Crítica: “O Esquadrão Suicida” é aquele raro caso em que o universo se alinha!

Quando foi anunciada a demissão de James Gunn da Disney/Marvel Studios por motivos controversos (uns Tweets antigos com piadas polêmicas), a concorrente DC Comics não perdeu tempo ao contratar o cineasta responsável pelo longa mais “autoral” da rival, “Os Guardiões da Galáxia” (The Guardians of the Galaxy, 2014). Tanto que a empresa do Mickey se arrependeu rápido e já tratou de recontratá-lo (ele vai comandar um especial de Natal dos “Guardiões”, além do “Volume 3” previsto para 2023). Fato é que a DC soube aproveitar a janela e encaixou o diretor num projeto que caiu como uma luva na sua visão debochada e de pouco pé no chão.

O primeiro “Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016), dirigido por David Ayer, foi um fracasso generalizado de crítica, principalmente pela falta de identidade em decorrência das muitas intervenções do estúdio. A Warner Bros. precisava limpar aquela tragédia. E dar carta branca para Gunn fazer o que bem quisesse com personagens “classe C”, soltos da necessidade de serem heróis, foi um tiro certeiro. “O Esquadrão Suicida” (The Suicide Squad, 2021) é uma continuação/reboot que em nada se assemelha ao antecessor. É violento, grandioso, mas também estúpido e cativante.

Resta saber se o plano do estúdio de lançar simultaneamente na plataforma de streaming HBO Max no exterior, algo que atingiu diretamente as bilheterias dos cinemas (afinal, a pandemia da Covid-19 não acabou e tudo isso é mais do que justificável), vai afetar na continuidade deste divertido universo.

Na trama, o grupo de condenados rastreado por Amanda Waller (Viola Davis) é jogado na remota ilha Corto Maltese, repleta de militantes adversários e forças de guerrilha. No meio da missão, eles descobrem um plano que envolve pesquisas secretas e conspirações encabeçadas pelos Estados Unidos.

Com total controle criativo do projeto, James Gunn não ignora os acontecimentos do longa de David Ayer, traz de volta alguns personagens, mas trata de apresentar algo totalmente diferente. E ele o faz com naturalidade, visto que o roteiro, dentro de sua simplicidade, não carece de mais explicações, enquanto a direção trata de imprimir a nova identidade com um ritmo bastante frenético e cartunesco. Tudo é propositalmente bizarro, fugindo do heroísmo tradicional do gênero, ao mesmo tempo em que os fatores para o entretenimento estão sempre explícitos.

O tom sombrio estabelecido pelos longas dirigidos por Zack Snyder (“O Homem de Aço”, 2013; “Batman vs Superman”, 2016) não existe mais, o que fica claro pelas gags constantes e até mesmo o uso de subtítulos que se formam na tela a partir de elementos do cenário. Por outro lado, a censura +18 permite que Gunn se divirta com a violência sem a intenção do choque do visual, mas tornando a mesma como mais um artifício para o humor, se assemelhando a suas experiências com filmes trash de menor orçamento (“Seres Rastejantes”, 2006; “Super”, 2010).

O fato do elenco ser inflado ao extremo, por motivos óbvios, faz com que o roteiro priorize alguns. E diverte a forma como o cineasta brinca com expectativas ao mostrar várias formações de um “grupo principal” caminhando em plano aberto sob trilha sonora triunfal. Funcionam as montagens com diferentes pontos de vista, algo que acontece durante os três atos, induzindo a curiosidade sobre como tais personagens vão (ou não) se encontrar.

Se o desapego a personagens não chega a surpreender (a excelente cena inicial já apresenta tal proposta), a piada se encaixa na premissa de que o espectador está diante de capangas pouco relevantes, seja dentro daquele contexto em que são a escória do universo, ou até no mundo real, em que a maior parte deles não são famosos nas histórias em quadrinhos. E eis um triunfo da produção: aqueles escolhidos para terem maior espaço ganham a devida profundidade, possibilitando criar empatia por eles.

Claro que tais personagens não teriam tanto mérito se não fosse pela competência de seus intérpretes. Protagonista, o Sanguinário, vivido por Idris Elba, desvia do ar paternal ali existente num líder que mistura charme e falta de paciência (além de uma certa fobia que o torna mais humano). Já John Cena traz o carisma que o tornou uma estrela da WWE, usando da expressão fechada e o corpo pra lá de musculoso como algo que nunca é levado à sério no Pacificador, uma figura violenta e ignorante que o roteiro utiliza bem como metáfora para os EUA.

Uma das peças mais valiosas da Warner Bros. atualmente, a Arlequina traz Margot Robbie cada vez mais à vontade com a personagem, que segue com sua inocência e doçura por trás de uma psicopata lunática, mas a representatividade ganha ainda maior peso. Também remanescente do primeiro filme, Rick Flagg, vivido por Joel Kinnaman, ganha mais camadas além de ser um militar rígido, se tornando alguém mais amigável. Já Amanda Waller finalmente aproveita o imenso talento de Viola Davis, mostrando alguém com uma indiferença com a vida alheia em nome de uma política de matança que atinge o objetivo de incomodar (a crítica social é bem clara).

Ainda que seus arcos dramáticos sejam apresentados em momentos bem pontuais, o Tubarão-Rei, Nanaue (voz de Sylvester Stallone), e o Bolinha (vivido por David Dalstmachian), têm tudo para cativar o público dentro das suas concepções absurdas, visto que nunca teriam espaço num longa com proposta realista. Já a Caça-Rato 2 tem a humanidade que Daniela Melchior consegue reproduzir, mas o nítido intuito de emplacar a jovem atriz portuguesa parece atropelar os direcionamentos do roteiro.

As cenas de ação também agradam de um modo geral, incluindo o máximo de ideias possíveis de serem reproduzidas. Se era para fazer algo grandioso, que venha um monstro gigante para tornar a premissa do espalhafatoso crescente! Há momentos específicos que são visualmente bonitos de se ver como aquele do Sanguinário caindo de andar por andar no meio de um desabamento. Além, é claro, daquela sequência da Arlequina, que trabalha de maneira deslumbrante a combinação das cores vermelho e preto e a coreografia que se assemelha a um balé. Há de ressaltar, neste caso, o resgate pelo estilo apresentado pela diretora Cathy Yan no divertido “Aves de Rapina” (Birds of Prey, 2019), utilizando da animação digital 2D para emergir na mente da feliz assassina.

Elemento já característico das obras de Gunn, a trilha sonora mais uma vez tem papel fundamental para fomentar o ritmo ágil. Assim como em “Os Guardiões da Galáxia”, ele utiliza de inúmeras canções que combinam com suas respectivas cenas, desta vez sem a intenção de viralizar como produto à parte. Algumas são conhecidas de algum canto na mente de quem assiste, mas não o suficiente para causar distração. E nem precisa lembrar do desastroso primeiro “Esquadrão Suicida”, que parecia uma playlist ambulante do Spotify, atolada de músicas famosas jogadas de qualquer jeito.

“O Esquadrão Suicida” é o projeto da DC Comics que caiu nas mãos ideais. Todo o deboche, absurdo, sangue e tamanho que se esperava para uma equipe de rejeitados sanguinários e foi desperdiçado no primeiro longa, foi compensado aqui. Resta saber como vai ser o futuro de um material tão interessante, já que James Gunn, pelo visto, vai “jogar pelos dois times”.

Nota: 9,0

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