
“Freaky – No Corpo do Assassino” (Freaky, 2020) é uma “comédia de terror” que aparentemente não traz nada de novo, mas recebeu muitas críticas positivas. É normal causar uma certa preguiça para assistir pelo argumento sem tanta criatividade, mas, quando o projeto faz bem feito tudo que ele propõe, ele pode garantir um entretenimento de qualidade. E felizmente, este é o caso.
Na trama, quando um punhal místico faz com que Millie (Kathryn Newton) e um serial killer (Vince Vaughn) troquem de corpos, a jovem descobre que possui apenas 24 horas para ter seu corpo de volta antes que a troca se torne permanente e ela fique presa na forma de um maníaco de meia-idade para sempre.
A temática troca de corpos é batida ao extremo e já foi explorada inúmeras vezes pelo cinema. Alguns exemplos mais conhecidos são “Sexta-Feira Muito Louca”, de 2003, e o nacional “E Se Eu Fosse Você”, de 2006, que rendeu uma continuação em 2009. A premissa de “Freaky” é exatamente a mesma!
A direção é de Christopher Landon, que já havia feito para a Blumhouse os divertidos “A Morte Te Dá Os Parabéns 1 e 2”, de 2017 e 2019. E assim como nos projetos anteriores, em “Freaky” ele coloca a comédia em primeiro plano, deixando o terror como ferramenta secundária.
O diretor e roteirista tenta arrancar risos com os velhos clichês, como os personagens agindo de maneira que não condizem com seus corpos, ou flertes que soam estranheza ou tentando convencer os amigos que é quem diz ser, além da temática bullying que ganha reversão. Nem sempre soa engraçado, mas não incomoda pois o espectador fica sempre à espera para algo surgir. O que é esse algo? Justamente o terror!
O longa é uma clara homenagem ao gênero slasher, de assassinos quase imortais que matam todos pelo caminho sem piedade, como Jason de “Sexta-Feira 13” e Michael Myers de “Halloween”. É não faltam referências, como o uso de uma máscara de hockey parecida com a do Jason, uma serra elétrica, que obviamente remete ao Leatherface de “O Massacre da Serra Elétrica”, e até um gancho do assassino de “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado”. A própria postura do vilão vivido por Vince Vaughn com uma faca lembra muito o Myers de “Halloween”.
Vale lembrar que esses detalhes estão lá, os fãs certamente vão identificar, mas eles são inseridos de maneira discreta, sem atropelar a história para enfiar easter-eggs de qualquer jeito. E o diretor sabe brincar com tais referências, como nos créditos em que aparecem “Quarta-Feira 11”, depois “Quinta-feira 12”, obviamente para instigar a expectativa para a chegada da Sexta-feira 13. Outro exemplo é numa tentativa de metalinguagem quando um personagem desesperado fala: “Você é negra, eu sou gay, nós vamos ser os primeiros a morrer”.
Quando entra no quesito gore, as mortes para valer, o longa não deixa em nada a desejar outros títulos do gênero. São cenas bem criativas, não poupam sangue, e podem até impressionar aquelas que não são acostumados com terror.
Muito da eficiência do longa recai no carisma dos protagonistas, principalmente Vince Vaughn. Ele, que já é acostumado a comédia mas anda meio sumido, capta os trejeitos de quando encarna uma adolescente no corpo de um homem de quase dois metros de altura. Quando vive um assassino calculista, assume aquela postura dura, sem precisar falar quase nada, quase imbatível, de quem pode levar qualquer coisa que continua a andar para frente e assinalar mais uma vítima.
A protagonista Kathryn Newton, vinda de séries como “The Society” e “Big Little Lies”, cumpre o papel da moça retraída pois ainda alimenta um drama interno, que de repente vira uma espécie de femme fatale, da cara sempre fechada e que sabe jogar de acordo com a situação.
Do restante do elenco, um monte de adolescentes que cumprem estereótipos propositalmente ali estabelecidos, com destaque para Misha Osherovich, como o amigo homossexual, pois ele consegue colocar o timing cômico em prática.
Quem também tem boas atuação é Katie Finneran, uma mãe que até tem boas intenções, mas não consegue dar a atenção que gostaria pois o trauma recente ainda está muito forte nela.
“Freaky – No Corpo do Assassino” é aquele exemplar que ninguém espera nada, mas para quem curte um pouco tanto de comédia como de terror, deve apreciar as peças que são bem colocadas em seus devidos lugares. Num período escasso de estreias, acaba se tornando um ótima opção para escapar da realidade com violência bem cartunesca. Não duvidem se uma continuação pintar por aí.
Nota: 7,0