
Depois de “WandaVision”, que tanto mexeu com a internet com milhares de teorias, a série “Falcão e o Soldado Invernal” (The Falcon and the Winter Soldier, 2021), a segunda do universo da Marvel lançada pela plataforma de streaming Disney+, parece não ter causado tanta repercussão, apesar da audiência positiva. No fim das contas, ela é encabeçada por dois coadjuvantes que não tiveram tanto destaque nos cinemas e tem a responsabilidade de tocar legado de ninguém menos que o Capitão América.
Na trama, Sam Wilson (Anthony Mackie), luta para assumir o posto de Capitão América. Ele se junta, então, a Bucky Barnes (Sebastian Stan), numa jornada que envolve soldados com habilidades desenvolvidas.
Um dos grande méritos de “WandaVision” foi tentar fugir da já conhecida “Fórmula Marvel”, apelando para a metalinguagem e homenagem a sitcoms das últimas décadas. Como ficava a dúvida sobre o que realmente estaria acontecendo, instigava bem a curiosidade dos espectadores sobre o que viria a aparecer nos episódios seguintes. Não é bem o caso de “Falcão e o Soldado Invernal”, que segue mais a estrutura tradicional daquele universo. Por isso, para quem estava embalado em criar teorias, pode ter se decepcionado um pouco.
A proposta é interessante, pois como não se trata de um filme, há tempo para desenvolver melhor o arco dramático dos personagens. É prazeroso conhecer a relação do Sam Wilson com a sua família, além do desafio do Bucky Barnes em seguir em frente e superar os anos em que foi usado como um assassino pela Hydra.
Existe uma preocupação em mostrar que as cenas de ação não deixam em nada a desejar em relação às produções feitas para o cinema. A demorada perseguição aérea no episódio inicial, trazendo o retorno de um personagem vivido pelo ex-lutador do UFC, Georges St-Pierre, mostra que os realizadores não estão para brincadeira.
Desta vez podemos ver muito mais habilidades do Falcão em combate. E convence, por mais que os efeitos especiais das asas soem às vezes artificiais de maneira inevitável. Também existe ali uma pegada de filmes de “buddy cop”, tipo “Máquina Mortífera” e “Bad Boys”, com uma dupla improvável em que um é bem ranzinza o outro é mais extrovertido.
Mas se tratando de uma série, esta talvez tivesse um efeito melhor se todos os episódios fossem lançados de uma vez, como a Netflix costuma fazer. Como são poucos episódios, apenas seis de cerca de 40 a 50 minutos cada, fica a impressão que todas essas vertentes são trabalhadas de maneira apressada e com muitas conveniências no roteiro.
Apesar de todos os capítulos serem dirigidos pela mesma diretora, Kari Scogland, que dirigiu episódios de “The Walking Dead”, ” O Justiceiro” e “O Conto da Aia”, os ritmos da narrativa são bem distintos entre si e os possíveis defeitos acabam ficando mais explícitos tendo um intervalo de uma semana para refletir entre um e outro.
Fica a sensação de inconstância de ritmo entre os episódios. O primeiro, em que os protagonistas sequer se encontram, tem só aquela cara de apresentação. Já o segundo dá um gostinho bem melhor, reunindo um pouco de tudo que eles querem trabalhar. Há um momento lá pela metade da série envolvendo o escudo que tem uma boa dose de violência que faltava aquele universo. E faz todo sentido dentro daquele contexto caótico!
O quinto episódio e o melhor de todos é carregado de drama e funciona de maneira perfeita para o arco do personagem Sam Wilson. O diálogo dele com o personagem Isaiah (vivido de maneira muito tocante pelo Carl Lumbly) é de uma profundidade e importância ímpar para todo o desenrolar. E tem até uma sequência de treinamento no estilo Rocky Balboa, com montagem dinâmica, que consegue empolgar.
Até que o episódio final, que é rodeado de expectativas, conta com sequências de batalha apenas razoáveis, nada que já não tenha sido visto, com coreografias convincentes que remetem ao estilo de luta do Capitão América.
O espírito do personagem está lá o tempo inteiro, do primeiro ao último segundo. E como o Sam foi escolhido pelo Steve Rogers lá no final de “Vingadores: Ultimato” (Avengers Endgame, 2019) como o herdeiro do escudo, fazia sentido trabalhar a sua transformação. E o peso de ter um homem negro como um herói que veste as cores da bandeira dos Estados Unidos com certeza traz um tom político bem necessário para os dias atuais.
Por mais camuflada que esteja a ideia no meio daquele tom comercial da Marvel, claramente existe uma crítica ali à visão separatista dos EUA, tão forte durante a gestão do presidente Donald Trump. E isso recai nos negros desde período da Primeira Guerra Mundial até atualmente, com os imigrantes que são representados pelos “vilões” de superdotados. Afinal, quem é vilão mesmo no meio disso tudo?
E eis que no tal season final a tal mensagem que o projeto quer transmitir é feita de maneira extremamente expositiva. Por mais importante que seja o recado, chega a ser piegas a forma como foi feito. É onde lembramos que se trata da Disney e precisamos desenhar de maneira didática para alcançar todas as idades.
Anthony Mackie está convincente no papel principal, transmitindo bem aquela transição de uma constante dúvida para a confiança. Ele passa a ideia de ser uma boa pessoa, claro, com suas imperfeições.
Já Sebastian Stan, como Bucky Barnes, parece um pouco estar no modo automático. O personagem já teve muito tempo em tela e, agora que ele ganha a chance de ganhar outras camadas, o ator parece se limitar a usar aquela expressão de perdido.
O elenco de apoio conta com nomes que já deram as caras antes mas não tiveram grande destaque, como Daniel Brühl como o Barão Zemo. Se em “Capitão América: Guerra Civil” (Captain America: Civil War, 2016) o personagem estava completamente descaracterizado em relação à versão dos quadrinhos, aqui encontraram um meio termo interessante. O personagem segue com uma pegada misteriosa e acredito que ele ter sido afastado num certo ponto desta série não foi de maneira aleatória, pois o estúdio deve estar reservando algo maior para ele.
Temos também o retorno de Emily VanCamp, como Sharon Carter. Ela tem pouco a mostrar além de imprimir frieza, mas é outra personagem que deve ter maior espaço num futuro breve, ainda que os rumos encontrados para ela sejam bastante questionáveis.
Mas o grande destaque é Wyatt Russell, o filho do casal Kurl Russell e Goldie Hawn, como o John Walker, o possível novo Capitão América. Ele alterna a arrogância com a insegurança com muita precisão e a fisionomia dele ajuda a vê-lo como um vilão por parte do espectador algo que funcionou muito bem.
“Falcão e o Soldado Invernal” é uma série que desenvolve bem personagens que talvez no cinema não tivessem tal chance. Peca um pouco pela irregularidade e o interesse pode ser prejudicado pela expectativa após as ousadias que deram tão certo em “WandaVision”. Ainda assim, entrega o que propõe dentro daquela fórmula já tão bem sucedida e ainda traz uma representatividade essencial para os dias em que vivemos.
Nota: 7,0