Critica: trilogia “Rua do Medo” agrada como uma grande sátira teen às produções de terror

Um projeto de três longas-metragens, ambientados num mesmo universo, com o intuito de homenagear/parodiar os clichês do horror, naturalmente iria atrair a curiosidade dos apreciadores do gênero. E ao serem lançados num espaço de tempo de apenas um semana entre eles, na plataforma de streaming mais famosa do mundo, acabou por tornar o conjunto da obra ainda mais eficiente.

O contexto de “Rua do Medo” (Fear Street, 2021) é válido porque a produção foi rodada para ser lançada nos cinemas, mas, assim como tantas outras, foi afetada pela pandemia e acabou sendo vendida para a Netflix. Visto que os episódios dificilmente fariam o mesmo sucesso nas bilheterias das telas grandes, assisti-los em casa torna a experiência semelhante a uma série, o que acaba por disfarçar os muitos buracos que cada parte tem individualmente.

Os longas são bem diferentes entre si, mas existe uma coesão em ritmo e narrativa, permanecendo um tom de terror adolescente e sem compromisso. É claro que o fato de todos os “filmes” serem dirigidos por Leigh Janiak (que havia conduzido episódios de séries como “Outcast” e “Pânico”) é essencial para manter tal semelhança, mas os realizadores claramente embarcam na onda de jovens e nostalgia que o seriado “Stranger Things” emplacou. Algo que não poderia ser mais condizente com os livros originais, escritos por R.L. Stine, também autor do seriado “Goosebumps”, cujo estilo é bem semelhante.

Sendo assim, o resultado é uma agradável iniciativa que, mesmo não tendo sido pensada originalmente para a TV, fica como exemplo de algo que pode voltar a ser trabalhado, inclusive, com outros gêneros do cinema.

“Rua do Medo: 1994 – Parte 1” (Fear Street Part One: 1994)

Na trama, depois que Heather é assassinada na saída do trabalho, um grupo de adolescentes passa a ser perseguido por um grupo de serial killers mascarados em 1994, na pequena cidade de Shadyside. Quando começam a investigar as mortes, eles descobrem que a cidade tem uma longa história de crimes brutais que acontecem há anos.

Até pelo “efeito novidade”, o primeiro episódio cativa ao invocar a nostalgia com força. Sendo grande parte do público alvo aquele pessoal que viveu os anos 90, os produtores investiram pesado em direitos autorais. A trilha sonora traz o tempo todo clássicos de Garbage, Bush, Iron Maiden, Radiohead, Nine Inch Nails. Estratégia forçada? Óbvio. Mas não incomoda dentro da proposta satírica.

A cena inicial, envolvendo telefone e uma atriz em ascensão (Maya Hawke, justamente de…“Stranger Things“), claramente é uma referência a “Pânico” (Scream, 1994), longa que foi responsável por ressuscitar o gênero slasher, ao mesmo tempo em que ria dos clichês que inseria de maneira consciente.

Este capítulo apresenta jovens no auge da puberdade fazendo besteira o tempo todo, shopping center, policial de índole suspeita, uma enorme salada em que os ingredientes se encaixam. E cativam principalmente pelo carisma dos personagens, ainda que sejam meros arquétipos pensados como tal.

Josh (Benjamin Flores Jr., promissor) é aquele elemento ideal para cair nas graças do espectador, o nerd tímido que gosta de rock e entende de filmes, o que o torna como peça para explicar teorias sobre tudo que acontece e, por vez, pensar em planos (estúpidos, sim!). Os amigos que você espera que eles sejam degolados a qualquer momento (Julia Rehwald e Fred Hechinger) também cumprem suas funções com bom humor.

Por outro lado, o arco da protagonista Deena (a fraquissima Kiana Madeira) é apenas embasado no impasse com Samantha (a regular Olivia Scott Welsh), como se fosse alguma “ousadia” existir uma relação homossexual, algo que vem a ganhar maior sentido apenas nas sequências, para além de um eterno preconceito.

Com o roteiro dos poucos experientes Phil Graziadei e Kyle Killen sempre alimentando a linha tênue entre o suspense básico de assassino e o teor sobrenatural, deixa pontas soltas que também vêm a serem justificadas posteriormente. E também acerta em cheio ao quebrar expectativas no meio de tanto humor com a entrada repentina do gore!

Nota: 7,0

“Rua do Medo: 1978 – Parte II” (Fear Street Part Two: 1978)

O segundo longa se passa no Acampamento Nightwing, onde jovens das cidades de Shadyside e Sunnyvale se encontram e descobrem que estão unidas por um mistério após uma série de assassinatos.

