
O diretor James Wan conseguiu a difícil missão de elevar suas produções de terror para um patamar de popularidade pouco comum para o gênero nos dias atuais. Foi assim com “Jogos Mortais” (Saw, 2004) e com a franquia “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013, 2016), rendendo inúmeros derivados de qualidade bem inferior. Tal sucesso deu a liberdade para que o cineasta fizesse o que bem queria e “Maligno” (Malignant, 2021) vem para provar isso.
Depois de se aventurar nos blockbusters “Velozes & Furiosos 7” (Furious 7, 2015) e “Aquaman” (idem, 2018), ambos faturando mais de U$ 1 bilhão nas bilheterias, o seu projeto atual propositalmente se trata de algo totalmente “novo” e independente de universo compartilhado. Ao mesmo tempo em que parece ultrapassado e pasteurizado, o toque refinado do diretor confere um valor diferenciado.
Na trama, Madison (Annabelle Wallis) passa a ter sonhos aterrorizantes de pessoas sendo brutalmente assassinadas. Ela acaba descobrindo que, na verdade, são visões dos crimes enquanto acontecem. Aos poucos, ela percebe que essas mortes estão conectadas a uma entidade chamada Gabriel.
É comum assistir “Maligno” e, muitas vezes ficar a impressão de estar assistindo a algum filme de décadas passadas. Tudo é maximizado: atuações, reviravoltas no roteiro com pausas dramáticas, diálogos expositivos, trilha sonora gritada! Inúmeros clichês do gênero são vistos em cena, seja de assombração de teor sobrenatural ou slashers, aqueles longas de assassinos quase imortais que usam peças afiadas para matar. Mas conhecendo o histórico de Wan, não se trata de descaso. Eles faz questão de brincar com o máximo de influências e elementos, sem a menor intenção de entregar uma obra genial, tampouco revolucionária.
O giallo, gênero cinematográfico italiano tão marcante nos anos 60 e 70 que tem diretores como Mario Bava e Dario Argento como principais referências, é reverenciado por Wan. As cores fortes, principalmente o vermelho que toma a tela de maneira nada discreta, zooms seguidos de frases de efeito, a homenagem está lá, embalada num pacote de terror comercial contemporâneo.
Trata-se de uma coleção de exageros que poderia soar ruim de doer se conduzida por qualquer diretor que não tivesse total domínio do que está fazendo. Logo na cena de abertura, o aspecto caricatural fica escancarado ao apresentar uma clínica psiquiátrica escura, em formato de castelo, situada à beira de um abismo (é preciso um gigante desapego com noções de realidade).
Os créditos iniciais com trilha grandiosa e imagens “incômodas” que poderiam perfeitamente estar numa série de TV também apresenta uma desconexão da tendência de produções atuais que primam pela subjetividade. Os fãs do tal “pós-terror” (vamos esquecer este termo, gente…), tão bem desenvolvido por nomes como Robert Eggers e Ari Aster, devem reclamar pelos cotovelos.
Em meio a “fantasmas” que desaparecem com o acender da luz, passando por um noir que alopra na fumaça de gelo seco que cerca os policiais, a matanças frias com uma arma inusitada, James Wan mostra o seu talento em cenas pontuais na sua colcha de retalhos pessoal. Os travellings de câmera apresentando os espaços da casa, algo que ele já fazia em “Invocação do Mal”, é tocado aqui de maneira bonita com uma tomada aérea, quase explorando a planta do local.
A estranheza prevalece durante toda a projeção e o roteiro (que Wan assina ao lado de Akela Cooper e Ingrid Bisu) vai distribuindo pistas, códigos de narrativa sobre algo que está na cara desde o início. São contorcionismos e rostos desfigurados que instigam a ficar levantando teorias durante e a narrativa prepara o terreno para uma virada que ultrapassa as barreiras da sanidade. Partes do plot twist até são fáceis de serem previstas, mas a revelação atinge o objetivo de impressionar pela bizarrice.
A experiência adquirida pelo diretor em longas de ação é aplicada no terceiro ato, com uma sequência numa delegacia que inclui uma coreografia que enche os olhos, com as doses de sanguinolência e excentricidade elevadas às maiores potências. Se o espectador não se inseriu na proposta de passear por coisas que um dia ele já viu, pelo menos tem a oportunidade de se divertir no final com uma movimentação que foge do convencional. Há alegorias sobre empoderamento feminino e relacionamento abusivo, mas tais vertentes ficam disfarçadas, ironicamente, em algo materializado.
Visto que as atuações são caricatas, pesa de forma contrária a escolha de um elenco tão limitado, talvez para não roubar as atenções do realizador que estampa o pôster. O destaque fica apenas com Annabelle Wallis, que para além das caras e bocas e uma peruca estranha, tem a oportunidade de imprimir carga dramática pela complexidade da personagem principal. A irmã da protagonista, vivida por Maddie Hassen, e os detetives interpretados por George Young (uma clara projeção de James Wan de si em tela) e Michole Briana White não mostram nada que chamem a atenção.
Temos em “Maligno” um James Wan sem se levar à sério e sem medo de parecer tosco. É um amontoado de referências que se conectam de maneira orgânica num produto que atinge o objetivo de ser esquisito. Se fosse feito por alguém com menos talento seria apenas zoado? Nunca saberemos. Só o fato de provocar tal dúvida é um exemplo de que o cineasta não atingiu o status com o grande público à toa e ele tem plena consciência disso.
Nota: 7,0