
Após o fechamento de um arco que durou uma década com “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame, 2019), a Marvel Studios está pavimentando o terreno para uma nova safra de heróis, aproveitando para corrigir erros de representatividade do passado. Se “Viúva Negra” (Black Widow, 2021) chegou como um produto genérico e bem deslocado da época de lançamento, é uma surpresa positiva ver que “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” (Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings, 2021), apresentando um personagem pouquíssimo conhecido das histórias em quadrinhos, tem ousadia para fugir daquela fórmula que caiu no comodismo, homenageando o espírito do melhor do cinemas asiático de artes marciais.
Na trama, Shang-Chi (Simu Liu) é o filho do líder de uma organização criminosa poderosa que foi criado desde criança para ser um guerreiro, mas que decidiu abandonar esse caminho e fugiu para viver uma vida pacífica. Porém, tudo isso muda quando ele é atacado por um grupo de assassinos e se vê forçado a enfrentar seu passado.
Seria confortável para a Disney/Marvel inserir um protagonista de origem asiática e tentar “lacrar” em cima daquele formato que tanto fez sucesso com cenas de ação e piadas constantes. De certa forma, todas essas vertentes estão presentes em “Shang-Chi”, mas os estereótipos são apresentados de maneira até irônica (como a necessidade de lutar sem camisa ou associar “Gangnam Style” a um chinês).
A produção se espelha mais na experiência exitosa de “Pantera Negra” (Black Panther, 2018), ali um ótimo longa sobre tradições e valorização de cultura. O aspecto visual e até o ritmo são diferenciais deste longa dirigido por Destin Daniel Cretton (“O Castelo de Vidro”, 2017), que intencionalmente imprime em cena as suas principais influências. Toda aquele aspecto épico, batalhas corporais e com armas brancas tendo o romance como pano de fundo, tão característico de produções como “O Tigre e o Dragão” (Wo hu cang long, 2000) e “O Clã das Adagas Voadoras” (Shi mian mai fu, 2004) – só para citar exemplos que se tornaram sucesso mundialmente – são utilizados como referência.
A introdução com narração em off do mito dos dez anéis (que viraram pulseiras por questões visuais) não soa nada atrativo, mas a impressão muda já no primeiro encontro entre o vilão Xu Wemwu e sua futura esposa Li (vivida por Fala Chen). A coreografia do combate que se assemelha a uma dança, sempre com sincronia de movimento entre eles, acrescidos do tom místico que já apresenta efeitos funcionais e cores vibrantes, é muito bonito de se ver. Logo, é possível captar a proposta de apreciação e não apenas a vibração pela pancadaria.
Há muitos planos sequências (com cortes disfarçados, o que é normal) em que é possível compreender as acrobacias, com direito a uma fuga com andaimes feitos de bambu. Como boa parte da trama se passa nos dias atuais, nos Estados Unidos, a aventura urbana se mostra muito bem presente com a eficiente cena de luta no ônibus, que bebe direto da fonte dos longas estrelados por Jackie Chan, como “Arrebentando em Nova York” (Rumble in the Bronx, 1996) e até na franquia “A Hora do Rush” (The Rush Hour, 1998, 2001, 2007). Tem humor inserido de maneira natural no meio de uma batalha, tornando a narrativa leve, por mais irreal que ela possa se transformar.
A fantasia ganha elementos diferentes com a inserção de um terra fantasiosa com criaturas exóticas e cenários com design de produção muito dignos. Tudo é de encher os olhos, mas o longa falha em partes quando induz um clímax com guerras grandiosas, mas pouco reproduz essa intenção, focando nos embates individuais. Ainda assim, a aparência de certas criatura certamente chamam a atenção de maneira satisfatória.
Se tratando de um subproduto dentro daquele universo, as alusões são inseridas sem a intenção de roubar as atenções, mas não de modo aleatórias, fazendo surgir o sorriso de canto de rosto naquele fã em momentos pontuais. Há citações cronológicas (como o sumiço da população após o estalo do Thanos) e participações especiais, mas até estas, são calculadas para a introdução do novo herói num contexto maior.
Mas justamente por tentar fugir da famosa “Fórmula Marvel”, o roteiro do próprio diretor Cretton, Dave Callaham (“Mulher Maravilha 1984”, 2020) e Andrew Lanham (“O Castelo de Vidro”, 2017) se mostra um tanto engessado durante o segundo ato ao tentar aprofundar a relação familiar e a obsessão que acomete o antagonista. Fica claro ali um excesso, deixando a impressão de que o longa poderia ter cerca de meia hora a menos nos inchados 132 minutos de duração.
Há muitas facilitações que necessitam da abstração por parte de quem assiste, como por exemplo: qual o motivo de prenderem tal personagem secreto junto com os mocinhos? Como pode um humano aparentemente sem poderes conseguir se comunicar com uma bola de pelo mutante? Sem falar nas atitudes questionáveis de vários elementos em cena (inclusive na batalha final), simplesmente para o script seguir da maneira como os realizadores desejam.
Grande parte do mérito da trama decorrer com leveza é pela excelente química de Simu Liu e Awkwafina. Ele, por mais que volte a encarnar um clichê do herói deslocado de seu habitat, nunca perde a humanidade, sem precisar forçar ser charmoso ou engraçado. Já ela, uma atriz mais do que admirável, dribla o fato de estar lá como alívio cômico, apresentando a sua indignação diante do desconhecido com uma naturalidade cativante. Sua Katy é aquela que fala muito e até se aproveita da fragilidade alheia, mas cativa o espectador com facilidade.
Triunfo também a presença de alguém do gabarito de Tony Leung (uma lenda viva do cinema asiático) para viver o Mandarim (vamos lá, isso não é spoiler nenhum), um dos vilões mais temidos da Marvel. Ele é um dos antagonistas com melhor desenvolvimento até então do MCU, podendo ser até encarado como anti-herói a depender do ponto de vista. Mérito do roteiro do roteiro, obviamente, mas também da construção fria e dramática pelo experiente ator.
Há uma tentativa válida de resgate de um personagem muito mal aproveitado anteriormente, finalmente fazendo justiça a um ator de nível bastante elevado. E conseguem trazendo boas gags (a citação a “O Planeta dos Macacos”, olha….), visto que essa função cômica é clara desde o início e ele recebe, sim, função prática durante os acontecimentos.
“Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” tem ousadia e acerta mais do que erra ao trazer novos elementos para uma franquia compartilhada que necessitava de tal renovação. Tem muitas conveniências e arestas que poderiam ser aparadas, mas as cenas de luta, visual muitas vezes encantador e o espírito do tão tradicional cinema asiático acabam por se sobressaírem, tornando a experiência bem prazerosa. Fica a curiosidade sobre como o novo herói será aproveitado na nova equipe dos Vingadores!
Nota: 7,5