
“WandaVision”, a primeira série do universo cinematográfico da Marvel produzida para a plataforma de streaming Disney+. Por se tratar do primeiro projeto lançado após o fim da segunda fase da Marvel nos cinemas, existia muitas expectativa sobre as novidades que poderiam ser apresentadas para os próximos rumos desta saga que há mais de uma década tem sido uma fábrica de dinheiro.
De cara, a série mostra uma pitada de ousadia que aquele universo estava precisando e, como os fãs e os teóricos de internet não descansam, surgiram milhares de teorias, nem todas confirmadas.
Na trama, após os eventos de “Vingadores: Guerra Infinita” e “Vingadores: Ultimato”, Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) se esforçam para levar uma vida normal no subúrbio e esconder seus poderes. Mas a dupla de super-heróis logo começa a suspeitar que nem tudo está tão certo assim e começam a questionar tudo o que acontece ao redor.
Não é novidade para ninguém que a Marvel descobriu uma fórmula para os seus longas-metragens, uma espécie de padrão mesclando cenas de ação grandiosas, piadinhas constantes e muitas referências ao próprio universo. Então, “WandaVision” surpreende por quebrar, em partes, esta fórmula.
Ao fazer uma espécie de homenagem às séries de comédias que marcaram as últimas décadas, é normal causar uma estranheza inicial nos espectadores. São muitas sitcoms que são referenciadas, com um formato bem definido de uma década diferente por episódio. Temos os anos 50 com “The Dick Van Dyke Show” e “I Love Lucy”, os anos 60 com “A Feiticeira”, anos 80 com “The Brady Bunch”, os anos 80 com “Três É Demais”, anos 90 com “Malcom in the Middle” e até “The Office” dos anos 2000.
Desde a brincadeira com os créditos iniciais, imagem em preto e branco, piadas batidas sobre estilo de vida dos americanos do subúrbio, os figurinos e penteados de época, aquelas olhadas para a câmera que remetem à The Office, é divertido de se ver. O orçamento de US$ 25 milhões de dólares por episódio pode ser visto em cada detalhe.
Ao mesmo tempo, é normal que os primeiros episódios soem entediantes para muita gente, pois as explicações sobre o que realmente está acontecendo vão surgindo gradualmente e os espectadores vão descobrindo junto com os personagens.
Mas a grande carta na manga é que a famosa “Fórmula Marvel” está lá o tempo todo. Mesmo que ela pareça escondida, a narrativa vai ganhando o formato mais tradicional com o decorrer dos episódios até culminar num clímax grandioso. O episódio final tem momentos realmente emocionantes, de muita delicadeza, enquanto aspectos já esperados como lutas cheias de efeitos especiais também marcam presença.
A intenção da criadora Jac Schaeffer, responsável pelo roteiro do ainda inédito longa da “Viúva Negra” é muito bem definida: brincar com a metalinguagem, deixar algumas referências no meio do caminho, mas, o principal foco, é desenvolver e fechar o arco da protagonista Wanda Maximoff, algo que acontece de maneira muito eficiente.
E Matt Shakman, que dirige todos os nove episódios e traz na bagagem episódios de séries como “Game of Thrones”, “Billions”, “The Boys” e “Succession”, comanda muito bem essas transições, por mais que as mudanças bruscas de tons e ritmos entre os capítulos sejam inevitáveis.
Wanda Maximoff era uma personagem muito pouco aproveitada nos longas da Marvel e agora ganha o peso que ela merece. Os fãs finalmente podem ter ideia tanto da história dela como da dimensão do poder da Feiticeira Escarlate. Seria ela a vilã?
Já o Visão, para quem não lembra, ele morre em “Vingadores: Guerra Infinita”, então, fica um tanto óbvio para quem assiste que tem algo de errado com aquele que estamos vendo na série.
E não demora para perceber que a vertente principal da série é o luto e as suas diversas fases, a forma como um “super” encara a perda de alguém que ama. E eis que a carga dramática da série acaba sendo o ponto forte, algo que não é tão comum naquele universo. O histórico de perdas não apenas da Wanda, mas também de outra personagem inédita, servem bem para fundamentar todos os acontecimentos.
Impossível não destacar a excelente atuação de Elizabeth Olsen, que imprime muitas nuances no papel principal. Ela capta todo aquele estereótipo ultrapassado da mulher feliz e dona de casa. Ao mesmo tempo, é impressionante como ela muda de expressão e até de sotaque quando se vê ameaçada. Ela imprime a vontade de quem não abre mão de lutar pelo o que ela ama, e quando ela precisa mostrar o drama, ela entrega com louvor.
O Paul Bettany também está excelente pois ele tem a chance de trazer algo além daquela já conhecida serenidade do Visão. Aqui ele também traz a sensação de incômodo constante de quem está desconfiando de tudo o tempo todo, mas também mostra muito da veia cômica, como no primeiro episódio em que o personagem parece estar bêbado.
Kathryn Hahn e Teyonah Parris vivem personagens que qualquer coisa pode entrar na zona de spoilers. Mas elas abraçam bem as caricaturas iniciais que a elas é aplicada, mas se desdobram com segurança nas reviravoltas nem tão surpreendentes, mas que são funcionais.
Existem, sim, conexões com os outros filmes daquele universo, principalmente com as continuações de “Capitã Marvel” e “Doutor Estranho”, mas passam longe de ser o foco principal. Tanto que há o retorno de dois personagens bem do terceiro escalão, que muitos sequer lembravam deles, casos do policial Jimmy Woo (vivido por Randall Wallace), e a cientista Darcy Lewis (vivida por Kat Dennings). Mas eles têm funções essenciais para fazerem as perguntas do público “Por que sitcom? O Visão não morreu?” e serem pontes para as resoluções.
As duas cenas pós-créditos do capítulo final dão dicas do que está por vir, mas não tem nada de explodir mentes. Muitos esperavam que a série poderia abrir as portas para os “X-Men” e o “Quarteto Fantástico” e os realizadores brincam com esta expectativa através de um certo personagem. Na verdade, eles são até bem sádicos com os fãs. É quase como se eles dessem doce na mão de uma criança e depois tiram. Eles preferem perder a audiência do que perder a piada.
Mas claro que os roteiristas de fóruns da internet não descansam, criam um milhão de teorias e ficam revoltados caso elas não se concretizem. Tinha gente vendo o Mefisto em todos os lugares e até quem nunca ouviu falar no vilão já estava reclamando pela demora dele aparecer!
Especular é sempre divertido e, quando acertamos, fica a sensação de um gol marcado que merece ser comemorado. Mas acho que não devemos nos prender a isso. Mas se avaliarmos algo pelo o que foi entregue e não apenas do que você gostaria de ver, talvez o gosto final seja bem mais agradável.
Deixando de lado esse monte de tiros no escuro, “WandaVison” desperdiça parte do seu tempo com alguns episódios que pouco andam com trama principal, como da festa de Halloween, e aquele que é um grande flashback que acaba sendo bem expositivo e desnecessário em partes.
Mas é preciso reconhecer que se trata de uma série que consegue mexer bem com a curiosidade, resgata os principais elementos que tornaram os longas da Marvel quase um subgênero dos cinemas e, principalmente, desenvolve um arco muito rico de uma protagonista bem complexa.
Nota: 8,0