imaginam que o perigo pode chegar até ela, quando o alerta chega de uma hora para outra, é fácil de se identificar.
Quando se trata de vida em jogo, é possível criar uma identificação com o cenário atual do mundo, em que a preocupação com pessoas com doenças crônicas e idosos necessita ser redobrada. E a narrativa tem uma quebra justamente quando entra o personagem do veterano Scott Glenn, de longe o melhor ator do elenco, mesmo numa participação tão curta. Entra um arco mais dramático que funciona e tem talvez um peso maior do que todo o resto do filme.
Mas há de ressaltar que o roteiro de Chris Sparling, do recente “Por Um Corredor Escuro” (2018), é rasteiro ao extremo. Há sugestões de uma crise no canal principal por algo que o protagonista cometeu mas que pouco importa, poderia nem existir. Qualquer conflito ali acaba atropelado pela correria.
Por mais que o longa tenha a intenção se mostrar o que há de pior do ser humano, tudo é extremamente previsível. Quando surge uma certa situação, você sabe que o estranho vai tentar tirar proveito. Ao mesmo tempo, há também uma mensagem positiva sobre pessoas realmente dispostas a ajudar, que não de maneira aleatória, dá vez a latino americanos e uma mulher militar para fazer uma desconstrução.
No papel principal, o Gerard Butler, que passa longe de mostrar um grande talento, se reafirma como um nome forte do gênero ação. Ele, que explodiu lá em “300” (2006), atuou em muitas comédias românticas e alguns longas policiais, parece ter encontrado a zona de conforto, pois ele tem presença e o mínimo de carisma para levar uma produção do tipo nas costas.
Morena Baccarin, brasileira radicada nos Estados Unidos, também está bem correta, se esforça para entregar o papel de uma mulher preocupada com a própria família.
Em geral, “Destruição Final: O Último Refúgio” (que tradução terrível!) é um longa que não ofende. Poderia ter arestas aparadas, reduzindo a duração de duas horas. Mas não tem como negar que é uma daquelas besteiras que quase todo ser humano precisa para para se desligar das preocupações. Se todos cumprissem suas propostas como esse, talvez o mundo tivesse mais diversão.
Nota: 6,0