Crítica: “A Mulher Na Janela” brinca de ser Hitchcock e entrega só o básico

“A Mulher Na Janela” (The Woman in the Window, 2021), adaptação do best-seller escrito por A.J Finn, era um projeto que, ao mesmo tempo em que era bastante esperado, também era cercado de dúvidas. E após o lançamento, segue dividindo opiniões.

Vale lembrar que o longa seria inicialmente distribuído pela 20th Century Fox nos cinemas, mas as primeiras recepções em exibição para o público não foram nada positivas. Algumas refilmagens precisaram ser feitas e a Disney, que agora é detentora da Fox, acabou vendendo o filme para a Netflix. E toda essa instabilidade pode ser conferida em tela.

Na trama, Anna Fox (Amy Adams) é uma mulher que sofre de agorafobia e passa os dias reclusa em seu apartamento em Nova York. Quando a família Russell se muda para o prédio da frente, ela passa a espionar o que seria uma vida perfeita, até testemunhar uma cena chocante.

Antes de tudo, é inevitável comparar o livro com o produto audiovisual. Enquanto a obra de A.J. se aprofunda muito nas descrições a fim de entrar na mente da protagonista, no filme, as coisas acontecem de maneira muito mais rápida. Trata-se de um longa fácil de ser assistido.

Se por um lado a obra ganha muito em ritmo, que se torna bem mais dinâmico, o roteiro de Tracy Letts (que tem pouca experiência como roteirista e bem mais como ator, ele inclusive, atua como o psiquiatra da Anna), trata questões importantes de maneira bem superficial. O espectador até sabe que a Anna tem o vício em remédios, que ela adora filmes, que ela passa os dias falando com desconhecidos pela internet, mas isso é mostrado apenas em cenas pontuais, mostrando ela quebrando remédios ou alguém pedindo DVDs emprestados.

Sendo assim, o diretor Joe Wright, que já comandou boas adaptações como “Orgulho e Preconceito”, “Desejo e Reparação” e o recente “O Destino de Uma Nação”, adota como ferramenta principal a estética das obras de Alfred Hitchcock, sendo “Janela Indiscreta” a influência mais óbvia, nada disfarçada.

É claro que chega ser um absurdo comparar com o clássico de 1954, mas há técnicas bem típicas do Hitchcock reproduzidas aqui que funcionam. Temos a montagem com Efeito Kuleshov, em que mostra a expressão da personagem observando algo, enquanto o plano seguinte exibe algo que muda nas transições, muitos travellings de câmera apresentando o ambiente, no caso, a residência da Anna.

À medida em que os acontecimentos estranhos acontecem, a narrativa até consegue prender a atenção do espectador, instigando aquelas interrogações sobre o que foi real ou tudo não passa de alucinação da cabeça da protagonista.

Ao mesmo tempo, fica a impressão que o diretor quis inserir muitas ideias, nem todas funcionais, e o resultado acaba sendo um grande salada com alguns ingredientes estranhos.

Há aquelas distorcidas de imagens para mostrar o ponto de vista da Anna sob o efeito de entorpecentes, grãos de neve que surgem do nada remetendo a memórias passadas. São escolhas que não são criativas, mas também não atrapalham.

Mas na tentativa de imergir na mente confusa dela, o cineasta insere devaneios que destoam do que estávamos vendo. Por exemplo, um certo elemento no quarto, que surge num momento chave, que mais parece ter saído da mente de Charlie Kaufman, aquele roteirista (muito bom, diga-se de passagem) de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”.

Joe Wright brinca até com gênero slasher, aqueles longas de assassino como “Sexta-Feira 13” e “Halloween”, gênero que ele não mostra bom domínio. E é justamente no terceiro ato que o longa culmina num conflito que cai no lugar comum, enquanto tudo vinha sendo construído de maneira subjetiva. Não deixa de ser decepcionante, ainda que o roteiro acerta ao tentar fugir dos maniqueísmos, no lado certo e errado.

O que garante boa parte do interesse no longa é a atuação bem eficiente de Amy Adams, aqui debaixo de uma maquiagem que a deixa com uma aparência bem apática, sem gosto pela vida. Como uma atriz com um talento dramático diferenciado, ela imprime ali o dilema de uma personagem que parece não saber o próprio lugar no mundo, que por mais que ela tente fazer o certo, ela não sabe se acredita nela própria.

O elenco está cheio de outros nomes conhecidos e quem também se destaca, apesar do curtíssimo tempo em cena, é Julianne Moore, que transparece a imagem de uma mulher alegre, cheia de vida, um contraponto à própria Anne. Talvez de maneira proposital, Jennifer Jason Leigh, que teoricamente interpreta a mesma personagem de Moore, está completamente engessada, desperdiçando ali uma atriz conhecida e muito competente.

Quem parece que está lá só para pagar boletos é ninguém menos que o Gary Oldman. É redundante falar do trabalho do fantástico ator, mas nesta produção ele está overacting, exagerado, parecendo estar presente com má vontade mesmo.

Também está no elenco o Wyatt Russell, que recentemente se destacou na série “Falcão e o Soldado Invernal”, e mais uma vez ele faz bonito como alguém que parece ser arrogante, talvez perigoso, mas no fundo é uma boa pessoa.

Há uma tentativa de emplacar o jovem Fred Hechinger, mas ele está a um passo de cair no caricato, culpa também nos rumos que o roteiro traz para ele. Há outras participações para emplacar o nome no pôster mas estão no piloto automático, como Anthony Mackie e Bryan Tyree Henry. No caso deste último, pelo menos existe o fator curiosidade por ser um comediante num papel sério.

No geral, “A Mulher Na Janela” troca a profundidade do livro que poderia soar monótona na adaptação para entregar um suspense básico que passa longe de ser um desastre. Consegue prender a atenção mas se perde em partes nas próprias pretensões. O resultado pode ser positivo a depender da expectativa criada.

Nota: 6,0

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