
Não seria incorreto dizer que “Free Guy – Assumindo o Controle” (Free Guy, 2021) é mais uma produção que brinca com os clichês dos games. Ou mais uma comédia debochada no melhor estilo do protagonista Ryan Reynolds. Ou aquele filmes de repetição do mesmo dia em loopings temporais. Ou que surfa na fórmula dos longas de super heróis, com grandiosidade, violência cartunesca e piadas constantes que sobrepõem qualquer tragédia ali existente. É tudo isso, sim, e nem tenta esconder. E justamente por ter seus propósitos bem definidos e a maior parte deles serem executados de maneira tão competente, o resultado é tão agradável.
Na trama, um caixa de banco conhecido apenas como Guy (Reynolds), preso a uma entediante rotina, tem sua vida virada de cabeça para baixo quando descobre que é um personagem em um jogo interativo. Ele precisa então aceitar a sua realidade e lidar com o fato de que é o único que pode salvar o mundo.
Muitos lembram do sucesso que o primeiro “Deadpool” (idem, 2016) teve ao satirizar um gênero que vinha seguindo um padrão (os longas de heróis, principalmente da Marvel), mesmo sem deixar de ser mais um dele. E muito disso se deve à insistência de Ryan Reynolds para que a ideia fosse materializada. Agora que o ator virou alguém requisitado, ele se mostra o nome ideal fisgado pela 20th Century Studios (a ex-Fox, agora pertencente à Disney) para estar à frente deste projeto (aqui, ele assina também como produtor) que em nenhum momento tenta ser original, passeando por muitas vertentes já vistas antes, mas que sempre parece estar rindo do que está fazendo.
A proposta de um mundo ambientado num videogame, com personagens de visual propositalmente exagerados que contrastam com outros bem comuns, é apresentada logo de cara. Cores vibrantes e uma rotina de destruição massiva com explosões e tiros mostram o quanto tudo aquilo é irreal. E à medida em que o protagonista, um desses figurantes dos jogos que ninguém costuma dar atenção, começa a ganhar autonomia, é fácil para o espectador se inserir naquela proposta de desconstrução.
Não à toa o argumento de roteiro de Matt Lieberman (“Crônicas de Natal”, 2018) ganhou todo o tratamento por Zak Penn (“Jogador Número 1”, 2018; “Os Vingadores”, 2012), alguém que já trabalhou no terreno em que os realizadores queriam revirar. Tal violência falsa atrai a simpatia de quem assiste pela indiferença de quem está naquele contexto e, em seguida, com um diálogo que apresenta costume com o número de assaltos num único dia. Quando o novo herói encontra um artefato medicinal para a sua rápida regeneração, acontece aquela identificação por quem cresceu com os eletrônicos. Da mesma forma quando ele acorda num contexto já visto antes e as falas podem ser previstas de modo automático, o objetivo foi atingido.
E Ryan Reynolds praticamente leva nas costas o filme, pois ele não só está acostumado com papéis de bobão, aquele que ninguém ousa duvidar do caráter, que começa a conquistar destaque. O timing cômico dele é diferenciado, de modo que o produto final talvez tivesse um resultado diferente se fosse outro no papel do tal “cara da camisa azul”, por mais simples que seja a construção do personagem. É perceptível que muitas piadas tiveram intervenção dele, seja no roteiro ou por improviso, semelhante ao que aconteceu em “Deadpool” e o estúdio certamente deu a carta branca. A influência dele é tão grande que foi capaz de trazer nomes como Dwayne “The Rock” Johnson, Hugh Jackman, Tina Fey e John Krasinsky para dublarem personagens pouco relevantes.
Em tempos em que alusões a produtos da cultura pop e easter eggs parecem mover o interesse de certas produções – “Jogador Número 1” é um exemplo óbvio que se alimenta desta tendência e é quase inevitável lembrar ao assistir este -, “Free Guy” se mostra até contido neste quesito, mas utiliza o recurso de maneira precisa. Tem ator famosinho que poderia ser uma aparição surpresa…se ele não aparecesse já na sequência de abertura! Há citações, fan-services disfarçados em pôsteres, até culminar num certo ápice que surge de maneira inesperada pela forma gritante como acontece. O público alvo vai rir e curtir.
A escolha por Shawn Levy (“Uma Noite no Museu”, 2006; “Gigantes de Aço”, 2011) para a direção, alguém cujas referências são “produções para a família” bem protocolares, parece ter sido à dedo até para não ultrapassarem limites da censura. Tanto que não há cenas de ação marcantes, confiando no interesse construído por aquele universo. Pode haver um ou outro momento legal, como aquele em que Guy e a “Garota Molotov” enfrentam inimigos numa moto, mas o mérito acaba sendo maior do carisma do próprio Reynolds do que da direção em si. O mesmo pode ser dito do clímax, em que a aparição de uma certa figura que não consegue completar frases garante risadas por toda o contexto.
As gags envolvendo metalinguagem mostrando o “mundo real” funcionam bem, usando da sátira aos influenciadores digitais como ferramenta para fundamentar o núcleo do protagonista. Os cortes dos usuários completamente diferentes com seus respectivos avatares não são nada criativos, mas não incomodam. Porém, se o longa tenta fazer alguma crítica social pela normalização e até idolatria da violência rotineira, a mesma perde todo o peso ao tornar a realidade do universo humano como um mero complemento. Exemplo maior é a caracterização extremamente caricata do vilão Antwan pelo Taika Waititi, que por sua vez, cumpre bem o papel dentro do que a ele é atribuído, quase um desenho animado.
Os poucos atrativos do tal mundo também tiram o interesse pelo romance entre os personagens Keyes (Joe Keery) e Millie (Jodie Comer), que no fim das contas, deveria ser a força motriz da narrativa. O que não chega a ser demérito dos jovens atores, ambos vindos de séries bem sucedidas (“Stranger Things” e “Killing Eve”, respectivamente), que têm muito carisma. Pesa de maneira negativa os diálogos extremamente expositivos atribuídos a eles, de modo que o desenrolar chega a ser piegas pela repetição do óbvio.
Da mesma forma como o bom comediante Utkarsh Ambudkar acaba sendo desenvolvido quase como um antagonista, quando a sua virada soa um tanto forçada. Já Lil Rel Howery, que vive o melhor amigo do protagonista, é retratado cheio de estereótipos, mas a ideia de restrição de humanidade é possível de ser captada, mérito do ótimo ator que permite o surgimento de alguma conexão.
Pronto há anos e demorando a ser lançado por causa da pandemia, “Free Guy – Assumindo o Controle”, é aquele projeto em que parece que todos estão se divertindo durante a realização e tal sentimento é repassado ao espectador. A sensação de ter visto algo parecido está sempre presente, mas a revisita e criação de novas piadas chegam como um passatempo de qualidade.
Nota: 7,5