
A existência de “Liga da Justiça do Zack Snyder” (Zack Snyder’s Justice League), popularmente conhecido como “SnyderCut”, era muito improvável. Mas é real e, só por isso, podemos considerar um marco histórico pela mobilização dos fãs.
Mas será que o Zack Snyder é quase um Deus a ponto de fazer milagre mesmo? Claro que não. É um filme completamente novo e melhor do que aquele de 2017? Com certeza.
Na trama, após a morte do Superman, Bruce Wayne convoca Diana Prince para combater um inimigo ainda maior, recém-despertado. Juntos, eles recrutam um time de meta-humanos, que inclui Aquaman, Ciborgue e Flash, para evitar que as três caixas maternas sejam reunidas, e assim, evitar um catastrófico fim do planeta Terra.
Fazendo um breve resumo: a relação do diretor Zack Snyder com a Warner Bros. já não estava das melhores após a recepção bem abaixo do esperado de “Batman Vs Superman: A Origem da Justiça” (2016). A trágica morte da sua filha foi o estopim para que ele abandonasse as gravações de “Liga da Justiça”, que já estavam bem encaminhadas.
Então, o diretor Joss Whedon (de “Os Vingadores”, 2012; “Vingadores: Era de Ultron”, 2015) foi chamado para concluir o projeto, refez boa parte do que o Snyder tinha feito e, na tentativa de deixar um filme que agradasse o público em geral (leia-se, aproximar da fórmula certeira da rival Marvel), o resultado foi aquele Frankenstein genérico que chegou aos cinemas 2017.
Os fãs fizeram uma campanha massiva a internet para que a versão Snyder, que ninguém tinha certeza se existia mesmo, fosse lançada. E deu certo! A Warner deu o sinal verde e um incremento de cerca de 70 milhões de dólares para que o diretor finalizasse o seu longa, fizesse filmagens complementares, e uma versão de nada menos que quatro horas seria lançada na plataforma de streaming HBO Max.
A história pode até ser a mesma do longa de 2017. Mas se antes tínhamos algo pasteurizado e sem aprofundamento algum, desta vez temos uma narrativa coesa, com identidade própria. Afinal, amem ou odeiam, não tem como negar que o Snyder sempre faz algo autoral.
E este “Liga da Justiça” é o puro suco do milho do Zack Snyder! Tem todos os traços que o cineasta tanto adora. Muitas coisas funcionam, algumas não. Tem muita câmera lenta (muita mesmo!), cores dessaturadas, músicas épicas e cenas de ação grandiosas com muitos elementos em cena.
A ideia de lançar no formato 4:3, a tela reduzida que se assemelha a um quadrinho ou de monitor de TV das antigas, até poderia funcionar numa tela de cinema Imax, mas acaba sendo apenas uma escolha gratuita, para parecer estiloso, mas sem efeito prático para quem assiste.
Muitas passagens em nada acrescentam à trama, como a cantoria no píer após uma despedida do Aquaman, a cena de apresentação do The Flash em que ele salva a Iris West, além de muitas batalhas que são estendidas até onde convém ele. Convenhamos, em quatro horas, ele inseriu o máximo de material que estava ao seu alcance.
A trilha sonora não é nada discreta e tem um certo canto lírico que ecoa toda vez que a Mulher Maravilha aparece soa não apenas repetitiva, mas brega.
Aquele tom pessimista, marcado pela fotografia escura, tão característico do diretor, está presente e até entende-se o temor do estúdio em liberar essa visão para os cinemas. Tem uma dose de violência diferenciada para os longas do gênero, com direito espancamento, mutilações e empalamento de um certo personagem, além dos palavrões.
Ainda assim, essa pegada é condizente com a proposta do roteiro original de Chris Terrio. Desta vez, o realizador imprime a sua visão que aproxima os super heróis dos deuses do passado. E ao mesmo tempo, humaniza eles colocando as figuras paternas como essenciais para as motivações de todos eles.
