
Mike Flanagan é, definitivamente, um dos melhores nomes do terror na atualidade. E ele tem conseguido o devido reconhecimento tocando a carreira com produções para o streaming (no caso, exclusivamente a Netflix) e o cinema (chegando a comandar o bom “Doutor Sono”, 2019; continuação do clássico “O Iluminado”, 1980) em paralelo.
No pacote para a plataforma vermelhinha, a ideia de antologia com histórias diferentes à cada temporada e reaproveitando alguns atores não era novidade, visto que “American Horror Story” (da então Fox, empresa comprada pela Disney) já faz isso há mais de uma década. Mas a excelente “A Maldição da Residência Hill” (The Haunting of Hill House, 2018) mostrou o seu diferencial ao prezar pelo drama que permeia os personagens em meio a um cenário sombrio.
E se a segunda temporada, “A Maldição da Mansão Bly” (The Haunting of Bly Manor, 2020) não teve o mesmo sucesso por desequilibrar os gêneros num enredo que já não era original – sinal do menor apreço de Flanagan, que dirigiu apenas o primeiro episódio – ele volta a impressionar com “Missa da Meia Noite” (Midnight Mass, 2021). É, de longe, o projeto mais autoral do realizador, arrancando merecidos elogios de ninguém menos que o escritor Stephen King.
Na trama, Riley Flynn (Zach Gilford) retorna para sua cidade natal depois de anos e esconde um passado sombrio. Com a chegada de um novo padre, um homem carismático e misterioso nessa comunidade costeira e isolada, eventos milagrosos e presságios assustadores começam a acontecer, causando comoção entre os moradores da pequena ilha.
Trata-se daquele projeto com sete episódios de cerca de uma hora cada que, para quem procura um horror tradicional e cheio de sustos, vai achar entediante pelo ritmo lento e os diálogos prolongados.
Quem apreciou as temporadas anteriores e já é familiarizado com o estilo de Flanagan, vai desfrutar de uma obra que mistura conceitos de maneira até ousada, sem perder o estilo visual tão característico das referências do próprio cineasta (que ele nem tenta esconder ao distribuir pôsteres e livros num quarto de um certo personagem).
Afinal, quantas produções sobre “monstros” (sem spoilers, ainda que o tipo de ameaça seja bem fácil de identificar) já foram e ainda serão lançadas? Mas a narrativa óbvia não faz parte dos planos do autor, que coloca como prioridade do roteiro inúmeros questionamentos sobre a fé, religião, principalmente o cristianismo.
O fanatismo é colocado sob interrogação, a ponto de botar no mesmo patamar figuras angelicais e demoníacas. A quase obrigação por crenças pela população provoca uma eterna gangorra entre a paz interna e a alienação, de forma que as cenas de violência vêm para materializar um dilema que percorre desde a existência da humanidade.
Há de reconhecer algumas conversas com tal teor existencialista, visões divergentes e até duvidosas sobre o que existe além da vida, se prolongam em demasia, a ponto de provocar incômodo. Porém, parece estratégia proposital do diretor em não abrir mão da pegada melancólica e densa, mas tratando de inserir algum elemento sobrenatural a cada episódio, garantindo a curiosidade para o que pode acontecer no seguinte.
O mistério é muito bem cadenciado, começando pela dúvida sobre o real papel do tal Padre Paul (Hamish Linklater, de longe o melhor do elenco diante da sua complexidade), pingando dicas de alguma monstruosidade como olhos brilhando no escuro, sequência aérea como se estivéssemos acompanhando o olhar de uma criatura voando.
Até que em certo episódio os segredos são devidamente explicados. O “plot twist” não é o foco, ao passo em que a narrativa se aprofunda na dramaticidade contida nos objetivos de cada personagem.
Se Zach Gilford não transparece tanta força para carregar o protagonismo, possivelmente faz parte dos planos do diretor/roteirista para as quebras de expectativas planejadas. Destaque fica por conta de Rahul Kohli, que vive um pai e policial muçulmano que, mesmo sempre favorável ao diálogo e ao livre arbítrio, carrega o peso que sofre de um preconceito enrustido por conta de suas origens. Rouba também a cena Samantha Sloyan, na pele de Bev Keane, a funcionária da igreja que talvez melhor represente os extremos e negacionismos.
O clímax, reservado para os dois últimos episódios, tem a reunião de peças típicas de um horror tradicional em que entram os muitos códigos de narrativa que vinham sendo apresentados, com o diferencial do drama familiar que Mike Flanagan consegue trabalhar como poucos nos dias de hoje.
Não tem nada de otimista, mas o desfecho é artisticamente belo e, ironicamente, romântico.
Nota: 8,5