
Sabe quando um filme reúne um caminhão de clichês e, ainda assim, tem grande chance de deixar a maioria dos espectadores com o sorriso no rosto ao final da exibição? É o caso de “A Guerra do Amanhã” (The Tomorrow War, 2021), que segue toda a fórmula de um “pipocão” genérico e tende a cair no esquecimento a curto prazo.
A Paramount Pictures tinha plena consciência do que tinha em mãos, que provavelmente faria bonito nas telas de cinema em situações normais, mas com a pandemia, o estúdio optou por vender para a plataforma de streaming Amazon Prime Video pelo valor de U$ 200 milhões. E com divulgação pesada! O resultado: não apenas garantiu uma boa audiência como melhorou a experiência de quem poderia ter raiva após sair e pagar caro para ver algo tão…comum.
Na trama, a humanidade está perdendo uma batalha global contra uma espécie mortal de alienígenas em 2051. Para garantir a sobrevivência dos humanos, soldados e civis do presente são transportados para o futuro e se juntam à luta, entre eles Dan Forester (Chris Pratt), um pai de família determinado a salvar o mundo…
O projeto apresenta conceitos que já foram revirados de todos os jeitos pelo cinema, como viagem no tempo, monstros, drama familiar e visual futurista. Mas são encaixados de uma maneira que garantem um ritmo agradável, e, só isso. Pouco para o potencial do diretor Chris McKay, que trabalhou como editor no ótimo “Lego: O Filme” (The Lego Movie, 2014), dirigiu o agradável “Lego Batman: O Filme” (The Lego Batman Movie, 2017) e faz a sua estreia num longa-metragem em live-action.
A ambientação é uma mistura de títulos como “Tropas Estrelares” (Starship Troopers, 1997), que funcionou à sua época, e o imensamente superior “No Limite do Amanhã” (Edge of Tomorrow, 2014). Os alienígenas, por mais interessante que seja o visual, não são tão diferentes dos inúmeros derivados de “Alien – 8° Passageiro” (Alien, 1979), incluindo até o recente terror/suspense “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018). Então, efeito novidade zero!
Mas o pior mesmo fica por conta do roteiro de Zach Dean, do pouco lembrado “Um Dia Para Viver” (24 Hours to Live, 2017). É aquele caso de o quanto mais se pensa nos furos, pior se torna a experiência do que assistiu. Por que pessoas aleatórias são recrutadas do passado para jogar no futuro? E os efeitos causados pelas alterações nas linhas temporais? Melhor deixar quieto.
Tudo é conveniente ao extremo para entregar uma história sem maiores exigências de raciocínio. Inclusive com os personagens, estereótipos que aparecem, se escondem (aqui, literalmente!) e reaparecem quando consideram melhor. E aí entram o pai ausente (vivido pelo ótimo J.K. Simmons, aqui só seguindo à risca o desenho de um coroa bruto) e o amigo negro e tagarela que serve de alívio cômico (Sam Richardson, que apesar dos pesares, é bem carismático).
Todo o dilema da família é digno de “Novela das 6”, mas serve para existir alguma motivação no protagonista no meio de um contexto tão sem sentido. Previsível? Demais. Com direito a códigos de narrativa mostrando o interesse da filha pequena pela ciência (óbvio que ela viria a se tornar uma cientista!) e aquela forçada para reunir uma equipe para o clímax, pegando carona nos longas de super-heróis.
Percebe-se que tudo do projeto tinha a intenção de ser assim, abrindo liberdade para zoar da própria falta de pretensões. Exemplo maior é quando o personagem Dan explica que tem uma “história longa” para justificar saber usar uma arma, depois confirma que já serviu o exército, e “pronto, história curta”. Ou então quando ele grita “morra!” ao atirar contra uma criatura e, em seguida, alguém questiona “sério que você estava gritando ‘morra'”? Não que isso traga qualidade ao produto final, mas automaticamente tira responsabilidade que ali poderia existir.
Mesmo com um material tão raso em mãos, Chris McKay mostra que tem habilidade na condução das cenas de ação, tendo como tentativa de assinatura a câmera aérea seguindo os personagens caindo logo após o “salto”. De fato, se assemelha bastante a um videogame e combina com a proposta. O clima que ele cria até a aparição do visual dos monstros, através de um plano de baixo para cima e com movimento apenas de um membro estranho, mostra que ele sabe criar tensão. Quando as sequências necessitam de muitos elementos em cena, também fica bonito de ver, mérito dividido com o experiente diretor de fotografia Larry Fong (Super 8, 2011; Kong: A Ilha da Caveira, 2017).
O fato de McKay ter vindo de projetos que tinham o humor como carro chefe contribuem para a visão de que os realizadores queriam fazer algo, por vezes, risível de maneira não tão explícita, como o brega jogo de Copa do Mundo com direito a seleção brasileira com “Peralta” prestes a marcar o gol heroico. Quando algo decisivo recai num aluno “especialista em vulcão”, é demais para o juízo, a falta de pretensão fica rasgada, provocando risos até mais do que nos momentos claramente cômicos.
O estúdio aproveita ao máximo o momento de Chris Pratt, principal nome do elenco, enquanto “herói da Marvel”. Ele já provou ser bem carismático, tem veia cômica, mas chegou num ponto em que o ator parece estar se confiando por completo nesses elogios prévios. Aqui, parece não apresentar nenhum esforço em sair do piloto automático. Alguns momentos até exigem dele o mínimo de dramaticidade, mas ele segue na zona de conforto.
Há vários nomes de talento que, por conta do completo gesso fabricado pelo roteiro, pouco conseguem mostrar, casos de Yvonne Strahovski, como a Coronel Muri; Betty Gilpin, como a esposa do protagonista; e Keith Powers, como um militar que se resume a ficar de cara fechada e carregar uma unha enorme como objeto da sorte/azar. No fim das contas, pouco importa o destino de todos.
Com 2h20 de duração, “A Guerra do Amanhã” é aquele longa repleto de excessos e defeitos tão visíveis que, se vistos por outros viés, pode causar efeito reverso e garantir uma inesperada satisfação. Apenas não esperem nenhuma lógica ou inteligência!
Nota: 5,0