
“Army of Dead: Invasão em Las Vegas” (Army of the Dead, 2021), novo longa de Zack Snyder lançado pela Netflix, se trata do primeiro projeto do diretor após a saída dos filmes de super heróis da DC Comics, sendo também o primeiro totalmente autoral desde “Sucker Punch”, de 2011.
Ele retorna ao universo dos zumbis, já tão revirado tanto nos cinemas como na TV, lembrando que ele comandou o bom “Madrugada dos Mortos”, de 2004, remake de “Os Despertar dos Mortos”, clássico de 1978 dirigido por George A. Romero, o pai do gênero. O resultado não é tão difícil de prever: algo com mais ambição do que qualidade na prática.
Na trama, em um mundo pós-apocalíptico, um ex-herói de guerra é recrutado por um magnata dos cassinos com a proposta de invadir Las Vegas, rodeada de zumbis, para roubar 200 milhões de dólares de um cofre antes que a cidade seja bombardeada pelo governo. Ele então assume o desafio e monta uma equipe de especialistas para o grande roubo.
Aquela seriedade excessiva e tom sombrio que tanto foram criticadas em projetos como “O Homem de Aço” e “Batman Vs Superman”, por incrível que pareça, passam longe de “Army of the Dead”. O longa claramente não se leva à sério e, por isso, garante bons momentos com situações propositalmente absurdas. O lado cômico é bem forte.
Os primeiros minutos são o principal cartão de vista. A cena de abertura, em que logo somos apresentados à visão de zumbi forte e com raciocínio, traz uma injeção de otimismo. E o melhor vem logo em seguida: a montagem durante os créditos iniciais que faz um grande resumo de como tudo começou e poderia perfeitamente ser um curta-metragem.
Lembram da adaptação de “Watchmen” que Snyder dirigiu em 2009, em que os créditos servem para contextualizar a trama e são melhores do que todo o resto do filme? Pois é, a história se repete aqui.
Desta vez o diretor se mostra econômico em vícios recorrentes, como as câmeras lentas e fotografia escura. Aqui tudo visualmente é bem claro, a narrativa se passa a maior parte do tempo de dia. Mas a megalomania do Zack está toda lá!
Finalmente tendo em mãos um projeto para chamar de seu, sem tanta interferência do estúdio, dá para perceber que o rapaz quis inserir o máximo de ideias tinha em mente. São nada menos que duas horas e meia de duração que em nenhum momento são justificadas.
Ao mesmo tempo ele quer ser um filme de terror com zumbis, mas também um thriller meticuloso sobre assalto, um longa de ação com cenas de ação grandiosas, um drama sobre a relação de pais e filhos, mas não se resolve bem como nenhum desses subgêneros.
São muitos personagens, mas todos são extremamente superficiais. A função de cada um é explicada no início, por exemplo, tem o especialista em cofres, a piloto de helicóptero, o outro é um YouTuber que gosta de debochar de zumbis, e pronto. A narrativa demora muito tempo para introduzir tanta gente para enfim a trama do roubo entrar em cena e, ainda assim, não é suficiente para que o espectador se importe com ninguém.
O único que o roteiro tenta dar algum desenvolvimento é o protagonista, vivido pelo Dave Bautista, por causa da relação com filha, vivida por Ella Purnell. Mas no meio de um ritmo frenético do meio para o fim, a parte dramática simplesmente parece deslocada.
Se algo garante algum interesse pelos personagens é mesmo o carisma de alguns atores, como Omari Hardwick e Matthias Schweighöfer, mais pela química entre eles do que pelas piadinhas sem graça nenhuma.
Falando em carisma, a comediante Tig Notaro tem uma presença que engrandece o longa, mas fica estranho para quem sabe do contexto, que ela substituiu Chris D’Elia, acusado de assédio com menores de idade. Isso porque na maioria das cenas da Notaro, ou ela está sozinha ou foi inserida de maneira estranha com os demais que ela nunca sequer chegou a contracenar. Uma pena.
E toda essa inconstância é de lamentar, pois, quando o cineasta quer entregar momentos pontuais de qualidade, ele consegue. O orçamento até alto de cerca de 90 milhões de dólares pode ser visto em cena e os efeitos especiais não deixam em nada a desejar.
As sequências de ação são bem dirigidas, com uma estética em que muitas vezes lembra um vídeo game. O clímax em que a câmera acompanha o helicóptero que mergulha e intercala com a briga que acontece dentro dele, empolga. Lembrando que desta vez, Snyder assumiu também a função de diretor se fotografia.
Ao abraçar o fator comédia quase como carro chefe, chega a ser hilariante os momentos em que um zumbi “participa” dos testes de segurança do cofre.
A trilha sonora cheia de versões de músicas famosas, como “Viva Las Vegas”, algumas do Elvis Presley, servem para fundamentar a falta com a seriedade. Usar “Zombie”, do The Cranberries, num filme de zumbi parece tão óbvio, mas se encaixa dentro da proposta de “chutar o balde”.
Percebe-se que o criador encaixou muitos conceitos que são estilosos para serem lançados já no trailer, mas sem efeito prático na narrativa, como um tigre morto vivo ou a organização dos zumbis comandados por um alfa, que talvez até de maneira irônica, usa uma capa e uma máscara, deixando para os fãs viajarem nas referências.
O roteiro tenta a qualquer custo incluir reviravoltas que não surpreendem em nada e até as possíveis críticas ao capitalismo, marca dos trabalhos de George Romero, parecem inseridas de qualquer jeito.
Se fosse um filme de uma hora e meia, tinha potencial para terminar o ano como um dos filmes pipoca mais divertidos do ano, daqueles perfeitos para assistir sem pensar em nada, principalmente em tempos tão pesados em que vivemos.
Mas estamos lidando com um diretor que é difícil de ser colocado freio e tem uma legião de fãs que nem querem que isso aconteça. A Netflix, que de besta não tem nada, deu a carta branca. Como se “Army of the Dead” já não fosse esticado o bastante, já estão em desenvolvimento uma animação e um prelúdio derivados deste. Fica a torcida para que dê certo, mas o espectador calejado já fica com o pé atrás justamente pelas pretensões mirabolantes do realizador.
Nota: 6,0