Crítica: “Um Lugar Silencioso – Parte II” repete de maneira eficiente a fórmula do anterior

Uma das surpresas mais agradáveis do ano de 2018 foi “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018), um terror que conseguiu prender a atenção como poucos do gênero em meio a tantas produções genéricas que são lançadas. Custou U$ 22 milhões e faturou mais de U$ 350 milhões ao redor do mundo. Sendo assim, a Paramount Pictures logo viu nascer ali uma franquia com potencial de faturar mais grana, tratando de encomendar uma continuação (ainda que o desfecho do original seja bem convincente) praticamente de imediato.

A manutenção da equipe de produção e elenco era a principal aposta, confiando na revelação que foi John Krasinsky (um ator mais lembrado pela atuação na sitcom “The Office”) como diretor. Veio uma tal de pandemia da Covid-19, a estreia foi adiada em mais de um ano para atender ao desejo de lançar a obra nos cinemas, e conseguiram o objetivo, apesar das restrições sanitárias. A boa notícia é que “Um Lugar Silencioso – Parte II” (A Quiet Place Part II, 2020) mantém todos os elementos que tornaram o anterior tão bem sucedido.

Na trama, a família Abbott precisa agora encarar o terror mundo afora, continuando a lutar para sobreviver em silêncio. Obrigados a se aventurar pelo desconhecido, eles rapidamente percebem que as criaturas que caçam pelo som não são as únicas ameaças que os observam pelo caminho.

Ganâncias à parte, é preciso reconhecer que John Krasinsky tem habilidade como realizador. Se no primeiro ele mexeu em cima de um roteiro já pronto de Scott Beck e Bryan Woods (o projeto havia sido oferecido para Michael Bay, que felizmente recusou e ofereceu ao colega com quem trabalhou em “13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi”), na continuação ele teve total autonomia para desenvolver aquele universo. Ele amplia pouco os conceitos já estabelecidos, mas se mostra bem familiarizado com situações que propiciam tensão.

Mostrar o início da invasão dos alienígenas era uma ideia que poderia quebrar parte de um mistério necessário para fomentar o clima, mas Krasinsky evita explicações óbvias e entrega uma cena de abertura bem dirigida que consegue convencer logo de cara. É aadmirável a construção do suspense de maneira gradual, se atenuando com a cor que surge no céu e culminando numa sequência de ação grandiosa. São muitos elementos em cena, cortes assertivos e planos abertos que permitem que a correria seja apreciada pelo espectador.

Por mais que a proposta do medo provocado pelo silêncio não se confirme por totalidade em tela desde o primeiro longa (ambos são bem barulhentos), a direção sabe utilizar do som para ampliar a quantidade de cenas com explosão e matança, sem nunca perder a identidade, da agonia causada por situações minimalistas. Chega a ser uma quebra de expectativas, por exemplo, quando um certo personagem repentinamente tem a sua perna quase dilacerada.

Além de continuar exatamente do ponto em que terminou o primeiro, o direção apresenta planos que remetem aqueles vistos antes, transmitindo a ideia de unidade. Ao mostrar um prego enquanto pés descem as escadas, a alusão é à melhor cena do original. Momento semelhante que ganha outra roupagem no clímax, novamente tendo o silêncio como fator crucial. Se antes a cor vermelha era uma constante por causa dos fogos e a luz de emergência, é interessante como a fotografia resgata a forte paleta através de uma placa de “No Ar” de um estúdio.

Neste, há novas situações em que, através da fotografia e planos fechados, provocam em quem assiste a sensação de claustrofobia e falta de ar, semelhante às que os personagens se encontram. O ritmo é ágil e a montagem contribui para tal, inclusive o desfecho, intercalando dois contextos diferentes. Simples, mas funcional dentro da proposta!

A ótima Emily Blunt repete a presença forte como a mãe que foge de qualquer fragilidade. Porém, John Krasinsky traz um pingo de ousadia por não entregar o protagonismo à sua esposa na ausência dele próprio, de modo que o centro das atenções fica por conta da talentosa Millicent Simmonds, que já havia sido um grande destaque antes. A jovem, que é deficiente auditiva na vida real, ganha um arco próprio e vira a peça chave para a resolução de conflitos.

O cineasta também apresenta um amadurecimento condizente com a curta passagem de tempo para o filho vivido por Noah Jupe. Antes uma criança que só fazia besteira e necessitava de proteção, ele ainda comete deslizes, mas precisa carregar a responsabilidade diante das circunstâncias. Por outro lado, o personagem do sempre eficiente Cillian Murphy claramente surge para substituir o próprio Krasinsky, aqui servindo como clichê pela constante dúvida sobre o seu caráter. Por mais que o ator traga a carga dramática ali existente, é de lamentar que o seu Emmett não ganhe mais desdobramentos.

Sem o efeito novidade que causou grande hype em 2018, “Um Lugar Silencioso – Parte II” compensa por conseguir reaproveitar artimanhas e criar novas situações de suspense efetivo, que incomoda o espectador no melhor sentido possível para o gênero. Resta saber se a fórmula terá vida longa diante dos olhos crescidos dos executivos.

Nota: 8,0

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