
De tempos em tempos surge algo no mundo do entretenimento que vira assunto para todos os lados, que com a impulsão das redes sociais nos dias atuais, excluído é quem não conferiu tal produto. É o caso da série coreana “Round 6” (Squid Games, 2021), que está prestes a se tornar a mais vista da história da Netflix.
O tamanho do sucesso é diretamente proporcional à qualidade? Não necessariamente, como quase tudo na indústria. O que não chega a ser nenhum demérito. O que acontece é um combinado de fatores como trama ágil, crítica social e visual estiloso que tornam a experiência fácil de ser prazerosa para o maior público possível.
Na trama, um homem chamado Seong Gi-Hun (Lee Jung-jae), cuja vida financeira está em apuros, aceita o convite para participar de um jogo com prêmio bilionário para o vencedor. Mas além dele, está um grupo de mais de 400 pessoas competindo pelo dinheiro.
A premissa de colocar civis para participarem de desafios que podem culminar na morte não tem nada de criativa. O criador Hwang Donk-Hyuk já assumiu que nunca tentou reinventar a roda, inserindo referências que passam por “O Sobrevivente” (The Running Man, 1987), “Jogos Mortais” (Saw, 2004), “Battle Royale” (idem, 2000), “Jogos Vorazes” (The Hunger Games, 2012), entre outras. Até mesmo a recente série japonesa “Alice in Borderland” (idem, 2020) segue a mesma proposta, está no mesmo patamar de qualidade, e passou quase desapercebida.
O contexto em que pessoas afundadas em dívidas acabam se tornando diversão para magnatas de grande poderio aquisitivo é a força motriz, ainda que tal prática seja comum desde os primórdios da humanidade, vide os programas de auditório brasileiros comandados por Silvio Santos e, posteriormente, Luciano Huck. O fato de a vida estar em jogo acaba sendo apenas a materialização do eterno abismo entre classes sociais, construído numa narrativa visceral. Acontece que tudo (ou quase) em “Round 6” se encaixa.
Começando com o design de produção e figurino, cenários com cores extremamente vivas, contrastando com a realidade urbana crua e poluída. Os funcionários com macacões vermelhos e máscaras com figuras geométricas são o “cartão de visitas” da série que, assim como aconteceu com as vestimentas semelhantes e máscaras de Salvador Dali de “La Casa de Papel”, têm tudo para virar moda entre as fantasias de Carnaval e Halloween. A boneca gigante do primeiro jogo é a representação da mistura de ilusão infantil com violência, presente do início ao fim. Os exageros funcionam!
O argumento de que a “vida real” é mais dolorosa do que um jogo de matança e os valores humanitários inexistem diante do dinheiro não é trabalhada de maneira tão eficiente como no fantástico e premiado “Parasita” (Parasita, 2020), mas Hwang Donk-Hyuk trabalha cada “brincadeira de criança” com uma direção segura e os personagens são desenvolvidos com camadas em que o espectador alterna entre a simpatia e o ódio com extrema facilidade.
Logo no primeiro episódio, o jogo da “Batatinha Frita 1, 2, 3” tem uma sequência de aniquilação que prende a atenção, segurando a audiência. Algo essencial para a quebra de expectativas que acontece no capítulo seguinte, importante para fomentar a ideia de que uma rotina “comum” pode ser mais desgraçada do que viver a adrenalina de estar à beira da morte. O cineasta também prima por conseguir manter o mesmo nível de intensidade em desafios menos grandiosos, como o de tirar uma figura de biscoito ou de bolinha de gude.
Ainda que nem todos recebam grande atenção pelo roteiro, a narrativa sabe apontar aqueles os quais o espectador vai simpatizar, casos do idoso fofo Oh II-Nam (Oh Yeong-soo) e do inocente paquistanês Abdul Ali (Tripathi Anupam). Indo pelo caminho de que o povo torce pelos mais fracos em cenários cruéis, eles são peças certeiras. Já Kang Sae-Byeok (Jung Ho Yeon), principal figura feminina, foge da figura da mulher frágil, entregando carisma de sobra.
O foco fica mesmo em torno do protagonista Gi-Hun (Lee Jung-jae), alguém apontado como falho desde o início pelo gosto por apostas e atitudes questionáveis para com a própria mãe. Ele evolui como um anti-herói que tem a vontade de trazer paz para si próprio e para a família, se incomoda com o maltrato injustificável, o que não impede de conferirmos desvios de caráter pesados em momentos decisivos.
A figura de um vilão principal se alterna entre o líder mascarado e do típico antagonista dentro do jogo que tem uma tatuagem de cobra no rosto (vivido por Heo Sung-Tae). No meio de tudo isso, é interessante como a dúvida sobre o real papel na trama é tocada de maneira cautelosa em personagens como o policial galã Hwang Jun-Ho (Wi Ha-Joon) e o participante procurado pela polícia Cho Sang-Woo (Park Hae-Soo).
Tais elementos são bem utilizados para constantes reviravoltas da trama, algumas corajosas e que vão mexer com os sentimentos do receptor, outras duvidosas por não saberem segurar a maturidade. Certos plot-twists são, sim, previsíveis. O último episódio, então, é um festival expositivo e de decisões questionáveis.
É natural a sensação de que certas atuações de atores coreanos soam exageradas, algumas claramente acima do tom, como a sempre deslocada Han Mi-Nyeo (Kim Joo-Ryung), porém, até combinam com o tom quase cartunesco aplicado.
“Round 6” é aquele caso que será estudado pelo estrondoso sucesso de uma produção sul-coreana na mais popular plataforma de streaming do mundo, algo digno de palmas para um país que tem investido cada vez mais nesta área. Porém, é provável que ela seja pouco lembrada após passar todo o hype. Não tem nada de inovador, certos fatores são encaixados justamente para emplacar, mas entrega tudo o que se propõe a ser de maneira competente.
Nota: 7,5