
“Mortal Kombat”, nova adaptação para os cinemas da famosa franquia de games de luta lançada lá no início dos anos 90, já chega afetada pela pandemia, sendo lançada lançada simultaneamente em alguns cinemas pelo mundo e na HBO Max. As opiniões, definitivamente, não são das melhores.
Na trama, o Imperador da Exoterra, Shang Tsung, envia seu melhor guerreiro, Sub-Zero, para assassinar o o lutador de MMA Cole Young. Temendo pela segurança de sua família, o atleta resolve confiar nos agentes das Forças Especiais, Sonya Blade e Jax, e eles partem em busca do templo do Lorde Raiden para serem treinados para um torneio ao lado dos maiores campeões da Terra.
É inevitável não falar da adaptação de “Mortal Kombat” para os cinemas de 1995, dirigida por Paul W. Anderson. Sabemos bem que a prática de adaptar games para as o cinemas nunca rendeu bons produtos, mas aquele longa é um ponto fora da curva, ocupando um lugar de respeito na memória afetiva dos fãs.
A verdade é que aquele filme tem, sim, muitos defeitos, principalmente nas atuações e efeitos especiais, que não envelheceram nada bem. Ainda assim, era cheio de referências aos games que funcionaram bem na época. Quem curtia jogar, certamente se divertiu assistindo.
A ideia de um reboot claramente não era das mais seguras e, não à toa, a Warner Bros. resolveu apostar num investimento apenas mediano para uma produção do estilo, cerca de U$S 50 milhões, e num elenco e equipe de produção quase todos de desconhecidos.
O resultado não é dos piores. Acontece que o cinema se renova numa rapidez que muitos não percebem e as fórmulas têm prazo de validade. Algo que pode ter funcionado lá nos 90 não necessariamente vai funcionar agora. Trazer referências ao produto original, suprimindo um roteiro péssimo não garante uma aceitação massiva.
O longa está repleto de fan-services e quem curte a franquia com certeza vai abrir aquele sorriso de canto de rosto ao identificar alguns fatalities, poderes de certos personagens. Os realizadores fazem questão de distribuir essas lembranças, o que é algo bem positivo para a proposta.
Ao mesmo tempo, o fã mais calejado, que já não é mais pré-adolescente, deve achar desnecessário quando um personagem grita o que acabou de acontecer, como “flawless victory” ou “fatality”, tirando qualquer naturalidade que poderia existir.
O diretor estreante Simon McQuoid até conduz cenas de lutas com boas coreografias, intercaladas com os poderes que garantem o entretenimento. E desta vez, não pouparam sangue, justificante uma censura mais alta.
Mas ele não deixa tais lutas fluírem pois são interrompidas com muitos cortes. Não é nada que impeça o entendimento do que está acontecendo, mas se o principal chamariz do projeto são as cenas de luta, espera-se apreciar tais combates como um diferencial e não algo que já vemos em tantas produções genéricas.
E principalmente, não existe um torneio Mortal Kombat num filme sobre Mortal Kombat! Os vilões apenas querem vencer por W.O. (?!). O diretor até argumentou que a ideia do torneio iria engessar a narrativa. Faz sentido, mas não colocaram nada de criativo ou interessante para substituir. A impressão é que eles realmente guardaram ficha para uma possível continuação.
E temos que ressaltar, a música tema, que se trata de uma versão remasterizada daquela que tanto funcionou no longa de 1995, transformaram em algo completamente esquecível.
A melhor cena é logo a de abertura, mostrando um ponto crucial da rivalidade entre o Sub Zero e o Scorpion, que não à toa o estúdio liberou na internet antes do lançamento. Eles sabiam que era a melhor carta deles para instigar a curiosidade. Temos ali boas coreografias de luta, a dose de violência que todo fã de Mortal Kombat espera ver, dois bons atores em tela, Joe Taslim, como o então Bi-Han, e o experiente Hiroyuki Sanada, como o então Hanzo, além daquele atrativo visual do Japão feudal.
Mas no geral, o roteiro do estreante Greg Russo e de Dave Callaham (responsável pelo roteiro bem fraco de “Mulher Maravilha 1984“), foca em grande parte no desenvolvimento do protagonista Cole Young, vivido por Lewis Tan, que não ajuda a atrair o interesse.
Entende-se a ideia dos produtores de trazer alguém completamente novo para se colocar no papel do espectador, alguém lidando com com um mundo todo novo que carece de explicação. Mas é inevitável imaginar que com um acervo tão grande de personagens nos jogos, poderiam simplesmente aproveitar alguém. Ao invés, disso lidamos com um lutador de MMA fracassado pra lá de genérico e o poder dele lembra mais “Power Rangers”.
O roteiro perde muito tempo tentando explicar a origem dos poderes de alguns ali, narrativas que simplesmente não são interessantes. O segundo ato, o do treinamento, é arrastado a ponto de ficar enfadonho. Apenas não empolga ver a evolução do braço metálico do Jax, vivido pelo Mehcad Brooks. Há cena bem vergonhosas envolvendo isso! Da mesma forma, a persistência da Sonya Blade, vivida pela Jessica McNamee, em conseguir a tal marca do Mortal Kombat parece gratuita, quando o desfecho já sabemos como vai ser.
Eis que o Kano, um personagem bem desvalorizado dos games, ganha camadas aqui pelo ator Josh Lawson que acaba roubando a cena, por incrível que pareça. Ele traz toda a canastrice que se encaixa bem ali. É o cara que questiona quando, do nada, aparece alguém soltando uma bola de fogo ou qualquer coisa sobrenatural. E ainda traz piadas com referências a cultura pop, sendo um bom alívio cômico.
O Liu Kang, de protagonista dos jogos, vira um coadjuvante qualquer aqui. O ator Ludi Lin até se esforça para trazer a serenidade necessária para um mestre das artes marciais, mas o personagem em si só tem de interessante os golpes e poderes que todos conhecem mesmo. Ainda inventaram que ele é primo do Kung Lao, vivido pelo Max Huang, que tem um visual até estiloso, até consegue render boas cenas com a sua personalidade debochada, mas também fica pelo caminho.
Os dois polares do bem e do mal, o Rayden, vivido pelo Tadanobu Asanu, e o Shang Tsung, vivido pelo Chin Han, são tão descartáveis que bate saudade das suas versões pelo Christopher Lambert (sim, por mais ridículo que ele estivesse ali, tinha o atrativo de ser o eterno Highlander), e do Cary Hiroyuki Tagawa, aquele sim era um vilão ameaçador.
Pra piorar, o time de vilões apela pra personagens muito pouco atrativos, como o Reiko e a Nitara. Um dos melhores é o Kabal, mais pelo visual do que qualquer outra coisa.
No fim das contas, a rivalidade entre os ninjas do gelo e do fogo ainda é o principal chamariz e garante as melhores sequencias, incluindo um momento “Deus Ex-Machina” no final que traz de volta a empolgação para quem estava entediado.
É pouco. Fica a impressão de que tinham muitas ideias, mas colocaram em prática só algumas poucas, confiando a longevidade dessa nova franquia. Se resolverem investir e dar carta branca para os realizadores fazerem algo digno desses jogos violentos que duram por tantos anos, pode dar certo nas continuações. Mas analisando só por esse, peca até nas lutas e o “Mortal Kombat” de 1995 ainda é uma diversão mais garantida.
Nota: 5,0