
“Godzilla vs Kong” (idem, 2021), superprodução da Warner Bros., trata-se de nada menos que o embate de dois dos monstros gigantes mais famosos do cinema. Eles até já se encontraram numa produção japonesa de 1962, mas longe de ter o orçamento e aparatos tecnológicos de hoje em dia.
Relembrando que este é o quarto longa desta franquia, iniciada com aquele bom “Godzilla” de 2014. Em seguida vieram o bem divertido “Kong: A Ilha da Caveira”, de 2017, e o caótico e fraquíssimo “Godzilla 2: Rei dos Monstros”, de 2019. E o tão aguardado crossover é uma loucura que tem tudo para garantir um entretenimento descerebrado.
Na trama, enquanto a organização científica secreta Monarca estuda a origem dos Titãs, uma conspiração tem a intenção de acabar com todas as criaturas. Os planos vão acabar colocando King Kong e Godzilla para colidirem em favor dos planos nada pacíficos.
Um filme chamado “Godzilla vs Kong”, com certeza, o que espectador mais queria ver era o choque dos dois grandões. E os realizadores têm consciência disso, pois a produção não se leva à sério, exemplo disso é a música pop que toca sempre quando o King Kong aparece se espreguiçando lá no seu retiro.
E o diretor Adam Wingard, que vinha da péssima adaptação em live-action de “Death Note” para a Netflix, felizmente faz um trabalho bonito no quesito cenas de ação. As coreografias são bem eficientes, ficando bem claros os estilos de luta de cada um. O Kong acerta socos pesados e gosta de pegar as costas pra tentar estrangular. Enquanto o Godzilla tem aquele raio azul ao seu favor, o rabo e também as unhas, detalhe que parece pequeno mas gera uma cena bem forte.
O diretor gosta de manter planos médios e abertos, de modo que possamos enxergar os dois corpos quase inteiros, intercalados com cortes precisos para atenuar os detalhes. Dá medo só de imaginar a megalomania que seria se esse filme fosse dirigido por Michael Bay, em que nos muitos Transformers ele causa dor de cabeça com a enxurrada de cortes em frações de segundos.
A constante mudança de cenários ajuda a ditar o ritmo da narrativa. E as cores fortes que vão se adequando a cada plano, como aquelas luzes no meio dos arranha céus de Hong Kong, é tudo muito atrativo.
Uma pena que o peso da destruição causada pelos gigantes não seja tão bem transmitida para o espectador como foi feito no ótimo “Círculo de Fogo” (Pacific Rim), dirigido pelo Guillermo del Toro. Tem até uma cena que o Kong se apoia num prédio para se levantar, mas ninguém se importa se havia alguém em perigo ali.
Os efeitos especiais são realmente impressionantes, principalmente quando os planos focam nas expressões dos dois personagens. É claro que, quando não tem nada de real em cena, é inevitável a sensação de que às vezes estamos diante de uma grande animação, alguns movimentos são, sim, artificiais. Mas isso não tira o valor desta área tão essencial desta produção.
E como a história não é prioridade mesmo, o roteiro é mais oco do que a “Terra Oca” lá onde vivem os monstros exóticos. E olha que passou por nada menos que seis mãos, Terry Rossio, Michael Dougherty e Zach Shields, todos com experiências em blockbusters.
E os maiores defeitos nem são os clichês de outros crossovers, como “Freddy vs Jason” e “Alien vs Predador”, em que um deles é escolhido para ficar do lado dos humanos. Ou nem a existência de alguma outra ameaça maior, em que o roteiro até tenta fazer mistério, mas não surpreende ninguém.
Tudo é mesmo uma grande desculpa para a pancadaria acontecer. Aquela viagem para uma terra mística, habitada pro monstros, abre um leque de possibilidades para continuações. Mas se pensarmos na rapidez como algo de tal dimensão é articulado, além de absurdos como levar uma criança e ninguém usa capacete, tem que ter muita descrença de realidade.
Há forçadas de barra para fazer referência a outras criaturas conhecidas, nem que seja um crânio com telepatia que vira uma cabine.
Os diálogos ou são bem expositivos e rasteiros ou redundantes a ponto de comentarem algo que acabou de acontecer. Como por exemplo, quando alguém diz “o Kong venceu este round”. Ou a piada artificial logo após alguém morrer “eu queria ouvir o resto do discurso”.
Os muitos humanos que estão ali, muitos mesmo, são quase todos inúteis para a trama. A menininha estreante Kaylee Hottle pode até ser uma muleta do roteiro para guiar as ações e trazer sentimentos para o King Kong, mas ela tem mais função e carisma do que todo o resto do elenco.
Podem ter utilizado a Milly Bobby Brown como atrativo por ela ser um nome em alta e ser um link com o segundo longa do Godzilla, mas o arco dela é completamente descartável. Chegam, pasmem, a utilizar o argumento de alvejante para que ela e o amigo encontrem o piadista vivido por Bryan Tyree Henry. Era óbvio que a intenção é que eles fossem o alívio cômico, mas em nenhum momento chega a ser engraçado de fato.
Kyle Chandler que vive o pai dela então, um ator tão competente, ganhou talvez o dinheiro mais fácil da vida só pra mostrar a cara duas vezes. Alexander Skärsgard é introduzido ali numa tentativa de ter um protagonista humano, naquele estereótipo do cara canastrão, mas que sabemos que no fundo ele é bom caráter.
E tem o vilão pra lá de caricato, vivido pelo Demian Victor, o mau por ser mau, algo escancarado até no figurino, cheio de frases de efeito.
No fim das contas, dá para imaginar que a real intenção do estúdio era que todo esse escopo propositalmente foi montado de qualquer jeito para abrir espaço para o que realmente importa: a luta entre os monstros. E essa parte é um parque de diversões para quem só quer relaxar por quase duas horas com uma fantasia bem elaborada.
Nota: 6,5