A possível atração entre o Bruce Wayne e a Diana Prince e aquela família de russos que é salva na batalha final, subtramas bem deslocadas, acertadamente foram retiradas. A batalha com as guerreiras de Themyscira e o flashback do embate entre as raças (com direito até a participação de um Lanterna Verde), por mais que não complementem a história, ganham ares épicos bonitos de se ver. E o mais importante: são cenas de ação em que é fácil compreender o que acontece.
Apesar do uso do slow-motion claramente exagerado, elas tornam algumas sequências bem mais interessantes, principalmente da Mulher-Maravilha, vivida no modo automático por Gal Gadot, naquela sequência estendida do assalto ao banco e nos duelos com o Lobo da Estepe e o Superman. Agora temos mais noção do quão poderosa ela é.
O desenvolvimento de cada personagem agora é bem mais convincente. O que mais ganhou espaço, de longe, é o Ciborgue, vivido pelo promissor Ray Fischer. Ele é praticamente o coração do filme, pois acompanhamos muito mais do seu drama por ter perdido, literalmente a vida e transformado numa máquina, e a relação dele com o pai, vivido por Joe Morton, move grande parte dos acontecimentos.
Um dos pontos fracos mais sentidos da versão anterior, o vilão Lobo da Estepe, que tem a voz de Ciarán Hinds, está infinitamente mais interessante, seja em visual ou por motivações. Aquela armadura metálica ganha explicação não apenas por estilo, mas na ação. Agora ao colocá-lo como um subalterno que apenas quer pagar uma dívida e se ver livre, é possível criar empatia diante da mediocridade dele, mesmo sendo alguém tão imponente fisicamente.
O Barry Allen, vivido pelo carismático Ezra Miller, continua como o alívio cômico, o jovem deslumbrado com a possibilidade de ter amigos, mas ele não é mais aquele bobão, uma metralhadora de piadas. Inclusive ele ganha uma importância no clímax que rende uma das melhores cenas desta versão. E felizmente tiraram aquela piada completamente desnecessária dele caindo por cima da Mulher Maravilha.
O Batman, vivido por um desmotivado Ben Affleck, continua sendo o protagonista, com mais espaço dele tentando reunir o grupo e também com boas interações com o Alfred, vivido pelo veterano Jeremy Irons. Felizmente vamos mais dele em ação com embates corporais ou pilotando a nave e o Batmóvel. Há um plano do carro englobando toda a equipe que sem dúvidas é uma das imagens emblemáticas do longa.
O Aquaman, vivido pelo Jason Momoa, ainda é o menos aproveitado. Mas pelo menos vemos mais da sua negação em ser um rei de Atlantis por causa das participações maiores da Mera, vivida por Amber Heard, e agora do Vulko, vivido por Willem Dafoe.
O Superman, vivido por Henry Cavill, continua com pouco tempo em cena, mas temos maior noção do seu peso no mundo já na cena de abertura no grito que ecoa pelo mundo. A aparição dele no clímax acontece de maneira bem mais orgânica e nada caricata, diferente do longa de 2017. E agora não tem aquela remoção digital horrível do bigode!
Muitos comentavam sobre a aparição do Darkseid. Ele não impressiona, mas se trata daquela ameaça maior que era necessária para os longas da DC Comics naquele momento. Acertadamente ele é inserido não apenas em flashbacks, mas também em paralelo à narrativa principal. Aparece bem mais do que muitos imaginavam!
Há um epílogo com a participação do Coringa, interpretado pelo Jared Leto, que aqui está melhor do que no horrendo “Esquadrão Suicida” (2016), mas ainda se mostra muito limitado no papel. Tal cena é totalmente avulsa à história que acompanhamos, mas ela complementa aquele sonho que parecia tão deslocado em “Batman Vs Superman” e traz dicas para uma possível continuação que provavelmente nunca vamos ver.
“A Liga da Justiça de Zack Snyder” é um longa cheio de excessos e exibicionismos, mas um produto bem honesto com a visão de da história que o realizador realmente queria contar, sem tanta interferência do estúdio. É cheio de momentos que impressionam e personagens que, se antes não eram interessantes, agora pelos menos podem conquistar a simpatia dos fãs.
Nota: 8,0