
Não é nenhum exagero afirmar que um longa solo da Viúva Negra pela Marvel Studios/Disney chega com mais de uma década de atraso (a personagem foi apresentada lá em “Homem de Ferro 2”, 2010). O péssimo timing após os eventos grandiosos de “Vingadores: Ultimato” (Avengers Endgame, 2019), incluindo um final não muito feliz para a espiã russa, contribuem para que o novo projeto chegue já com cara de ultrapassado, entregando uma fórmula segura até demais.
Como se não bastasse a falta de coragem de lançarem uma obra estrelada por uma heroína mulher durante tanto tempo (foi preciso a rival DC Comics fazer bonito com “Mulher Maravilha”, 2017, para correrem com o mediano “Capitã Marvel”, 2019), a pandemia da Covid-19 atrapalhou os planos de lançamento no cinema. A saída encontrada, lançar simultaneamente na plataforma de streaming Disney+ (como “Premier Access”), desagradou ninguém menos que a estrela Scartlett Johnasson, que é produtora executiva e moveu um processo contra a empresa do Mickey.
Em meio a erros de logística e danos judiciais, “Viúva Negra” (Black Widow, 2020) faz pouco em termos de reparação histórica. Não se trata de uma produção ruim, se sustenta em algumas boas cenas de ação e, principalmente, nos personagens carismáticos. Mas parece um produto menor diante dos passos à frente que o próprio universo compartilhado da Marvel já deu.
Na trama, acompanhamos Natasha Romanoff (Johansson) após os eventos de “Capitão América: Guerra Civil” (Captain America: Civil War, 2016). Se escondendo do governo norte-americano, a espiã precisa lidar com uma conspiração perigosa ligada ao seu passado, precisando reencontrar membros da família que deixou para trás antes de se tornar parte dos Vingadores.
O começo é promissor com uma cena de ação eficiente, apresentando também o arco familiar da trama que será tão presente. Ainda que não seja novidade, é admirável o uso de CGI para rejuvenescimento de um certo ator que estreia no universo. O uso da versão de “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana (interpretada por Malia J), e créditos do elenco no início (algo não rotineiro no MCU), por mais que não tenham nada de criativo, imprimem um tom mais intimista para uma protagonista que não tem superpoderes.
Mas é inevitável a sensação do óbvio de que nada de mais grave vai acontecer com a personagem principal, visto que sabemos o seu destino futuramente, perdendo em emoção. E o fato da trama ser encaixada entre os episódios de “Guerra Civil” e “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War, 2018) só reforça a imagem de um capítulo deslocado, sem o mesmo peso de importância das próximas estreias previstas no cronograma.
A diretora Cate Shortland (“A Síndrome de Berlin”, 2017) tenta construir uma ambientação de longas de espionagem, com belas fotografias captando cenários de diferentes países, numa mistura das franquias Bourne, 007 e “Missão impossível”. Mas o roteiro de Jac Schaefer, Ned Benson e Eric Pearson pouco utiliza do caráter investigativo para o desenrolar da trama, por mais que tivesse abertura para tal, priorizando a aventura para nunca fugir do cunho de “filme de super herói”.
As cenas de ação funcionam. O primeiro empate corporal entre Natasha e Yelena é bem coreografado, mantendo o estilo de luta já tradicional da “Viúva”. A sequência do resgate com um helicóptero e tempestade de neve é visualmente bonita. Mas pela falta de ineditismo, nenhuma passagem é marcante a ponto de ser lembrada futuramente. A nível de comparação, é bem inferior ao excelente “Capitão América 2: O Soldado Invernal” (Captain America: The Winter Soldier, 2014).
Um enorme potencial desperdiçado é o vilão Treinador, visto que o seu poder de replicar movimentos de outros heróis é um prato cheio. O que conferimos são apenas planos rápidos para inserir easter eggs, divertir o fã que vai ficar identificando qual personagem ele está espelhando, mas nunca temos sequências interessantes de fato. Pode ser legal ver ele atirando um escudo igual ao Capitão América ou exibindo unhas como as do Pantera Negra, mas a real dimensão do seu perigo não é mostrada. E pra disfarçar a figura de antagonista principal, o experiente Ray Winstone vive um ditador caricato ao extremo!
O grande triunfo da produção é o elenco central e seus personagens que ganham profundidade (dentro do limite que o roteiro consegue). Scarlett Johansson já atua quase no modo automático, não por comodismo, mas por controle natural do papel que já repetiu tantas vezes. Agora ganha a companhia de Florence Pugh, uma das melhores atrizes da geração atual. Sua Yelena Belova certamente vai ser muito utilizada na próxima fase da Marvel. Ela é debochada, sabe rir dos clichês e poses que parecem exageradas, ao mesmo tempo em que nunca deixa de soar humana, deixando mais explícito o peso dos traumas.
David Harbour é o alívio cômico natural e, mesmo com gags pouco criativas sobre o seu peso, rouba a cena sempre que aparece por tentar dar a si próprio uma importância que ninguém parece enxergar. Ele é aquele “ridículo” que nunca parece antipático para o espectador. A veterana Rachel Weisz é mais uma ótima aquisição, mostrando charme e dramaticidade para uma personagem tão complexa, que infelizmente o roteiro não tem tanta abertura para desenvolver como merecia.
“Viúva Negra” até apresenta uma subtrama importante sobre tráfico de mulheres e os danos psicológicos causados ao longo dos anos. Mas o potencial ali existente parece sempre restrito a entregar uma diversão passageira. Por sabermos que planos maiores já foram colocados em prática e outros seguem em desenvolvimento, a impressão é que este longa teria um efeito bem maior se tivesse sido lançado há alguns anos.
Nota: 6,0
Obs: há uma cena pós-créditos importante para os próximos passos daquele universo.