Crítica: “007 – Sem Tempo Para Morrer” é uma despedida abaixo do merecimento de Daniel Craig

Lá se vão 15 anos desde que Daniel Craig estreou no icônico papel do espião 007 no marcante “Cassino Royale” (idem, 2006), reinventando uma longínqua franquia que parecia cair no desgaste. Um James Bond loiro, musculoso, sentimental e numa ação “mais realista” (pegando carona na saga Bourne) garantiram a fácil identificação de diferentes gerações com o personagem.

Com outro longa igualmente espetacular no meio do caminho, “007 – Operação Skyfall” (Skyfall, 2012); um mediano, “007 Contra Spectre” (Spectre, 2015); e um fraco, “Quantum of Solace” (idem, 2008); Craig se despede do terno black tie neste “007 – Sem Tempo Para Morrer” (No Time do Die, 2021), uma produção cheia de altos e baixos cujo valor fica abaixo do seu legado.

Na trama, depois de sair do serviço ativo da MI6, James Bond (Daniel Craig) vive tranquilamente na Jamaica. Uma missão de resgate de um grupo de cientistas por outra agência acaba sendo mais traiçoeira do que o esperado, levando o agente inglês ao misterioso vilão Safin (Rami Malek), que utiliza de novas armas de tecnologia avançada.

Até o lançamento nos cinemas em outubro de 2021, quando a vacinação contra a Covid-19 caminha em bom ritmo, foi uma longa jornada para conferirmos tal filme, pronto desde 2019. Primeiro por causa da aquisição da Universal Pictures para a distribuição internacional (junto com a MGM). Depois pela troca na cadeira de diretor. Danny Boyle (“Trainspotting 1 e 2”; 1996, 2017) saiu por “diferenças criativas” para a entrada do talentoso Cary Joji Fukunaga (“True Detective”, 2015; “Beasts of No Nation”, 2015), que aqui soa como uma escolha protocolar do estúdio, sem tantos traços autorais.

Mas Fukunaga tem seus momentos, principalmente no comando das cenas de ação. Perseguição de moto e, principalmente, tiros num carro blindado em que é possível sentir o impacto dos disparos, funciona bem. As coreografias de lutas com armas, que não se restringem ao personagem principal, são agradáveis de se ver. A brutalidade está cada vez mais ampliada quando conferimos um veículo caindo sobre alguém e balas sendo atiradas no rosto sem piedade, movida sempre por dramas pessoais, não de maneira gratuita.

É admirável o respeito pelos longas que construíram esse caminho, inserindo easter eggs de maneira charmosa, como o corredor de quadros dos antigos “M”, a indução da clássica abertura num cano de arma através de um cenário subterrâneo, o momento em que o agente joga o crachá no lixo, entre outros. Personagens tão recorrentes como Q (Ben Whishaw) e Moneypenny (Naomie Harris) são mais do que arquétipos de um armamentista e uma secretária, mas essenciais para o desenrolar da história.

Se tem algo que tornou a “fase Craig” tão memorável foi o fato de manterem uma continuidade entre os acontecimentos, sem que cada filme soasse episódico. Sim, isso provocou algumas decisões forçadas como aquelas vistas em “Spectre” (o Blofeld, vivido por Christoph Waltz, segue desperdiçado aqui de maneira vergonhosa), mas a ideia de unidade foi importante para acompanharmos a evolução do personagem.

Essencial foi a manutenção dos roteiristas Neal Purvis e Robert Wade desde “Cassino Royale”, assinando todos os cinco longas. Neste, a dupla ganha o importante reforço de Phoele Waller-Bridge (da impecável série “Fleabag”), cujo toque é nítido no intuito de corrigir os machismos que marcaram o personagens durante décadas. Aqui, as mulheres não são meros objetos de satisfação sexual do agente secreto, por mais que ele até tente.

Ao mesmo tempo, é de lamentar que o projeto selecionado para marcar o fim de uma era carregue uma trama tão clichê sobre arma de ameaça global e mais um vilão da cara desfigurada que procura vingança. O plano de utilizar um gás cuja complexidade é justamente atingir apenas pessoas específicas, mas para matar de maneira massiva, nunca parece fazer sentido.

Os esticados 163 minutos são sentidos de maneira cansativa, com inúmeras passagens que parecem não chegar a lugar algum. Certos diálogos prolongados são entendíveis para a construção do sentimento junto a Madeleine (Léa Seydoux, entregando um trabalho eficiente) e o M atual (Ralph Fiennes, que imprime um cansaço diante do trabalho pesado que o humaniza mesmo com atitudes questionáveis).

Incomoda a maneira como algumas personagens são inseridas sem objetivo maior definido. Nomi, vivida por Lashana Lynch, tem uma presença forte, mas acaba se tornando uma “side kick” que manda bem nas cenas de ação e merecia mais do que ser uma ajudante e motivo da constante piada do porte do número 007. Mais bizarro ainda é a utilização de uma atriz que está em alta como Ana de Armas para uma sequência pontual por conta da sua nacionalidade, possivelmente já mirando um spin off. Ela esbanja carisma e alívio cômico, mas sua função é praticamente nula.

O maior defeito se encontra mesmo no já citado vilão. E não dá nem para jogar toda a culpa em Rami Malek (vindo do Oscar mais injusto de todos os tempos por “Bohemian Rhapsody”, 2018), que tenta deixar a sua marca como um daqueles vilões de 007 caricatos, cheio de caras e bocas. Mas a direção trata de colocá-lo como peça central logo na cena de abertura, o esconde durante boa parte da narrativa e, no pouco tempo em cena, a entrega não corresponde à tanto mistério. A discrepância chega a doer se pararmos pra comparar com outros antagonistas como LeChifre (Mads Mikkelsen) e Silva (Javier Bardem).

Algumas escolhas de roteiro são trabalhadas para provocar emoção e a trilha sonora do sempre ótimo Hans Zimmer consegue atenuar essas sensações, às vezes resgatando o tema clássico, às vezes trazendo pegadas melancólicas ou subindo nos tons grandiosos. Mas se vai conseguir arrancar lágrimas, vai depender bastante de cada espectador. Nem todos vão se comover com uma “pose de herói” e é até razoável questionar as escolhas de James Bond, por mais que a versão de Craig tenha ressignificado muitos conceitos.

Deixando para o último parágrafo a atuação do próprio Daniel Craig, ele é o que segura a atenção do início ao fim. As expressões de decepção que passam pelo deboche, até culminar naquele Bond humano e de charme “exótico” que deu certo em 2006, ele é o centro das atenções. E mesmo com uma trajetória irregular nos cinemas, sua marca é inegável. Por isso mesmo ele merecia um longa que fugisse do lugar comum para o tão marcante adeus.

Nota: 6,0

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