Crítica: “Os Novos Mutantes” é uma tragédia anunciada

“Os Novos Mutantes” (The New Mutants, 2020), definitivamente, é o filme mais zoado da franquia “X-Men”. Após inúmeros adiamentos, foi lançados nos cinemas no auge de uma pandemia e vem sendo duramente recebido pela crítica mundial.

Para quem não lembra, a primeira versão deste longa estava pronta deste 2017, quando a 20th Century Fox sequer havia sido comprada pela Disney. Os produtores não estavam nada satisfeitos com o projeto, que foi submetido a uma série de refilmagens e a situação ficou ainda mais difícil com compra pela empresa do Mickey, que não demonstrava interesse algum em fazer com que o longa fosse lançado. Era um tanto óbvio que o resultado não seria animador!

Na trama, cinco jovens mutantes descobrem o alcance de seus poderes e lidam com traumas do passado. No entanto, eles são mantidos presos contra a vontade em uma instituição controlada pela Dra. Cecilia Reyes (Alice Braga). Enquanto a médica promete controlar as habilidades do grupo, situações estranhas passam a acontecer no local.

O projeto foi anunciado como o primeiro filme de terror dos “X-Men”, algo bem válido à primeira vista no sentido de trazer alguma inovação a uma franquia já tão remexida.

O problema é que o estúdio precisa de algo essencial: vender! Então, um longa feito para um nicho específico e com censura para maiores de 18 anos não teria tanto apelo comercial. Sendo assim, boa parte das refilmagens tiveram o intuito de aproximar o projeto de um “filme de super heróis” tradicional.

Apesar da impressão constante de estar diante de algo completamente remendado, um verdadeiro Frankenstein, ainda é menos doloroso do que foi aquele “Quarteto Fantástico” dirigido por Josh Trank em 2015. A narrativa em geral é até coesa, com a exceção daquele terceiro ato em que se entrega de vez a ação, claramente com a intenção de agradar à massa e o público mais jovem.

A direção de Josh Boone (de “A Culpa é das Estrelas”) acerta ao priorizar um tom mais intimista, priorizando os diálogos entre os personagens, através de planos bem fechados e aquela fotografia escura dando uma pegada mais sombria. Tem até um ar de produções adolescentes dos anos 80, como “O Clube dos Cinco”, apesar da falta de química entre os envolvidos.

Os pouco personagens são interessantes e, de certa forma, são desenvolvidos através de visões ou explicações rápidas. Eles tinham potencial para dar certo! Inclusive, é louvável a inclusão de um romance homossexual num longa do gênero. Não é de maneira disfarçada ou apenas com falas. Acontece de maneira aberta, o que mostra que existia ousadia do projeto.

As intervenções do “terror” acabam sendo através de alucinações individuais envolvendo os maiores traumas de cada um, algo bem parecido com o que o palhaço Pennywise de “It-A Coisa”, fazia. Em nenhum momento chega a dar susto, tampouco provoca medo.

Mas os defeitos de “Os Novos Mutantes” são sentidos por todo o processo de produção. Para começar, o roteiro do próprio diretor ao lado de Knata Lee joga algumas peças de maneira aleatória. Como a mansão daquele tamanho é administrada por apenas uma pessoa, a personagem da Alice Braga, e por que só existem cinco pessoas morando ali?

Tudo bem que falam sempre sobre um tal superior, com referências ao Professor Xavier e o Nathaniel Essex, alter ego do Senhor Sinistro, mas tudo fica muito solto.

A falta de afinidade de Josh Boone com o gênero terror é notória. Fica a impressão de estarmos diante de algo genérico, sempre no limite para não subir a censura, buscando talvez se fixar no público do seriado “Stranger Things”. Lembram do horror infantojuvenil do seriado “Goosebumps”? É mais ou menos nessa linha.

