Crítica: “Loki” balança ao não encontrar o equilíbrio entre a ousadia e a aclamação

Não tem como negar que a Marvel Studios está sabendo ampliar o seu já tão bem sucedido universo cinematográfico através das séries lançadas na plataforma de streaming Disney+. “WandaVision” mostrou ousadia ao brincar com a metalinguagem e homenagear as produções de décadas passadas. “Falcão e o Soldado Invernal”, mesmo seguindo um formato tradicional, continha uma importante mensagem política para os dias atuais.

A terceira delas, “Loki”, tem méritos por se arriscar com escapadas da fórmula segura (e previsível). Mas por ironia do destino, o produto estrelado por um dos personagens mais interessantes já apresentados pelo MCU cai em armadilhas justamente pela necessidade de se encaixar num contexto maior. Ao mesmo tempo em que prima por soar diferente, as “algemas” o tornam deslocado.

A trama começa depois que Loki (Tom Hiddlestone) rouba novamente o Tesseract e se encontra diante da Autoridade de Variação Temporal, uma organização com a função de manter o controle dos acontecimentos do tempo e espaço. Forçado a responder por seus crimes contra a linha do tempo, ele recebe uma escolha: ser deletado da realidade ou ajudar a capturar uma ameaça ainda maior.

Se um “vilão” segue nos planos do estúdio desde quando fora apresentado há uma década (desde o primeiro “Thor”, 2011), é porque ele tem o seu diferencial. Não apenas a complexidade do personagem ambicioso e sarcástico, mas pelo talento e carisma gigantes do seu intérprete, Tom Hiddlestone, essenciais para que ele tenha caído nas graças do público. Sendo assim, fazia sentido que ele fosse protagonista do projeto mais “estranho” daquele mundo, principalmente quando a sua continuidade parecia findada após “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War, 2018).

A série criada por Michael Waldron (um dos produtores da espetacular animação “Ricky and Morty) mistura vertentes como humor de sitcoms “de escritório”, viagens no tempo, sci-fi de futuro pós-apocalíptico e comédia romântica, ancorada no eterno caráter dúbio de Loki, alguém que se considera mau por natureza, mas, no fundo, tem empatia, ainda que seletiva. E é justamente nesses detalhes minimalistas, a constante busca por identidade e os dilemas sobre o livre arbítrio, que os episódios mostram o valor maior.

Hiddlestone nunca cai na zona de conforto ao encarnar um “Deus da Trapaça”. Aqui, justamente por ele se colocar em situações vulneráveis, o roteiro instiga bem a curiosidade sobre algum possível golpe que ele venha a aplicar. Aquele Loki bonzinho, que se permite ter um amigo ou até um interesse romântico (ainda que o mesmo seja um reflexo do seu narcisismo), apesar de não parecer ser o mesmo visto nos filmes, nunca soa aleatório. Afinal, ser vilão é uma ideia premeditada sobre ele desde sempre.

E a adição de Owen Wilson, um comediante mais lembrado por suas produções pastelonas (mas que já mostrou versatilidade, vide “Meia Noite em Paris”, 2011), se mostra uma cartada que beira o genial por trazer algo que muitas vezes falta no meio daquele monte de super-heróis: humanidade. As interações entre o seu Mobius com Loki mostram não apenas uma química admirável entre os atores, mas diálogos existencialistas que poderiam render esquetes que perfeitamente funcionariam de maneira isolada.

Se a ambientação burocrática e de cores dessaturadas da Autoridade de Variância Temporal (Time Variance Autorithy – TVA) não seriam suficientes para o grande público, a aparição de Sylvie (Sophia Di Martino, imprimindo a insegurança e coragem ali necessárias) abre margem para outros cenários que remetem a produções de ficção cyber punk, bebendo da fonte de “Blade Runner” (idem, 1982), e de contrastes sociais, como “Expresso do Amanhã” (Snowpiecer, 2013). Há planos visualmente belos, ainda que a fotografia por Autumn Durald (do recente “Mainstream”, 2020) sempre escura incomode às vezes.

Mas mesmo com um relógio em desenho animado tirando sarro de tudo que acontece, a produção parece sentir a necessidade de estar sempre relembrando o espectador que aquilo é parte de algo macro, que aqueles minutos são partículas no meio do universo. E o intuito parece bem claro desde o início: implantar de vez o multiverso na Marvel atual! Os seis episódios, todos dirigidos por Kate Herron (vinda de séries como “Sex Education” e “Daybreak”), no fim das contas, parecem uma grande enrolação para, ao final, os figurões da indústria gritarem “olha, tem algo grandioso vindo por aí, aguardem!”.

Tudo gira em torno de uma única pretensão e aquele fã já calejado provavelmente vai sentir um gosto agridoce ao fim de cada episódio sem maiores novidades e tudo sendo resolvido “na base da conversa”.

Sendo assim, não deixa de ser decepcionante ver induções que fazem cabeças explodirem com teorias, como a cena pós-créditos do episódio quatro, para depois fazerem algumas piadas e jogarem tudo fora, chegando a desperdiçar o talento de alguém do nível de Richard E. Grant. O episódio cinco é recheado de easter-eggs e fan-services que muitos vão se divertir identificando, mas estão lá apenas jogados, sem acréscimo à narrativa.

O ritmo é bem problemático por essa indefinição de proposta, passeando entre o excêntrico e o “pipocão”, diferente de “WandaVision”, que acertou na “manipulação” por chutar na hora certa a estranheza dos episódios iniciais.

Quando sentem a necessidade de inserção de cenas de ação, as sequências são totalmente genéricas e esquecíveis, com direito a capangas que só faltam cair sozinhos e coreografias bem artificiais. Sem falar que há episódios que passam a sensação de serem grandes “fillers” (leia-se sem necessidade ou puro enchimento de linguiça).

Tudo é arquitetado para um grand finale – avisando que aqui não tem spoilers! –, que, se funciona, boa parte do mérito é do novo ator que ali dá as caras, prometendo a tão alardeada montanha russa de emoções na próxima fase do MCU. Tem um gancho funcional dentro da proposta que já vinha sendo tão gritada, mas o grande plano é mastigado de maneira bastante expositiva. Percebe-se que os realizadores poderiam fazer mais bonito, mas precisaram encaixar tudo dentro da sua devida forma para não desagradar a massa.

“Loki” acerta ao colocar personagens complexos de frente uns com os outros, brinca com expectativas e apresenta reviravoltas que agradam em cheio o público alvo. Porém, o caminho pode ser tortuoso até o anúncio de que teremos uma segunda temporada. E, de fato, aquele chifrudo que “amamos odiar” merece mais espaço só para ele e seu novo grupo. Sem tantas interferências externas.

Nota: 6,0

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