Neste, o mais eficiente dos três, as referências correm soltas de maneira mais clara ao gênero slasher, tendo os dois primeiros “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th, 1980, 1982) como base. É matança de jovens descerebrados sem piedade, num típico acampamento em que a rotina se resume a “populares x rejeitados”, cenas de sexo e usuários de drogas que só servem para pontuar quem vai morrer.

Se o lado gore estava mais presente no antecessor pela reta final, aqui, o sangue predomina, com direito a fraturas expostas e machadadas que não perdoam o visual das vítimas. Porém, o lado sobrenatural paira no ar, ainda que de maneira discreta.

Citações ao mundo da cultura pop também estão montes, principalmente às obras de Stephen King e David Bowie (a protagonista se chama Ziggy…olha, Ziggy Stardust!). Assim como a “Parte 1”, canções marcante da época entram o tempo todo, quase como uma playlist do Spotify, com Kansas, The Runaways, Neil Diamond, Alice Cooper, Deep Purple, entre outros. Simplesmente entrega o que o espectador já espera, com direito a uma brincadeira entre as versões de “The Man Who Sold the World” na transição entre as datas.

Tal protagonista, vivida por Sadie Sink (vinda…olha só…de “Stranger Things”!), tem carisma de sobra para levar a produção nas costas. Mas o seu “parceiro”, vivido por Ted Sutherland, entrega um trabalho convincente ao fazer um contraponto à sua versão adulta, bem diferente, que já havia sido apresentada.

Como um típico “episódio do meio”, este cumpre a função de ligar os fios, apresentar pistas e fundamentar mais aquele mundo que não tenta ser criativo de maneira proposital. E acerta bem no aspecto visual, principalmente pela estranheza das novas “ameaças”.

Nota: 7,5

Rua do Medo: 1966 – Parte 3 (Fear Street Part Three: 1966)

Ma trama, um grupo de pessoas de um pequeno vilarejo colonial é vítima de uma brutal perseguição religiosa durante o século XVII, o que causa efeitos desastrosos por séculos jogando uma maldição assustadora em todos os moradores daquele lugar.

O terceiro episódio é talvez o mais problemático pela indefinição de estilo. Ao mesmo tempo em que tenta imprimir a sua identidade própria como uma história de época, a necessidade de amarrar as pontas soltas existentes desde o primeiro faz este soar como três filmes num só (olhem o quão irônico isso é)!

A direção de arte e figurino para a construção dos ano 1600 são convincentes e a narrativa mais cadenciada, sem apelar tanto para jump scares ou a existência de um assassino mascarado tenta se aproximar do “novo terror”, tão em alta nos dias atuais por causa dos trabalho de cineastas como Jordan Peele (“Corra!”, 2017; “Nós”, 2019), Ari Aster (“Hereditário”, 2018; “Midsommar”, 2019) e Robert Eggers (“A Bruxa”, 2015; “O Farol”, 2019).

A diretora Leigh Janiak conduz um horror psicológico, trazendo incômodo com a materialização visual de algo “comum”, como a morte de porcos, enquanto a subtrama sobre ocultismo caminha em paralelo. A influência de “A Bruxa” é clara, principalmente ao abordar o tabu sobre a figura da mulher em séculos passados com situações que fazem paradoxo com os dias atuais, nem tão diferentes.

E por mais que esse importante teor sirva para trazer mais camadas ao casal de garotas de “1994”, a pegada juvenil parece nunca permitir sustentar nenhuma pretensão maior. O espectador naturalmente já espera alguma sátira ao gênero e o fato de atores que já viveram outros personagens retornarem num contexto diferente causa não apenas distração, mas se mostra uma estratégia pouco criativa para segurar o público alvo.

Precisando concluir a história, a retomada de vez para o contexto do primeiro longa provoca uma irregularidade de impressões. Se optassem por se assumir como uma série (algo que seria facilmente resolvido no streaming), o incômodo seria menor. Mas o que se vê é uma correria para continuar o primeiro capítulo, até colocando The Offspring na trilha sonora para relembrar o que já vinha sendo feito a torto e a direito.

O roteiro até traz as devidas explicações para todo o mistérios que vinham sendo construídos, mas após o “clímax”, o longa parece ter dificuldade para encerrar, mesmo tendo pouco a acrescentar.

O terceiro é o inferior, mas tem o seu valor, principalmente ao ser analisado dentro de algo maior. Fica como objeto de referência pelo formato interessante que pode ser aperfeiçoado.

Nota: 6,0

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