O uso de computação gráfica tira muito a credibilidade das pseudo assombrações, que poderiam funcionar nas mãos de uma equipe que entende do assunto. Por exemplo, há monstros com visual que parece o Slender Man que poderia ser assustador se fosse feito com maquiagem e efeitos práticos. Mas sendo inteiramente por efeitos especiais, fica só tosco mesmo.

Mas é muito possível que o estúdio sequer teve interesse em tocar esses detalhes com cautela, mesmo com um orçamento razoável de US$ 80 milhões de dólares. A pós produção foi visivelmente feita com má vontade para entregar logo o filme de qualquer jeito. Isso é visível nos já citados efeitos especiais que são bem rasteiros, inferior ao de muitas produções dos anos 90, tendo como ápice um monstro gigante que parece um desenho animado.

Por consequência, o problemático clímax, que é quando os jovens colocam seus poderes em ação, certamente uma exigência do estúdio, é desastroso. Nada funciona. O que é uma pena, pois os personagens Magia e o Mancha Solar têm poderes bem estilosos e poderiam garantir cenas eficientes se feitas de maneira competentes.

Se a trilha sonora dos longa dos “X-Men” virou marca registrada desde a música tema dos créditos de abertura, neste, a trilha não é nada memorável. Na verdade, a impressão é que fizeram qualquer coisa só para não ficar um silêncio absoluto.

O elenco é cheio de escolhas acertadas por serem nomes conhecidos de outros projetos contemporâneos. Mas na execução, só alguns se saíram bem. Maisie Williams, a Arya de “Game of Thrones”, convence como uma jovem de bom coração mas que se sente deslocada, cheia das inseguranças que ela nem sempre revela. Charlie Heaton, de “Stranger Things”, está bem como um rapaz humilde e de sotaque caipira, condizente com a sua origem. Ele foge bem dos clichês de heroísmo.

Anya Taylor-Joy, que é uma das melhores atrizes da nova geração e no vídeo anterior destaque a sua excelente performance na minissérie “O Gambito da Rainha”, aqui está um tanto perdida, se rendendo aos exageros para encarnar uma moça rebelde, personagem que na verdade é racista. A indefinição do roteiro quanto à sua personagem, Illyana Rasputin, que age como uma vilã e tem um pouco de femme fatale, mas ao mesmo tempo tem a inocência de não largar um fantoche de estimação e tem muito medo dos seus próprios sonhos, não ajudou na composição da atriz.

Os pontos fracos, sem dúvida, são o brasileiro Henry Zaga, nome artístico de Henrique Gonzaga, que vive o riquinho Roberto da Costa e participou da série “13 Reasons Why”, e Blu Hunt, da série “The Originals”, que vive a Dani, a protagonista do longa e responsável pelo andar de toda a trama. Eles não têm um pingo de carisma e sentir qualquer coisa por eles vira uma missão ingrata.

Nome mais experiente do casting, a brasileira Alice Braga se esforça para trazer um mistério para a Dra. Reyes, em que por trás de todo o ar fraternal, fica claro que ela esconde segredos. Mas a atriz não faz milagre, pois a personagem não ganha desenvolvimento algum.

“Os Novos Mutantes” é aquele caso que já chega com o carimbo de fracasso por todo o histórico de problemas. Mas não chega a ser tão ofensivo de ruim como andam dizendo. Há muita coisa bem pior que é lançada aos montes, tanto no cinema como nas plataformas de streaming.

Se pensar bem, o resultado final poderia ser um bom piloto de série de TV e teria sido muito beneficiado se tivesse sido lançado direto pela Disney+. A expectativa baixa também pode contribuir para uma apreciação moderada, levando em conta que este é até superior aos dois longas anteriores dos X-Men, os fraquíssimos “Apocalipse” e “A Saga de Fênix”.

No fim das contas, é uma ideia interessante, pensada fora da caixinha do que vemos com tantos filmes de super heróis, com personagens que tinham potencial para ganharem uma própria franquia, mas tudo esbarrou na condução atrapalhada e nos diferentes interesses de muita gente.

Nota: 5,0

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